Proteção contra incêndios durante a construção

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Ponto de vista

Proteção contra incêndios durante a construção

Por Jaime A. Moncada
Em 29 de setembro passado estava numa reunião na Cidade do Panamá, quando me informaram sobre um incêndio que ocorria naquele momento numa das torres mais altas da cidade.
 Sem pensar duas vezes, cancelamos a reunião e saímos correndo para a torre. O incêndio havia começado perto das 13 horas no 52º andar de um prédio de escritórios na sua fase final de construção.

O prédio, chamado de Parque Financeiro da Costa Oeste, ficava na parte sul da cidade, numa das zonas mais modernas, O Panama01 200x355edifício tem 205 m de altura, com área construída de, aproximadamente, 1000 m² por piso, com fachadas tipo cortina. O incêndio começou na torre de resfriamento no teto do edifício.

O edifício estava protegido por sprinklers automáticos (que não estavam operando no momento do incêndio), sistemas de detecção de fumaça, alarme sonoro, um hidrante vertical com saídas para mangueiras numa das escadas e duas escadas de evacuação. O prédio tinha duas escadas independentes, coisa muito positiva, pois várias das torres construídas nesta moderna cidade, especialmente residenciais, têm apenas uma escada. Contudo, as portas destas duas escadas estavam uma em frente da outra, a aproximadamente 2 m (veja a foto na siguinte página). Esta distância não atende ao afastamento exigido no NFPA 101, Código de Segurança da Vida, que exige que os acessos das saídas devem ficar a uma distância entre si não menor que um terço da distância da maior diagonal da planta do prédio – este critério se aplica somente para edifícios com sprinklers automáticos (NFPA 101, art. 7.5.1.3.3). Esta exigência busca minimizar a possibilidade que mais de uma das saídas fiquem bloqueadas pelo fogo. Para poder cumprir a norma vigente no Panamá, ou seja, o NFPA 101 de 2003, a distância mínima entre as portas deveria ser de cerca de 15 m.

O incêndio não foi dos maiores, embora espetacular, mas deixou visível outra vez que a arquitetura que se está praticando nesta cidade, como em muitas outras capitais latino americanas, pelo seu tamanho e altura, requer sistemas de segurança contra incêndios modernos, eficazes e eficientes. Não houve fatalidades, nem feridos e o incêndio praticamente se apagou por si. O custo, de, talvez, menos de cem mil dólares, é uma fração do custo de um projeto destes. Quando cheguei ao local tive a oportunidade de conversar com os bombeiros responsáveis pela emergência, que me informaram que não tinham podido chegar com água na base do incêndio, pois a coluna d’água ainda não estava funcionando. Tivemos discussões sobre a logística necessária para levar água ao incêndio, conectando o caminhão dos bombeiros aos hidrantes de rua, injetando água pelas conexões para os bombeiros e na conexão para mangueira da coluna d’água do último piso, ligando as mangueiras para poder extinguir o incêndio. Ficou muito claro, para nós, que um planejamento antecipado e consequente treinamento são essenciais para operar efetivamente numa emergência deste tipo.

Mas o que ficou mais claro para mim e meus colegas que estavam juntos, é que, como já escrevi nesta coluna, o NFPA 101 não cobre muitos dos temas que têm que ser regulamentados no mundo moderno quanto à segurança contra incêndios. O NFPA 1, Código 

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de Incêndios, é o código que deveria ser adotado pelas nossas jurisdições, pois inclui temas como, por exemplo, a segurança contra incêndios em prédios em obras, tema que o NFPA 101 não aborda explicitamente.

A ocorrência de um incêndio em um prédio em construção é mais frequente e, por isso, mais provável durante a construção ou reforma. O NFPA 1, em seu Capítulo 16, define quais as salvaguardas que devem existir num edifício em obras. Este capítulo, a propósito, é um resumo da NFPA 241, Norma para Salvaguardas de Operações de Construção, Reformas e Demolição. O capítulo 16 do NFPA 1 estabelece os seguintes parâmetros que, no meu entender, resumem a importância destas precauções contra incêndio:

