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Lugares de Reunião Pública, Discotecas & Egreso

Sobrecarga sensorial

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Numa tentativa para vencer a concorrência, os organizadores de eventos ao vivo intensificam a experiência aumentando o volume e produzindo um conjunto vertiginoso de efeitos visuais. Mas qual é o impacto de todo esse espetáculo sobre os sistemas e procedimentos destinados a garantir a proteção da vida?

Para a maioria das pessoas, a última coisa que têm em mente quando vão ouvir sua banda favorita ou assistir à estréia dum filme que esperam há muito tempo é a  segurança do local.

Mas par nós que somos parte da indústria de segurança contra incêndio e proteção da vida – engenheiros de proteção contra incêndio, funcionários que trabalham com os códigos, projetistas de proteção contra incêndio e outros profissionais da segurança contra incêndio e proteção da vida – o desafio de trabalhar com empresas de produção e do espetáculo para garantir a segurança das estruturas nos locais de reunião de público constitui sempre uma preocupação. Quando chega o momento de decidir quais medidas de segurança instalar no local dum espetáculo, que nível de risco estão dispostos a aceitar? Mais importante, poderão viver com sua decisão?

Trabalhei 35 anos no negócio da proteção contra incêndio – dos quais 27 com os bombeiros e 21 dos 27 no gabinete de prevenção de incêndios duma cidade de tamanho médio no estado de Washington. Além disso, trabalhei oito anos como consultor para uma grande empresa internacional de proteção contra incêndio e engenharia, lidando com tudo desde pedidos de sub-rogação em caso de morte até investigações de incêndio fora dos Estados Unidos, proteção de locais de reunião de público e segurança contra incêndio e proteção da vida em estabelecimentos varejistas. Durante toda minha carreira com os bombeiros supervisionei os requisitos de proteção contra incêndio para um estádio de hóquei de 8000 lugares que podia receber até 12000 pessoas em concertos ou eventos especiais.   Inspecionei muitos lugares de reunião de público com capacidade de 60 a 1000 ocupantes, com ou sem entretenimento ao vivo ou venta de substâncias tóxicas. Falei bastante dos desafios que a indústria de segurança contra incêndio e proteção da vida enfrenta procurando formas de trabalhar com as empresas de produção e espetáculos, para educá-las acerca da importância de incorporar medidas de segurança em seus planos para proteger os locais de reunião de público dos desastres e os riscos. Uma tendência importante que a indústria enfrenta é o aumento da intensidade das capacidades audiovisuais em locais de reunião de público e aquilo que significam para a segurança dos ocupantes. Sons mais altos e envolventes circundam literalmente os ouvintes, provenientes de todas as direções com uma força e um volume que ultrapassam de longe os sons produzidos pelo equipamento de áudio doméstico. Uma série de efeitos visuais, desde estrobos até hologramas, reforça também a qualidade envolvente dos espetáculos; a tecnologia 3-D, que utiliza óculos individuais para inserir os espectadores “dentro” do ambiente visível, é agora tão avançada que os participantes podem facilmente perder o senso de orientação em seu ambiente real, que é praticamente a intenção do produtor. A pirotecnia, às vezes no palco, às vezes em todo o local do evento, cria um sentimento de imersão e envolvimento que não é possível no conforto dum home theater.

Requerer simplesmente um aviso sonoro mais forte que o ruído ambiente e um aviso visual visível em todo o local do evento não só já não é suficiente, mas é quase impossível de alcançar em muitos locais de eventos. As luzes de saída vermelhas ou verdes se perdem no panorama do entretenimento visual proporcionado para nosso desfrute. A necessidade de entreter, junto com a necessidade de proteger, cresceu drasticamente nos últimos 20 anos, mas adivinhe qual das duas atrai mais o bolso do proprietário?

Essas tecnologias de entretenimento novas e emergentes geram desafios significativos para os profissionais da segurança. Utilizando o NFPA 101®, Código de Proteção da Vida, porém, podemos proporcionar um nível aceitável de segurança contra incêndio e proteção da vida sem prejudicar os padrões de desempenho dos locais de entretenimento. Sem dúvida, aderir ao código é um passo na direção certa. Ajudar os gerentes de locais de entretenimento e produtores de espetáculos com a compreensão e aplicação dos códigos é também um passo positivo. 

