Salvaguardando a Historia

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Salvaguardando a Historia

Por Angelo Verzoni
Museo de Brasil
 
LUEGO DEL CATASTRÓFICO INCENDIO QUE DESTRUYÓ EL MUSEO NACIONAL DE BRASIL, OFICIALES DE SEGURIDAD Y EXPERTOS EN PRESERVACIÓN EN TODO EL MUNDO SE ENFOCAN EN LA PROTECCIÓN DE EDIFICIOS HISTÓRICOS.
 Por Angelo Verzoni

José Urutau Guajajara via as chamas como um assassinato

Ele reagia ao enorme incêndio que tinha devastado o Museu Nacional de Brasil no Rio de Janeiro no dia 2 de setembro. Milhões de artefatos culturais foram destruídos pelo fogo, incluindo dezenas de milhares de relíquias de tribos nativas do Brasil.

Guajajara, membro de uma dessas tribos, comparou a perda com "um novo genocídio, como se tivessem massacrado novamente todas aquelas comunidades indígenas, porque é ali onde residia a nossa memória," ele disse ao New York Times.

O presidente do Brasil, Michel Temer, qualificou as perdas de "incalculáveis" num tuíte publicado no dia do incêndio. "É um dia triste para todos os brasileiros," escreveu Temer.

De acordo com os peritos de museus, funcionários encarregados da segurança contra incêndio e políticos que foram entrevistados depois do incidente, essa perda poderia ter sido prevenida dando maior atenção e recursos ao museu, o que poderia ter preparado o caminho para aprimoramentos essenciais da segurança contra incêndio.

CONTEUDO RELACIONADO

4 Perguntas
Dirigentes da NFPA refletam sobre o incêndio do museu brasileiro.

Leia o artigo "Restaurar a Ordem" sobre os desafios da introdução de sistemas de segurança contra incêndio e proteção da vida nos tribunais históricos dos Estados Unidos.

Leia um relatório publicado pela Siemens em 2015 sobre a prevenção dos incêndios em museus e edifícios históricos.

 

O edifício de 200 anos, um antigo palácio da família real portuguesa, não tinha sprinklers anti-incêndio e portas corta-fogo. Os hidrantes anti-incêndio próximos do museu não conseguiram fornecer aos bombeiros uma quantidade de água suficiente para combater as chamas. O museu continha aproximadamente 20 milhões de artefatos, dos quais quase 90 por cento foram destruídos no incêndio. A mídia concentrou sua cobertura do incidente principalmente no fato que era um museu que se tinha incendiado, perguntando qual é o valor que a sociedade atribui à preservação dos artefatos, mas o fato de se tratar dum edifício histórico tem a mesma importância – museus ou não, os edifícios históricos correm um elevado risco de incêndios catastróficos a não ser que sistemas modernos de incêndios e proteção da vida sejam introduzidos de alguma maneira.

O incêndio do museu no Brasil foi o último duma série de grandes incêndios que atingiram recentemente edifícios históricos em todo o mundo, muitos dos quais começaram durante operações de construção como parte de projetos de restauração. Em junho, um incêndio destruiu um edifício de 110 anos em Glasgow, na Escócia, onde se encontrava a biblioteca da Glasgow School of Art – o edifício estava sendo restaurado depois dum incêndio ocorrido em 2014. Os sprinklers deviam ser incluídos como parte da restauração, mas ainda não tinham sido instalados. Em agosto, um incêndio se propagou num edifício histórico de venda a varejo em Belfast, na Irlanda. O edifício, que tinha sido uma referência no distrito comercial da cidade desde 1785, estava também em renovação. Supõe-se que existiam sprinklers, mas logo depois do incidente não ficava claro se tinham sido corretamente mantidos ou se tinham sido ativados durante o incêndio.

Incidentes como esses não são novos. Os incêndios em edifícios históricos são um problema bem documentado e organizações e companhias incluindo a NFPA, o National Park Service e a Siemens analisaram o problema e ofereceram soluções. A NFPA 914, Proteção contra Incêndio de Estruturas Históricas, define especificamente as medidas que podem ser tomadas para proteger edifícios históricos contra os incêndios, incluindo a instalação de sprinklers automáticos e a utilização da NFPA 241, Salvaguarda de Operações de Construção, Reforma e Demolição, quando aplicável.

