Resposta Retardada

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Resposta Retardada

Por Angelo Verzoni
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Dois anos depois do incêndio da Grenfell Tower, milhares de edifícios no reino unido, e possivelmente em todo o mundo, permanecem em risco devido aos sistemas de fachadas combustíveis. Os especialistas dizem que isso não deveria constituir uma surpresa.

Por Angelo Verzoni

No dia 29 de maio, duas semanas antes do aniversário do incêndio da Grenfell Tower, o New York Times publicou uma história sugerindo que dezenas de milhares de habitantes do Reino Unido ainda correm o risco de morrer num incêndio similar ao que deixou 72 mortos e 70 feridos em Londres em junho e 2017.

O incêndio Grenfell, que subiu e envolveu a torre residencial Grenfell de 24 andares a uma velocidade impressionante, deixando pouco mais que uma casca enegrecida – foi alimentado em grande parte pelo plástico combustível que estava presente nos materiais aplicados às paredes exteriores que tinham sido acrescentadas à torre Grenfell dois anos antes como parte dum projeto de renovação. Na sequência do incêndio, os oficiais do governo do Reino Unido prometeram eliminar o risco derivado desse tipo de materiais em todo o país.

Mas o artigo do Times indica que ainda tem um longo caminho por percorrer.

"Aproximadamente 16000 apartamentos privados [no Reino Unido] ainda estão cobertos pelo tipo de revestimento exterior que alimentou o incêndio de Grenfell," disse o jornal. "Os proprietários sentem que estão presos em caixas de fósforos que não podem vender, e alguns residentes sentiram a necessidade de integrar as rondas que se realizam dia e noite nos seus edifícios, sempre alertas para detectar uma faísca ou um cheiro a fumaça."

Para as pessoas que estudam o problema ou trabalham para reduzir o risco de incêndio dos materiais de paredes exteriores combustíveis, como os que cobriam Grenfell, o artigo do Times era preocupante, mas não era uma surpresa, considerando o custo e a complexidade de remover e substituir esses materiais. Além disso, em conversas recentes com o NFPA Journal, esses especialistas sublinharam que, embora o artigo do Times implicasse que a regulamentação sobre esse tipo de materiais é forte em outros países, como os Estados Unidos, a presença de sistemas de fachadas combustíveis – um termo usado para descrever todo o sistema de paredes exteriores dum edifício, que é muitas vezes referido erradamente como "revestimento"- deveria ainda constituir uma preocupação no resto do mundo, não só no Reino Unido.

"Não me surpreende", disse Birgitte Messeschmidt, diretora da Divisão de Pesquisa Aplicada da NFPA acerca da reportagem do Times. "O que aconteceu na Grenfell foi muito assustador, mas encontrei situações similares em muitos edifícios em toda a Europa, assim como no resto do mundo."

Uma tarefa cara e complicada.

De acordo com o Times, desde o incêndio de Grenfell, o governo do Reino Unido atribuiu aproximadamente 400 milhões de libras, ou um pouco mais de meio bilhão de dólares, para ajudar as autoridades locais a retirar e substituir sistemas de fachadas combustíveis de centenas de edifícios públicos de habitação, e esse trabalho está em curso. O maior problema agora, disse o jornal, são os edifícios altos que são propriedades privadas, onde ninguém quer pagar para remover os painéis."

A situação não surpreende Messerschmidt, que conhece os custos e a complexidade do trabalho. "Imagine tentar descascar uma enorme batata e depois tentar por nela uma nova pele," ela disse. "Leva muito tempo, e custa muito dinheiro."

A história do Times tampouco surpreendeu Iain Cox. Ex membro dos bombeiros do Reino Unido e atual presidente da Business Sprinkler Alliance em Londres, Cox disse ao NFPA Journal numa entrevista recente que durante as duas últimas décadas aproximadamente, as práticas de construção no Reino Unido deram prioridade à eficiência energética por sobre a segurança, permitindo a proliferação de materiais de paredes exteriores carregados de plástico, como os materiais que foram acrescentados em Grenfell. Embora apresente um risco de incêndio, esse tipo de materiais aumenta a eficiência energética do edifício, permitindo por exemplo uma melhor retenção de calor nos edifícios.

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De acordo com Cox faz sentido que a correção dos danos leve muito mais de dois anos. "De repente todos estão entendendo que aquilo que fizeram foi piorar a situação dos edifícios," disse ele– mesmo do ponto de vista da sustentabilidade. "Um edifício não é muito sustentável se se queima tão facilmente."

A situação causou pânico em alguns residentes dessas propriedades no Reino Unido. "Se você pensa nisso todo o tempo, fica doido…você mora num edifício que é fundamentalmente inseguro", disse Rachel Guy ao Times. Guy mora num edifício residencial privado, em Londres, que está parcialmente revestido com os mesmos painéis de metal composto usados em Grenfell. Ela disse que um bombeiro lhe contou que as chamas podiam subir os dez andares do seu edifício em apenas sete minutos. De acordo com o Times, Guy está preocupada porque a sua mãe idosa nunca poderia descer as escadas em caso de incêndio.

Como parte duma solução transitória imposta pelos bombeiros, os residentes como Guy começaram a realizar rondas de incêndio nos seus edifícios, fazendo turnos para percorrer os corredores enquanto os seus vizinhos dormem, ficando atentos para algum sinal de fumaça ou chamas, disse o Times. É uma prática arcaica e talvez "o nível mais baixo que você pode implementar", disse Messeschmidt, mas é melhor do que nada.

Outros esforços, como instalar sprinklers contra incêndio ou atualizar os sistemas de alarme, seria provavelmente mais barato do que substituir grandes superfícies de painéis de fachada combustíveis, mas ainda poderia ter custos proibitivos para muitos proprietários de edifícios. Além disso, esse tipo de medidas não conseguiu obter o apoio do governo.