Maior, mais alto, mais brilhante

Os gerentes de locais de reunião de público podem criar condições inseguras de forma intencional ou não intencional em suas instalações. Eles podem ignorar ou demorar a substituição de luzes de saída queimadas ou deixar obstruções nos caminhos de saída. Para desencorajar a entrada de penetras, alguns podem bloquear intencionalmente as saídas sem entender o impacto que isso poderia ter na saída de emergência. Denominadores comuns que envolvem mortes ou ferimentos nesse tipo de local incluem a falta de sprinklers, saídas bloqueadas ou restringidas, dispositivos de mensagens de voz desativados e falta de treinamento adequado dos gerentes de multidão. Mas se aplicarmos as três E da prevenção de incêndios – engenharia, execução dos códigos, educação – para lidar com esse tipo de problemas, é razoável afirmar que as probabilidades dum incidente que cause mortes e ferimentos serão bastante reduzidas. 

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Oxalá fosse assim. A ameaça mínima duma penalidade por ignorar as infrações aos códigos de incêndios, comparada com os custos muito imediatos e reais de corrigir as falhas, faz que alguns operadores continuem a ignorar os problemas e, demasiadas vezes, adotem uma mentalidade de “até que nos apanhem”.  A necessidade crescente de subir as apostas para os espetáculos ao vivo – para oferecer algo que o entretenimento on-demand ou por internet não tem possibilidade de fornecer – pode significar uma contradição entre manter a rentabilidade e manter os elementos de proteção da vida.

Os efeitos sonoros em grande escala e os efeitos de iluminação correspondentes são agora de rigor para os apresentadores. Uma variedade de espetáculos musicais, desde bandas de heavy metal até artistas dos festivais de música eletrônica, produziram som ao vivo superando os 130 dB, nível que compete ou excede o ruído dum motor de jato na proximidade imediata. Em comparação, um som de 150 dB é suficiente para perfurar os tímpanos; os concertos de rock se aproximam normalmente dos 120 dB, 32 mais que uma conversa de 70 dB num restaurante. Uma voz falando normalmente tem por volta de 60 dB. Qualquer som acima dos 100 dB é considerado “extremamente desagradável”. O NFPA 72®, Código Nacional de Alarme de Incêndio e Sinalização, no parágrafo 18.4.1.2, estabelece que os níveis de pressão sonora ambiente com todos os dispositivos de notificação sonora operando não devem exceder 110 dB na distância mínima de audição. Grandes locais enfrentam o desafio de fornecer os níveis de som que consideram aceitáveis (e que nós na indústria consideramos penosos) aos espectadores que se encontram nos cantos mais remotos do local, assegurando que tenham uma experiência tão memorável como a dos clientes que se encontram perto do palco. Aumentar a quantidade e a localização dos alto-falantes exacerba o problema, fazendo que o nível de som se mantenha em todo o local sem que haja uma área de volume mais baixo.

Os fabricantes e construtores de alto-falantes estão ampliando os limites do nível de som que pode ser produzido. Colocar ímãs mais precisos, ajustar a massa do cone e outras partes móveis, a forma, área e deslocamento do cone, e até a forma da caixa em si, eleva os decibéis a níveis novos e mais penosos. Considere que esse volume é também uma medida de pressão e que volumes altos podem criar uma pressão real, que alguns podem perceber como o movimento anormal – e desconcertante – de seus órgãos internos.