Porem, essas soluções muitas vezes não são aplicadas, por causa da falta de apoio do governo, idéias erradas entre os proprietários de edifícios e os desafios inerentes – e os custos – da adaptação de estruturas históricas, que têm às vezes centenas de anos, pela instalação de tecnologia moderna de segurança contra incêndio e proteção da vida.

"Se tentarmos impor aos edifícios históricos as exigências definidas pelos códigos para os edifícios novos, poderia ser muito caro e constituir um grande desafio," disse Don Moeller, consultor de engenharia de proteção contra incêndio na Califórnia e presidente do comitê técnico da NFPA 914. "Por isso, muitas vezes as pessoas pensam que é mais fácil não fazer nada."

VELHO E EM PERIGO

Desde que os seres humanos começaram a construir estruturas, o fogo existiu para destruí-las. Cidades inteiras foram remodeladas depois de incêndios com ruas mais amplas e códigos de construção mais estritos para parar a propagação do fogo duma estrutura a outra assim como dentro das próprias estruturas. Ao longo do tempo, os incêndios e as mudanças que os seguiram resultaram em edifícios – e cidades inteiras – que queimam com menor freqüência.

"Os códigos de construção modernos, os materiais não combustíveis… cidades projetadas com ruas amplas para os carros, fortes instituições de combate ao incêndio– tudo isso reduziu a presença do fogo," escreveu o historiador de incêndio Steven Pyne no seu livro de 2001 ‘Fire: A Brief History’. "Virtualmente cada nicho da paisagem edificada – cada quarto, cada estrutura, cada quarteirão – foi projetado para prevenir os incêndios ou, no caso de se declarar um incêndio, para bloquear sua propagação e proporcionar uma fuga fácil aos residentes e um acesso aos bombeiros."

Os edifícios históricos foram projetados muitas vezes décadas ou até séculos antes da existência desses códigos modernos e comportam um alto risco inerente de incêndios catastróficos. Eric Anderson, especialista de capacitação sobre incêndios estruturais do National Park Service, cresceu numa casa construída em 1850 e conheceu diretamente os métodos de construção obsoletos que podem tornar as propriedades propensas a incêndios devastadores.

"Quando ajudava o meu pai com projetos de construção, ele indicava os problemas relacionados aos incêndios, como… que não havia tábuas contra a parede entre o primeiro e o segundo andar, o que se conhece agora como construção de tipo balloon-frame," escreveu Anderson em 2016 num artigo para o sitio do National Park Service, nps.gov. "Naquela época, a construção balloon-frame significava para mim ‘Não deixe cair o martelo, ou vai se perder atrás da parede no andar de baixo.’ Naquela época eu não entendia que isso significava também que um incêndio podia se propagar rapidamente para cima e chegar a todo o edifício."

Não existem estatísticas uniformes sobre os incêndios em edifícios históricos e a definição de "histórico" pode variar muito entre as jurisdições. Um relatório publicado em 2015 pela Siemens, uma companhia industrial, ilustra a prevalência desse tipo de incêndios em toda a América do Norte e Europa. No Canadá, de acordo com o relatório, ocorrem aproximadamente 30 incêndios desse tipo a cada ano contra 10 na Escócia. Na Inglaterra, pelo menos uma dúzia de edifícios históricos perde-se em incêndios a cada ano e desde o ano 2000 a Alemanha perdeu 70. Os números dos Estados Unidos não foram incluídos.

O relatório da Siemens detalha as soluções de engenharia para prevenir os incêndios em edifícios históricos e museus, instalados muitas vezes em edifícios históricos – estima-se que menos de 20 por cento dos museus em todo o mundo se encontram de fato em "estruturas modernas construídas para esse fim, onde foram observados códigos de proteção contra incêndio e construção apropriados," de acordo com o relatório. À semelhança dos sistemas produzidos por outras empresas, as soluções oferecidas pela Siemens se concentram na integração de tecnologia moderna, como sprinklers anti-incêndio automáticos e sistemas avançados de detecção de fumaça, na estrutura histórica desses edifícios. Soluções similares são delineadas na NFPA 914 e na NFPA 909, Proteção das Propriedades do Patrimônio Cultural – Museus, Bibliotecas e Lugares de Culto.

