Águas perigosas

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Águas perigosas

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Um novo estudo de referência junta todo o que sabemos sobre o afogamento por choque elétrico. O próximo passo: Traçar um plano para eliminar o risco. 

Dois anos atrás, durante suas férias, Casey Grant recebeu um panfleto turístico e estremeceu. A capa mostrava dois miúdos suspensos no ar acima da água,-el peligro invisiblesaltando do cais duma marina, um medidor elétrico claramente visível no fundo.

A maioria das pessoas provavelmente não teria nenhuma objeção em relação à imagem, mas Grant, diretor executivo da Fundação de Pesquisa para a Proteção Contra Incêndios, vinha preparado. Ele acabava de dirigir um seminário estratégico dedicado a encontrar a forma de travar um surto de mortes recentes por afogamento causadas por choque elétrico (ESD, da sigla em inglês), e em suas mãos tinha uma prova tangível de quanto trabalho faltava ainda. 

“Evidentemente este problema excedeu a maioria das pessoas”, ele disse numa entrevista recente, palavras que são tão verdadeiras hoje como dois anos atrás.

Como o estopim e o fogo, a associação da água com a eletricidade pode ser perigosa, e talvez não haja outro lugar onde tenha mais possibilidades de ocorrer que nas marinas. Se falharem as salvaguardas, como ocorre muitas vezes, algo tão simples como uma sobrecarga numa geladeira num barco próximo pode emitir uma corrente elétrica que se propagará através da água. Se a intensidade da carga por si só não é suficiente para matar um nadador desprevenido, a alternativa não é melhor: a corrente elétrica paralisa os músculos do nadador que, incapaz de se salvar, se afoga.

O problema tem sido muito difícil de resolver. Este verão, uma menina de 11 anos morreu em New Jersey depois de tocar o corrimão energizado dum barco. Poucos dias mais tarde, um homem de 19 anos se afogou no Ohio depois de saltar do barco da família no Lago Erie. De acordo com o pai, o jovem sofreu convulsões na água antes de voltar à superfície pela ultima vez, gritando “Eletricidade!” Mais de 30 pessoas morreram assim desde 2012, com pelo menos oito mortes por ESD confirmadas em 2016. Os números atuais são provavelmente muito mais altos; as autopsias podem não revelar que a presença de eletricidade antes da morte, então muitos registros oficiais indicam apenas o afogamento como a causa da morte, dificultando o rastreio das ESD.

Durante os últimos anos não se registraram muitos avanços, mas Grant pensa que isso poderia mudar em breve. No mês passado, a Fundação de Pesquisa publicou um estudo de referência de 178 páginas, intitulado simplesmente “Redução de Risco nas Marinas”, possivelmente a análise mais abrangente realizada até hoje sobre os riscos, causas e estratégias de mitigação relacionados às ESD: embora o relatório não apresente novos dados, ele é inovador. Pela primeira vez, o trabalho apresenta a pesquisa existente sobre ESD através do filtro detalhado da avaliação de risco – levando em conta as questões técnicas, regulamentares e de conscientização pública – para dar às partes interessadas uma visão abrangente dos vários riscos envolvidos e do impacto que teriam as estratégias de mitigação na redução dos incidentes de ESD.

“Identificamos três perguntas: O que poderia falhar? Qual é a probabilidade que falhe? Quais seriam as consequências?” diz o co-autor do estudo, Brian Meacham, professor associado de engenharia de proteção contra incêndio no Worcester Polytechnic Institute (WPI). “Globalmente, o estudo apresenta um perfil de risco e um conjunto de opções sobre como prevenir, mitigar ou evitar o perigo e dessa forma diminuir o risco.”

O estudo é também único em sua abordagem holística, disse Grant. Estudos prévios se concentraram em componentes individuais do problema que poderiam ajudar, mas que representam apenas um elo numa longa cadeia de considerações necessárias. Meachem e seu coautor Woo Jung Park, candidato a doutor em proteção contra incêndio no WPI, disse que eles ficaram impressionados com a quantidade de pesquisa de qualidade que já tinha sido realizada sobre as ESD, mas não encontraram nada que integrasse os componentes como a educação pública, a aplicação das normas, o gerenciamento das marinas, a pesquisa, entre outros. “O benefício do estudo é que fomos capazes de sintetizar todo o bom trabalho que se realizou e mostrar como reuni-lo num enquadramento sócio-técnico para definir um conjunto razoável de medidas de mitigação,” disse Meacham.