De acordo com o Times, novas recomendações regulamentares apresentadas ao Parlamento um ano após Grenfell frustraram os defensores da segurança, porque não recomendaram sprinklers contra incêndio nos edifícios altos existentes ou mesmo nos novos edifícios de menos de 10 andares. Eles tampouco recomendaram requisitos mais estritos para incluir segundas escadas nesse tipo de edifícios. Grenfell tinha apenas uma escada e não tinha sprinklers. O sistema de alarme não era o melhor para um edifício desse tipo e tamanho e os inquilinos supostamente tinham recebido a ordem da administração de proceder ao abrigo no local em caso de incêndio, sempre que o fogo não se encontrasse na sua unidade.

Em novembro 2018, o governo do Reino Unido anunciou a proibição dos materiais exteriores combustíveis. Embora seja uma medida de longo alcance, já que proíbe a presença de qualquer material combustível para os sistemas de fachadas, ela se aplica apenas aos novos edifícios residenciais acima de 18 metros de altura, ou aproximadamente seis andares – clausulas que não foram bem recebidas por alguns especialistas da segurança.

"Por que a proibição se limita aos edifícios com mais de 18 metros?" disse James Dalton, diretor de políticas gerais de seguros da Association of British Insurers, num discurso sobre a proibição. "Aceito o limite de 18 metros acima do qual o trabalho do Serviço de Combate ao Incêndio e Resgate se torna mais difícil, mas estou lutando para entender por que alguém poderia…construir uma casa de repouso ou uma residência para estudantes com um pouco menos de 18 metros de altura e cobri-la de material combustível."

Uma declaração emitida pela Fire Protection Association (FPA) do Reino Unido em junho também mencionou a proibição, dizendo que não é suficientemente abrangente e pede uma nova proibição que proíba o uso dos materiais combustíveis nas paredes exteriores de qualquer altura. "Se quisermos prevenir outra tragédia como Grenfell Tower, precisamos de uma mudança imediata," disse a FPA.

Priorizar o risco para um problema mundial

Sem caminho claro para corrigir de uma vez esses problemas em todos os edifícios desse tipo no Reino Unido, é necessário priorizar as propriedades com maior nível de risco.

"Para lidar com toda a questão, você deve fazê-lo com base no risco", disse Cox. "As medidas temporárias como rondas de incêndio ajudam, mas como os humanos são humanos, se isso continuar por três ou quatro anos, a vigilância das pessoas vai declinar. Temos de fazer trabalho de retificação, mas não temos os recursos para tratar cada edifício imediatamente, então devemos priorizar o risco."

A NFPA desenvolveu uma ferramenta para fazer exatamente isso depois do incêndio de Grenfell. A ferramenta, conhecida como The Exterior Façade Fire Evaluation & Comparison Tool (EFFECT™), está em funcionamento desde um pouco mais de um ano. Os usuários introduzem dados que pertencem a um conjunto de edifícios – os materiais usados nos componentes das paredes exteriores e como esses componentes estão dispostos, a presença de sprinklers contra incêndio, fontes de ignição próximas, entre outros – para determinar quais fatores se combinam para apresentar o maior risco de incêndio envolvendo sistemas de fachada combustíveis. Durante os seus15 meses de funcionamento, EFFECT atraiu mais de 500 usuários em todo o mundo – uma indicação que os sistemas de fachadas combustíveis são um problema global. O artigo do Times, contudo, informava que os painéis que revestiam Grenfell "estavam proibidos nos Estados Unidos e em muitos países europeus." – uma formulação que Messerschmidt considera preocupante, porque poderia criar um falso sentimento de segurança. A realidade, ela disse, é que os especialistas ainda não sabem quão difundidos são os sistemas de fachadas combustíveis. "Dizer que não existem em países como os Estados Unidos é ingênuo," ela disse. De fato, os dados da NFPA mostram que entre 2007 e 2011, por volta de 5300 incêndios envolvendo sistemas de fachadas ocorreram nos Estados Unidos; em perto de 25 por cento desses incêndios, as paredes exteriores foram o primeiro fator que contribuiu à propagação do incêndio, mesmo se o fogo não teve sua origem nos sistemas de fachadas – um indicador importante de que os sistemas de fachadas continham materiais combustíveis. Não estão disponíveis dados mais recentes.

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No Reino Unido, existe um teste de incêndio em escala real em fachadas "bastante estrito", disse Messerschmidt, que em teoria deveria prevenir os incêndios como o que devastou Grenfell. O problema, ela disse, é que o país permitiu que os edifícios passem o teste com base numa avaliação feita por um projetista, que é chamado estudo de gabinete, em contraste com a realização dum teste real, físico.

Nos Estados Unidos, a NFPA 285, Norma sobre Métodos de Testes para a Avaliação das Caraterísticas de Propagação do Fogo em Sistemas de Fachadas Não Portantes que Contêm Componentes Combustíveis, serve como um teste de incêndio de fachada em escala real. Existem indicações concretas de que a norma ganhou terreno globalmente desde Grenfell também. Um relatório publicado pela empresa global de resseguros SCOR em janeiro 2018 disse "o teste da NFPA 285 bem comprovado com décadas de uso envolvendo testes em escala real é considerado atualmente como o mais relevante [de todos os testes de incêndio de sistemas de fachada] e deveria prevalecer em caso de dúvidas ou conflitos com outras normas."

Mas como com qualquer código ou norma, é efetiva apenas se for aplicada. "Se você estiver aplicando completamente a norma, então não deveria haver problemas," disse Messerschmidt. "Mas sabemos que as vezes as jurisdições locais dão autorizações especiais, ou simplesmente as pessoas não cumprem."

 

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