As luzes laser, que já estiveram na vanguarda do entretenimento visual, são agora comuns ou ofuscadas pelos efeitos especiais gerados por computador que definem uma novíssima experiência envolvente. Grupos e séries de luzes que seguem a coreografia do som, “fogos artificiais” virtuais que frustram nossa capacidade de reconhecer a realidade e uma tecnologia 3D que pode desorientar os espectadores até o ponto de perder seu equilíbrio são considerados por muitos produtores como essenciais para obter críticas excelentes e aumentar as receitas de bilheteria. As mesmas luzes que são usadas para o fade in ou fade out duma canção podem ser facilmente confundidas com luzes estroboscópicas de emergência. Nos concertos, as luzes e os sons concebidos para fazer a audiência ver, ouvir e crer coisas que não existem é a tendência de vanguarda. No passado, a possibilidade de desencadear convulsões pelo uso de luzes estroboscopicas era um dos maiores riscos da iluminação dos espetáculos. Atualmente temos uma corrida para encontrar formas mais ativas de desorientar espectadores perfeitamente saudáveis simplesmente para tornar mais intensas suas experiências no espetáculo.

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Engenharia, aplicação dos códigos e educação

As subseções 12.4.8 e 13.4.8 do NFPA 101 requerem que se aumente a iluminação e que se suspendam os sons ou as imagens em conflito em edifícios especiais de entretenimento onde se identifica uma situação de emergência. Mas com uma música tão alta e uma iluminação tão perturbadora quem saberá que há uma emergência? Essa informação precisa ser comunicada a um produtor do espetáculo, aos técnicos de luz e som, e aos artistas. Todas as partes devem conhecer os requisitos e as conseqüências associadas ao incumprimento dos códigos.

É por isso que o NFPA 101 exige a realização duma Avaliação de Segurança Humana, ou LSE, da sigla em inglês, para esse tipo de local. A LSE exige que o local tenha um plano consistente que considere uma quantidade de cenários de riscos e respostas, incluindo os meios e métodos para lidar com o aviso aos espectadores e estratégias de mensagens quando surge um problema. É importante lembrar que os sinais de alarme devem ser enviados a uma central atendida permanentemente – existem exceções, mas precisamos nos concentrar nos requisitos das subseções 12.4.8 e 13.4.8 que garantem uma melhor salvaguarda dos ocupantes.

Imagine uma situação de emergência num grande local de entretenimento que recebe um evento de música ao vivo. Com o som muito alto (superior a 115 dB) e iluminação e efeitos visuais de vanguarda, podemos supor que um sistema padrão de alarme de incêndio que cumpre os códigos será bastante deficiente para a notificação dos ocupantes em situação de emergência. A música do concerto é mesclada num local central que controla o volume geral dirigido aos espectadores; requerer um dispositivo de notificação como uma sirena ou um estrobo localizados perto da console alertaria os engenheiros em caso de emergência, e eles deveriam automaticamente reduzir o volume de saída no momento da ativação do dispositivo. Os requisitos deveriam também especificar se a informação necessária aos espectadores será comunicada por uma mensagem pré-gravada ou pelos engenheiros usando um microfone e instruções sobre o conteúdo dos anúncios.

Da mesma forma, a iluminação das instalações, tanto no palco como na sala, seria normalmente controlada desde uma localização central, em geral nos bastidores. E quanto aos requisitos para o som, uma sirene/estrobo e um conjunto completo de instruções sobre o que ligar e desligar seriam requeridos para lidar com qualquer questão relacionada à luz ambiente. As luzes dos efeitos especiais poderiam ser controladas no local do som ou no local da iluminação, ou numa localização própria, com seu dispositivo de notificação e conjunto de instruções para os operadores. Se acrescentarmos requisitos de certificação para os operadores e testes funcionais de cada dispositivo de notificação antes de cada espetáculo, teremos o nível desejado de segurança para as instalações.

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Podemos requerer que um local de entretenimento coloque um agente qualificado num local permanentemente atendido? Claro que sim. Dependendo da jurisdição, poderíamos requerer bombeiros treinados que fiquem baseados à custa do proprietário. Podemos requerer técnicos de imagens e sons que tenham um treinamento adequado para saber como reagir em caso de incêndio? Claro que sim. Podemos requerer um dispositivo de notificação visual instalado tanto no local de controle das luzes como no dos sons? Podemos também oferecer treinamento para certificação para operadores, treinamento para gerentes de multidões e assistentes qualificados e permitir a redução de taxas para a instalação desses dispositivos adicionais? Claro que sim.