As estratégias potenciais de mitigação propostas no novo relatório incluem abordagens técnicas, de comportamento e regulatórias. As opções técnicas incluem colocar interruptores de circuito por falha de aterramento nos barcos e nos cais e diminuir a intensidade máxima da corrente permitida em marinas e barcos. As estratégias para lidar com o comportamento humano incluem a colocação de sinais “proibido nadar” nos cais das marinas e a inclusão pela Guarda Costeira de sinais de aviso de risco elétrico nas diretrizes de seus documentos sobre segurança nos barcos. As estratégias regulatórias incluem requerer que os proprietários de barcos registrem seus barcos e identifiquem as fontes de energia presentes a bordo. Cada estratégia tem uma classificação baixa, média ou alta em termos de efetividade, custo e impacto na redução global do risco.

“Parte do desafio com a questão das ESD é que os caminhos para sua solução são complexos – não há uma solução simples,” disse Grant. Ele fez uma lista duma série de desafios: a falta de supervisão nas marinas privadas e nos barcos; a natureza hostil do ambiente aquático, que degrada rapidamente o equipamento e a infraestrutura; e uma falta global de consciência do público sobre a questão e até entre muitos inspetores, agências reguladoras e proprietários de marinas. “É por isso que precisávamos de uma abordagem mais abrangente,” disse Grant. “este trabalho oferece uma perspectiva única que não tínhamos antes.”

A informação contida no relatório será provavelmente utilizada para criar mais recursos específicos para ajudar a fortalecer as salvaguardas em muitas áreas que poderiam causar a ESD, disse Grant. Esses recursos poderiam incluir guias de campo ou listas de verificação para gerentes de marinas, inspetores de eletricidade, proprietários de barcos e outros para identificar questões como as correntes parasitas (stray current).O relatório poderia também proporcionar orientação aos fabricantes de embarcações, educadores públicos e proprietários de marinas sobre a melhor forma de transmitir alertas elétricos aos consumidores. Informará também um conjunto de códigos e normas, incluindo o NFPA 1, Código de Prevenção de Incêndio; o Código Elétrico Nacional®; a NFPA 70B, Manutenção de Equipamento Elétrico; a NFPA 302, Embarcações a Motor Comerciais e de Lazer; a NFPA 303, Marinas e Estaleiros Navais e uma série de outras normas da indústria para as empresas náuticas e de fornecimento de eletricidade. A NFPA já realizou muito trabalho sobre ESD e ainda está trabalhando nisso. O NEC® 2017, por exemplo, incluía várias provisões novas para lidar com as ESD, incluindo um requisito sobre a sinalização nas marinas para desaconselhar a natação (ver “em cumprimento”). Além disso, foi lançada uma iniciativa para fomentar a conscientização em relação ao problema, que inclui uma nova pagina web, nfpa.org/esd, com vínculos para muitos recursos da NFPA, incluindo estúdos anteriores da FPRF, artigos do NFPA Journal, fatos e estatísticas e atas do seminário que Grant dirigiu em 2015 que desencadeou finalmente a preparação do último relatório.

Embora haja um acordo para apreciar o progresso em relação às ESD, também se reconhece que o trabalho real está apenas começando. Toda a informação do mundo não salvará nem uma vida se não for usada no mundo real, disse Meacham. “Enquanto emitimos recomendações, são as partes interessadas nesta área que devem avançar e desenvolver as diferentes estratégias e implementá-las,” ele disse. “Vemos este relatório como um ponto de partida.”

Como reduzir o risco

O relatório “Marina Risk Reduction” identifica várias estratégias que, de acordo com os autores, poderiam ter pelo menos um impacto de moderado a alto na redução do risco de afogamento por choque elétrico. Os exemplos incluem:

» Designar áreas de natação afastadas dos cais e das hidrovias

» Colocar sinais nos barcos e nos cais que proíbem nadar em marinas públicas e privadas.

» Licenciar e registrar barcos e identificar e listar fontes e necessidades de energia

» Fornecer um transformador isolador no cais e utilizar torres de suporte para as tomadas de cais e interruptores de circuito por falha de aterramento nas marinas

» Regulamentação coerente para barcos e cais com penalidades por descumprimento

» Proporcionar mais educação aos empregados das marinas e aos inspetores

» Requerer autorizações para a instalação de equipamento elétrico

» Inspeções freqüentes de barcos novos e existentes pela Guarda Costeira ou outras agências

» Campanha pública de comunicação sobre segurança direcionada aos proprietários dos barcos e aos usuários de marinas públicas e privadas e usuários dos cais. 

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