 015

De acordo com Moeller, presidente do comitê técnico da NFPA 914, em muitas instâncias os edifícios permanecem em seu estado antiquado e inseguro porque é a maneira mais fácil e mais barata e a proteção contra incêndio recebe usualmente um nível de prioridade mais baixo que as necessidades operacionais.

MUDANDO A ABORDAGEM DA SEGURANÇA

Para evitar essa estagnação, disse Moeller, os proprietários de edifícios históricos e os funcionários locais responsáveis pelos códigos deveriam trabalhar juntos para encontrar soluções alternativas adaptadas a cada propriedade, métodos de projeto que, apesar de não serem conformes com os requisitos encontrados nos códigos de construção modernos, ainda forneçam um nível aceitável de segurança contra incêndio e proteção da vida. "Cada propriedade precisa de um pacote personalizado," ele disse. "Você não pode usar a mesma abordagem de receitas de cozinha como se fosse um edifício novo."

Colaborar para encontrar soluções inovadoras permite omitir algumas exigências dos códigos que não poderiam ser cumpridos sem gastos proibitivos para o proprietário do edifício, ou sem prejudicar a essência histórica da propriedade – por exemplo, substituir uma escadaria original por uma nova de maior largura. "A escadaria original poderia não cumprir o código em vigor, mas proporcionar ainda um meio de saída aceitável," disse Moeller. (Para saber mais sobre a forma como os arquitetos encontraram esse tipo de soluções durante a restauração de tribunais históricos, veja o artigo de setembro/outubro de 2018 do NFPA Journal "Restoring Justice".)

Outros aprimoramentos, no entanto, sobretudo a instalação de sprinklers anti-incêndio, valem o investimento, disse Moeller, mesmo se isso significa superar as exigências dos códigos em vigor para uma determinada propriedade numa determinada jurisdição. "Com sprinklers ativos em qualquer um dos incêndios recentes em edifícios históricos, incluindo o do Brasil, penso que o resultado teria sido muito diferente," ele disse. Ele conhece a rejeição dos sprinklers pela comunidade dos museus, alimentada pelo medo que a água cause danos a obras de arte únicas e outros artefatos. A resposta de Moeller aos céticos é simples: "Depois dum incêndio, você quer estar lidando com uma lata de lixo queimado ou uma parede chamuscada ou com nada mais que fundações fumegantes?" As ativações acidentais de sprinkler, acrescentou, são "muito raras".

O financiamento dos projetos de preservação histórica pelo governo é uma forma de pagar os aprimoramentos da segurança contra incêndio e proteção da vida em edifícios históricos, mas não é um sistema do qual podemos depender. O incêndio do museu do Brasil foi atribuído em grande parte à falta de financiamento do governo para pagar os reparos do museu degradado. Em outras partes do mundo, como na União Européia e nos Estados Unidos, os modelos para o financiamento governamental dos edifícios históricos são mais sólidos já que são "considerados como fazendo parte do patrimônio cultural comum duma comunidade," disse Moeller, mas os modelos não são universais e os cortes de orçamento são uma realidade constante. "Você compete contra todas as outras vozes que choram pelo dinheiro público," disse ele. Dados da Associação Americana de Museus, por exemplo, mostram que em 1989 os museus nos Estados Unidos receberam 38 por cento do seu financiamento do governo; em 2012 esse número tinha baixado para 24 por cento. O presidente Trump propôs recentemente importantes cortes no financiamento das instituições culturais do país. A tendência deixou muitos museus e outros edifícios históricos com a única opção de contar com iniciativas de arrecadação de fundos para gerar dinheiro para os reparos e outros aprimoramentos.

O incêndio do Brasil pode ser um divisor de águas que provoque a mudança. "É uma verdade lamentável, mas muitas vezes a melhor forma de motivar as pessoas para que prestem atenção e comecem a investir em coisas como sistemas de sprinklers em edifícios históricos é aumentando a consciência sobre incêndios catastróficos," disse Moeller. "Eu estou convencido que um incidente como o incêndio do Brasil, com esse tipo de visibilidade e de perdas incríveis, terá um grande impacto na percepção pública sobre a necessidade de priorizar a segurança contra incêndio – mesmo se esse impacto é breve."