Se os artistas, os produtores e o pessoal de apoio tivessem conhecido essas necessidades no clube noturno The Sation em Rhode Island e se tivessem sido treinados para ter uma reação adequada, é possível que algumas, se não todas as 100 vidas perdidas tragicamente num incêndio catastrófico naquela noite de 2003, poderiam ter sido salvas. Todas as partes precisam entender como o sinal que anuncia uma condição de emergência é transmitido ao técnico do som, ao técnico das luzes e aos artistas e que ações são necessárias para garantir a segurança dos espectadores. Demasiadas vezes, contudo, os técnicos de som e luz não são treinados para reagir adequadamente em caso duma emergência causada por um incêndio. Esse tipo de educação, ou falta disso, não é facilmente identificável nas inspeções aleatórias realizadas pelas agências encarregadas da aplicação dos códigos. O Plano de Gerenciamento e de Operações das Instalações, um componente do LSE, requer que se definam claramente os canais de comunicação e a autoridade entre todas as partes envolvidas.

Embora a integração de medidas de segurança nos locais de reunião de público possa representar um desafio, desenvolver um entendimento mútuo entre a indústria de segurança contra incêndio e proteção da vida, os funcionários públicos responsáveis pela aplicação dos códigos, a indústria do entretenimento e os operadores das instalações é um passo essencial para garantir que os espectadores tenham uma experiência memorável num ambiente seguro. A indústria de segurança contra incêndio e proteção da vida deve apreciar a natureza envolvente da indústria do entretenimento e trabalhar para estabelecer soluções que complementem as metas das empresas do espetáculo. Os engenheiros podem fornecer os melhores sistemas de supressão e detecção e os agentes de aplicação dos códigos podem ser tão diligentes como possível na implementação dos códigos e normas prescritivos para proporcionar segurança contra incêndio e proteção da vida adequadas – mas o próximo passo nesta viajem é a educação dos operadores, proprietários, gerentes, produtores e técnicos das instalações, para por em evidência o papel que devem desempenhar na salvaguarda de seus clientes.

Resolver o problema requer as três E: engenharia, para acompanhar a tecnologia emergente e continuar a proporcionar as melhores soluções para a proteção e detecção de incêndios; a execução dos códigos para lembrar sempre aos operadores que não podem ignorar essa questão; a educação, par ajudar os operadores a compreender os problemas e ser parte das soluções. Como a maior parte das questões de segurança contra incêndio, a aplicação dos códigos só chega aos que podemos ver e permanecerá enquanto continuemos a olhar. Dizer a alguém que faça algo pode ter uma efetividade marginal; ensinar a fazê-lo e explicar a importância disso pode resultar num melhor cumprimento dos códigos e melhores taxas de conservação.

Á medida que surgem formas mais novas, maiores, mais fortes e mais espetaculares de avivar os espetáculos que desfrutamos, precisamos dum esforço igual ou maior do lado da segurança da equação. A segurança em qualquer local de eventos deve continuar a ser uma vantagem. Você pode realmente dizer que é um esforço demasiado grande? Eu não.

Warren Burns é Regional Practice Leader na Telgian Engineering & Consulting. É membro do comitê técnico da NFPA 1221, Instalação, Manutenção e Uso de Sistemas de Comunicação para Serviços de Emergência.

Recursos sobre segurança nos espetáculos

nfpa.org/101®

O Código de Proteção da Vida® inclui a Avaliação de Segurança Humana, uma ferramenta incluída no NFPA 101 dirigida a projetistas, gerentes e inspetores de locais de espetáculos.

Faz também referência a uma série de áreas que têm uma importância crucial para os socorristas.

eventsafetyalliance.org

A Event Safety Alliance® é uma organização dedicada a promover a segurança humana em todas as fases da produção e execução dum evento. O grupo publica o Event Safety Guide, um recurso dirigido especificamente à indústria dos espetáculos ao vivo que compila as melhores práticas operacionais e está baseado nas normas de segurança existentes e nos conhecimentos dos profissionais da indústria.

esta.org

A Entertainment Services and Technology Association é um grupo da indústria cuja missão inclui aumentar a segurança através do desenvolvimento de normas e certificações. 

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Quem nós Somos

A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.