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Como a demografia e a topografia se chocam para fazer do Incêndio de Camp na Califórnia o incêndio mais letal e destrutivo de todos os tempos.

Por Angelo Verzoni

 

Ernest Foss era um dos muitos aposentados para quem Paradise se tinha tornado a sua casa. Depois de crescer em São Francisco, onde mais tarde criou três filhos e trabalhou como músico de estúdio, Foss, de nome Ernie, mudou para a cidade pitoresca aninhada ao pé da Sierra Nevada, a aproximadamente 50 milhas ao norte de Sacramento, para viver seus anos dourados.

Quando o Incêndio de Camp, avançando rapidamente, devastou Paradise no dia 8 de novembro, arrasando praticamente toda a comunidade, Foss, um homem de 63 anos acamado e sofrendo duma doença crônica, não conseguiu sair, relatou o San Francisco Chronicle. Ele e o seu enteado, Andrew Burt, morreram quando Burt tentava sentar Foss na cadeira de rodas para abandonar o local.

A situação enfrentada por Foss e Burt ilustra em parte porque o Incêndio de Camp foi o incêndio mais letal de todos os tempos na Califórnia, matando pelo menos 86 pessoas. A população de Paradise era mais velha que a média, com uma parte significativa dos residentes maiores de 65 anos. A cidade tinha também uma proporção maior de residentes com deficiências. Quando essa população vulnerável enfrentou a topografia e a história dos incêndios em Paradise – a maior parte da cidade se encontra na zona de interface urbano-florestal – o encontro só podia produzir uma catástrofe.

Os peritos esperam que uma melhor compreensão dos fatores que contribuíram para a gravidade do Incêndio de Camp ajude a prevenir futuras tragédias. "Talvez depois do Incêndio de Camp vamos finalmente aprender a lição e atuar nessa base," disse Michele Steinberg, diretora da Divisão de Incêndios Florestais da NFPA.

Uma população vulnerável

Além de ter sido o mais letal, o Incêndio de Camp foi também o incêndio florestal mais destrutivo de todos os tempos na Califórnia. Ele queimou mais de 153,000 acres, ou 240 milhas quadradas, destruiu por volta de 19,000 estruturas, incluindo aproximadamente 14,000 casas e causou perdas de estruturas residenciais e comerciais estimadas em 11 a 13 bilhões de dólares. O incêndio rematou uma temporada feroz de incêndios florestais no Golden State, onde mais de 1.8 acres de terras foram queimados – mais de 550,000 acima do número de acres queimados em 2017 e apenas 200,000 menos que o número de acres que arderam nos três últimos anos juntos.

O Incêndio de Camp era grande, mas seu tamanho não era fora do comum. Outro incêndio ocorrido na Califórnia em 2018, o Incêndio do Complexo Mendocino, com aproximadamente 460,000 hectares queimados, foi o maior da história da Califórnia. O tamanho do Incêndio de Camp nem sequer o coloca entre os 15 maiores incêndios da história do estado. E apesar de o Incêndio de Camp ter avançado sem dúvida a um ritmo impressionante – engolindo terreno no seu auge a um ritmo de 80 campos de futebol por minuto, de acordo com relatos publicados – muitos outros incêndios florestais da Califórnia, como o mortífero Incêndio Tubbs, que devastou Sonoma e Santa Rosa em 2017, avançavam também rapidamente.

O fator que distingue o Incêndio de Camp é a existência da cidade de Paradise, a maior comunidade situada no seu caminho. Fundada no século 19 como uma comunidade mineira, a cidade foi promovida nos anos 70 como um destino para cidadãos mais velhos. A campanha funcionou e a população mais que duplicou nos anos seguintes, enquanto os aposentados fugiam de cidades como São Francisco e Sacramento para "viver nossos últimos anos em paz," relatou The Chronicle. "Temos uma população com números maiores de pessoas idosas, com renda fixa e com deficiência. Isso [descreve] muitos membros da nossa comunidade," disse à imprensa Scott Lotter, Conselheiro municipal da cidade de Paradise.

De acordo com dados do Escritório do Censo de Estados Unidos, por volta de 25% dos residentes em Paradise tinham 65 anos ou mais. Por comparação, 12.4% dos residentes da cidade vizinha de Chico têm 65 anos ou mais; no estado da Califórnia o valor é de 14% e ao nível nacional 15.6 por cento. Além disso, 18.4% dos residentes de Paradise tinham menos de 65 anos, mas tinham deficiências, contra aproximadamente sete por cento da população do estado e 8.7% da população do país.