  • Coluna d’água (standpipe): À medida que a construção vai avançando, a coluna d’água deve crescer junto com o edifício. Quando se adiciona mais um piso e a escada, a coluna deve ir junto. (NFPA 1, art. 16.4.3.3.2.8).
  • Mangueiras: embora mangueiras não seja mais exigidas em prédios altos (somente conexões para elas são exigidas), durante a construção do prédio se deve conectar as mangueiras com bicos, as quais devem permanecer conectadas na coluna naquelas áreas onde a obra acontece (NFPA 1. Art. A.16.4.3.3.2.8).
  • Conexões para os bombeiros: as colunas d’água devem estar conectadas às conexões para os bombeiros, que devem estar estrategicamente marcadas e facilmente acessíveis aos bombeiros locais (NFPA 1, art.16.4.3.3.2.1).
  • Hidrantes de rua: a rede contra incêndios e os hidrantes devem ser instalados, completados e postos em serviço antes que a construção da estrutura possa começar. É permitido que os trabalhos de concretagem comecem antes da finalização dos hidrantes. (NFPA 1, art. 16.4.3.1.3).
  • Sprinklers automáticos: se é exigido que o edifício tenha sprinklers automáticos, este devem ser postos em serviço o mais rápido possível (NFPA 1, art 16.4.3.2.1).

  • Alarmes de incêndio: em prédios muito grandes ou altos deve existir um equipamento de alarme audível para iniciar a evacuação (NFPA 1, art. A.16.3.3).
  • Escadas: em prédios de mais de um piso, pelo menos uma escada deve estar disponível e utilizável a qualquer momento, cumprindo as exigências da NFPA 101 (NFPA 1, art. 16.3.4.5.1).
  • Pré planejar os incêndios: deve existir um plano que estabeleça como a equipe de construção e os bombeiros locais vão enfrentar um incêndio no prédio durante sua construção (NFPA 1, art. 16.3.2.3).
  • Programa de segurança contra incêndios: deve-se desenvolver um programa de segurança contra incêndios que enfatize limpeza, segurança, instalação dos sistemas de proteção, organização e treinamento da brigada de incêndio; desenvolver um pré-plano de ação com os bombeiros, comunicações e considerações sobre riscos especiais, entre outros (NFPA 1, art. 16.3.1).

Como mencionei anteriormente, os incêndios durante a construção são frequentes. Recordo dois outros incêndios importantes em projetos onde tive a oportunidade de trabalhar no projeto como engenheiro de incêndios. O primeiro ocorreu em 5 de setembro de 2006, no 43º andar da Torre Del Espacio em Madrid, o prédio mais alto da Espanha (53 pisos, 223 m de altura). O segundo aconteceu em 12 de outubro de 2012, na Star Bay Tower, na Cidade do Panamá, onde o fogo começou no segundo subsolo desta torre de 65 andares (267 m de altura), o segundo prédio mais alto do país. Nos dois casos os bombeiros tiveram muita dificuldade em controlar os incêndios. Outro incêndio recente e emblemático foi em 16 de fevereiro de 2011, no Hotel Riu Plaza, de 44 andares (215 m), o prédio mais alto de Guadalajara e o segundo mais alto do México, onde uma explosão de um tanque de GLP matou duas pessoas e feriu 16 outras.

A lição que ficou de tudo isto, para mim, e espero que sirva também a todos vocês, é que, durante a construção de qualquer prédio, deve haver uma estrutura mínima que permita controlar um incêndio no começo. Por outro lado, o conteúdo do NFPA 1 confirma, mas uma vez, que este é o código a seguir nas nossas cidades latino americanas.

Nota: A documentação de um incêndio exige a ajuda e o apoio desinteressado de muitas pessoas. No caso do Parque Financeiro quero agradecer a Arturo Justianini, um grande amigo e reconhecido membro da NFPA no Panamá, que me levou e acompanhou até o incêndio. A José Anibal Castillo, que também me acompanhou até o incêndio, um jovem panamenho que se formou recentemente em engenharia de incêndios na Universidade de Mariland. Quero, também, agradecer a meus amigos do Corpo de Bombeiros do Panamá, em especial ao Maj. Estíritu de Frías e ao Cap. Juan de Arco. Diretor e subdiretor da DINASEPI, o Escritório de Prevenção do Corpo de Bombeiros do Panamá, que me convidaram a inspecionar o prédio logo depois do incêndio.

Jaime A. Moncada, PE, é diretor da International Fire Safety Consulting (IFSC), uma empresa de consultoria em proteção contra incêndio, com sede em Washington, DC e escritórios na América Latina.

 

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