Quatro Perguntas

DIRIGENTES DA NFPA REFLETE SOBRE O INCÊNDIO DO MUSEU BRASILEIRO

Respostas coletadas e editadas por Angelo Verzoni

014Anderson Queiroz, representante da NFPA no Brasil, do Rio de Janeiro

Sempre que tragédias como esta acontecem há um grande esforço do público e de todos os níveis do governo para fazer mudanças. O problema é que, depois de alguns meses, todo aquele desejo inicial de fazer as mudanças necessárias na legislação, de investir em segurança e de fazer cumprir as exigências existentes começa a perder força. O tempo assume o papel de vilão nesta história, apagando da mente das pessoas os prejuízos e reduzindo o senso de urgência que existe logo depois do incidente. A economia do Brasil, que tem experimentado altos e baixos, não ajuda na situação, já que se trata de assuntos com maior importância imediata, enquanto evitar tragédias como o incêndio do museu vai para o fogo baixo. Simplesmente não vejo qualquer solução tangível no curto prazo, exceto contar com a sorte e ajuda divina para que mais incêndios como estes não aconteçam.

 

O QUE DIFICULTA GARANTIR FUNDOS PARA PROTEGER ARTEFATOS QUE NÃO TÊM PREÇO?

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Joy Rodowicz, gerente de ativos digitais e de arquivos da NFPA.

Não há nada excitante ou sexy sobre seguros, e esta é a essência do que estamos falando aqui. É a mesma coisa que perguntar "Por que não temos todos testamento ou um plano sobre a sucessão?" Todos sabem que eles são importantes, mas sempre há algo no caminho de fazer o que tem que ser feito para tê-los. Quando é época de orçamento, as organizações veem a necessidade e muitas vezes reconhecem o valor de proteger seu patrimônio histórico e cultural irrecuperável. Mas gerentes financeiros estão procurando o retorno do investimento, de modo que, quando chega a hora de definir prioridades e alocar fundos, museus, bibliotecas e arquivos são, muitas vezes, vistos como artigos de luxo e são colocados no fim da lista, enquanto necessidades imediatas e de curto prazo são atendidas primeiro. Se encontrássemos uma maneira de capitalizar com os nossos recursos culturais e históricos, o dinheiro apareceria.

 

O QUE VOCÊ DIRIA PARA PESSOAS QUE SE PREOCUPAM COM O DANO QUE A ÁGUA DOS SPRINKLERS CAUSARÁ NAS PEÇAS DOS MUSEUS?

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Greg Harrington, engenheiro sênior, Divisão de Proteção Contra Incêndio em Prédios da NFPA

Os curadores precisam avaliar seus próprios riscos e determinar a si mesmos que cenário é mais tolerável: dano por água provavelmente recuperável nas peças, resultante de uma improvável falha do sistema de sprinklers automático, ou a completa destruição das coleções pelo fogo. Objetos insubstituíveis podem ser secos e restaurados. Não podem ser remontados das cinzas. A recente destruição do Museu Nacional do Brasil é uma prova disso. Os curadores tem uma tremenda responsabilidade na preservação de objetos muitas vezes únicos e culturalmente e cientificamente significativos. Assumir que "aqui não vai pegar fogo" ignora a realidade que, de fato, pode pegar fogo. Só pergunte aos cidadãos do Brasil de quem era a história que, literalmente, sumiu no fogo. Sistemas automáticos de supressão são a melhor defesa contra estas perdas devastadoras.

 

COMO PODE O ECOSSISTEMA DE SEGURANÇA DA VIDA E INCÊNDIOS DA NFPA AJUDAR A EVITAR INCIDENTES COMO ESTE NO FUTURO?

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Jim Pauley, Presidente da NFPA

O que o ecossistema faz é ajudar a enquadrar a discussão na segurança da vida e incêndios. Em vez de dizer "tudo se resume a instalar sprinklers", ele mostra a importância de fazer todas as coisas totalmente certas, o que leva à proteção da vida e da propriedade. O Ecossistema mostra que a real segurança parece uma engrenagem com oito dentes, representando elementos como responsabilidade do governo e o desenvolvimento e uso dos códigos correntes. Ignore qualquer um deles e o resultado pode ser catastrófico. Depois do incêndio no museu brasileiro, tem que haver um monte de gente no governo pensando "Isto é um problema". De modo que, se podemos começar com as agências reguladoras e explicar a eles a ideia do Ecossistema, acho que é um grande passo na direção certa para evitar incidentes catastróficos como o incêndio brasileiro. Para mais informações sobre o Ecossistema, visite nfpa.org/ecosystem

 



 

 

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