 

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O Incêndio de Camp surpreendeu quase todo mundo. Começou como um incêndio de matagal na periferia da cidade e em poucos minutos se desenvolveu num incêndio florestal significativo impulsado pelo vento e logo se tornou urbano. Enquanto o fogo rugia por toda a cidade, deixando pessoas presas em suas casas e cortando rotas de escape dos residentes que fugiam nos seus carros, a característica demográfica da cidade se tornou um problema. "Muitas das pelo menos 85 pessoas que faleceram eram idosos, doentes ou deficientes," escreveu o Sacramento Bee em 4 de dezembro. "Eles poderiam não ter tido a força física, a capacidade mental ou talvez o desejo de se salvar."

Até meados de dezembro, o Escritório do Xerife de Butt County tinha dado a conhecer os nomes e idades de 53 pessoas que morreram no Incêndio de Camp, muitos dos quais residentes de Paradise. A idade média das vitimas era de 72.7 anos; o mais velho tinha 99 anos. É difícil determinar quantas vítimas eram pessoas com deficiência, mas as provas circunstanciais sugerem que esse foi também um fator importante entre as mortes causadas pelo Incêndio de Camp. "Uma e outra vez, são na sua maioria as pessoas com deficiências e idosas que são deixadas atrás," disse ao Bee Christina Mills, diretora executiva da California Foundation for Independent Living Centers.

Não é raro que seja assim durante os incêndios florestais e outros desastres naturais, mas os especialistas dizem que poucas comunidades têm planos abrangentes para evacuar as populações vulneráveis.

"As evacuações estão absolutamente repletas de desafios," disse Steinberg, começando com a hipótese que todos vão receber as notificações de emergência, entendê-las e ter o tempo, as capacidades, os recursos e a consciência da situação para poder responder de forma apropriada. Com as estradas inclinadas, estreitas e sinuosas e a sinalização deficiente, são necessários esforços "heróicos" mesmo para pessoas em boas condições físicas para escapar dos incêndios florestais em comunidades rurais como Paradise, disse Steinberg. "O que acontece com as pessoas confinadas nas suas casas, as que não têm veículos, as que não podem dirigir? Muito poucos lugares tiveram essas discussões diretas entre residentes, gestores de emergências e oficiais dos bombeiros e da polícia sobre como seria realmente o ‘mau’ dia e o que eles deveriam de fato fazer quando esse dia chegar."

Numa pesquisa de aproximadamente 400 departamentos locais de saúde nos Estados Unidos, realizada em 2017 pela National Association of County & City Health Officials (NACCHO), 93% disseram que tinham um plano de emergência que incluía a população idosa e 92% dizia que tinha um plano de emergência que incluía as pessoas com deficiências.

O problema, disse Nick Boukas, diretor de preparação no âmbito da saúde pública da NACCHO, é que esses planos não eram sempre elaborados com a contribuição de agências de segurança pública ou da comunidade no seu conjunto e nem sempre se realizava treinamento. Da mesma forma, outros departamentos e agências podem fazer seus próprios planos sem contribuição dos departamentos de saúde, dos provedores locais de cuidados de saúde, ou da comunidade. "A maioria dos departamentos de saúde poderia levar em conta fatores como saber si as pessoas com deficiências dependem de equipamento médico permanente como tanques de oxigênio, mas será que os bombeiros e os serviços de emergências médicas levam isso em conta e sabem o que é preciso para resgatar ou evacuar essas pessoas?" disse Boukas. "A maioria das vezes trata-se de encontrar financiamento para juntar todas as partes à volta da mesa para planejar e treinar juntos." À medida que os incêndios florestais se tornam mais freqüentes, particularmente quando afetam as áreas urbanas, os respondedores e os planejadores de emergências devem ser mais conscientes da composição demográfica da comunidade e do que os intervenientes trazem para a mesa em termos de preparação e resposta," disse Boukas. "A abordagem deve considerar a comunidade no seu conjunto," ele acrescentou. "Você nunca quer começar uma amizade na cena duma emergência – você quer conhecer as pessoas com antecedência e compreender o que é que eles podem fornecer."

Apesar de não ser específica para os incêndios florestais, a divisão de educação pública da NFPA oferece uma guia de planejamento de evacuação de emergência para pessoas com deficiências. O documento sublinha, por exemplo, que as pessoas que precisam de assistência para evacuar não deveriam ter de esperar que cheguem os socorristas; deveria haver um plano estabelecido que atribua a outros funcionários públicos ou membros da comunidade a tarefa de dar-lhes assistência mais cedo.

De acordo com as notícias da mídia sobre o Incêndio de Camp, alguns residentes disseram que as notificações chegaram tarde demais ou não chegaram. Numa entrevista com o Denver Post em novembro, Phil John, presidente do Paradise Ridge Fire Safe Council, defendeu o plano da cidade, que ele ajudou a desenvolver. Ao mesmo tempo, contudo, ele acrescentou, "ninguém poderia ter planejado para um incêndio como esse."

UMA CIDADE EM PERIGO

Os desafios da proteção das populações vulneráveis contra os incêndios florestais se enfrentam ao contexto da mudança climática e da expansão do ambiente construído, fatores que estão tornando os incêndios florestais mais perigosos. E Paradise foi um exemplo excelente de como as características naturais e criadas pelo homem duma comunidade podem influenciar a gravidade dum incêndio florestal.

As condições que constituem a interface urbano/florestal, ou WUI (da sigla em inglês), incluem conjuntos de ambiente edificado que confinam ou existem em áreas sujeitas aos incêndios criando bairros diretamente em situação de perigo. De acordo com o laboratório SILVIS do Departamento de Ecologia das Florestas e Fauna Bravia da Universidade do Wisconsin, a WUI esteve crescendo nas últimas décadas em todo o país. Os dados do laboratório mostram que, de 1990 a 2010, a WUI na Califórnia cresceu em 1.1 milhões de acres, o número de casas na WUI cresceu em 1.1 milhões e o número de pessoas vivendo na WUI cresceu em 2.9 milhões. Depois do recenseamento de 2020 haverá novos dados disponíveis.

No sitio web do laboratório, silvis.forest.wisc.edu/wui, o mapa interativo mostra a prevalência da WUI no nível municipal. Veja Paradise, o mapa está coberto de pontos vermelhos e amarelos que representam as áreas onde as construções confinam ou se misturam com a floresta. O mapa apresenta um panorama muito preocupante de como muitas pessoas e construções se encontravam em perigo quando o Incêndio de Camp devastou a cidade.

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Para entender como o resultado do incêndio poderia ter sido diferente se tivesse queimado fora da área de interface, considere o Incêndio do Complexo Mendocino, que ardeu a aproximadamente 75 milhas ao sudoeste de Paradise no final do verão. A área do incêndio tem muito menos pontos vermelhos e amarelos no mapa do SILVIS Lab. Enquanto o Incêndio do Complexo Mendocino queimou pelo menos quatro vezes mais acres do que o Incêndio de Camp, ele matou uma pessoa e destruiu menos de 300 estruturas.012

Quase todo o crescimento da WUI – 97%, de acordo com o SILVIS lab – ocorreu como resultado das novas construções ocupando terrenos sujeitos aos incêndios e não há previsões que isso mude. As pessoas continuarão a construir nessas áreas para viver mais perto da natureza, evitar a regulamentação do governo, ou diminuir os custos de vida, disse o New York Times em novembro.

Aquilo que pode mudar, contudo, é como as pessoas constroem e mantêm suas casas na WUI. As brasas transportadas pelo vento causam a destruição durante os incêndios florestais – é assim como os terríveis incêndios urbanos se propagavam nos séculos passados. Então construir casas e outras estruturas com materiais mais resistentes ao fogo, como o metal em lugar da madeira, uma prática conhecida como fortalecimento das casas e criar espaço defensável mantendo as propriedades livres de matagal seco e outros combustíveis, pode reduzir drasticamente a probabilidade de ignição de uma estrutura ou propriedade quando é atingida por brasas.

Na Califórnia existem orientações para implementar esse tipo de práticas que podem ser adotadas e modificadas pelas jurisdições locais. "A informação existe," disse Scott McClain, oficial de informação pública do Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndio da Califórnia. "Trata-se de orientações para fortalecer as casas e criar espaço defensável… informação sobre o melhor tipo de telhado, de paredes, de cercas, como deveria construir um deck." (Leia mais sobre os esforços para proteger as casas contra a ignição pelos incêndios florestais – e porque esses esforços não são adotados universalmente – no artigo de tapa da edição Marzo 2018 do NFPA Journal Latinoamericano "Construir. Queimar. Refazer?".)

Em Paradise, mais casas fortalecidas teriam provavelmente reduzido a destruição, mas é difícil dizer exatamente qual teria sido o impacto dessas medidas. As brasas do incêndio voaram com uma velocidade impressionante pela pequena cidade de Concow e logo em Paradise, acendendo um novo incêndio "a cada vez que uma brasa aterrissava" na paisagem totalmente seca ou numa casa, muitas das quais eram antigas e feitas de madeira, disse McClain.

Ele comparou o incêndio à chamada "Tempestade perfeita" de 1991, uma convergência de tormentas no Atlântico Norte que criou uma mega tempestade massiva e destrutiva. "Bem, foi como a tormenta se transformando em incêndio, por assim dizer." Um incêndio normal atinge uma área e avança a partir desse ponto, e você pode evacuar zona por zona. Mas neste caso as brasas mergulharam no fogo diferentes partes da cidade ao mesmo tempo. O incêndio envolveu tudo e todos ao mesmo tempo."

 

 

 

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