Restaurar a Ordem

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Ocupações Institucionais/Culturais

Restaurar a Ordem

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Como a tecnologia moderna de segurança contra incêndio e proteção da vida está sendo integrada na essência dos palácios de justiça históricos dos estados unidos

Por Angelo Verzoni 

No ano passado os visitantes do edifício do Tribunal Distrital de Edgartown, em Martha’s Vineyard, no Massachusetts, assistiram a um espetáculo raro no nosso mundo moderno – empregados do tribunal percorrendo os corredores a cada 15 minutos realizando rondas de incêndio no edifício de 161 anos.

A prática, comum no século 19, era uma solução temporária concebida pelo então comandante de bombeiros de Edgartown, Peter Shemeth, depois de um exercício de incêndio e inspeção do tribunal terem revelado varias deficiências graves na segurança. Os problemas incluíam uma porta de saída de emergência que não abria, um sistema de detecção de fumaça não confiável instalado nos anos 80, a falta de avisos sonoros e visuais de alarme de incêndio e uma iluminação de emergência defeituosa, de acordo com o jornal Vineyard Gazette. Shemeth disse ao jornal em fevereiro 2017 que os funcionários do tribunal podiam realizar rondas de incêndio para evitar a interdição do tribunal e ele não queria escolher a última solução. Finalmente, foram realizados os aprimoramentos de segurança necessários e as rondas terminaram.

Os defeitos encontrados no tribunal de Edgartown não representam uma anomalia. Em todo o país, muitos tribunais construídos durante os séculos 19 e 20 não têm sistemas sólidos de segurança contra incêndio e proteção da vida como sprinklers anti-incêndio e sistemas de alarme de incêndio modernos. Muitas vezes os aprimoramentos desses sistemas estão incluídos em projetos mais amplos cujo objetivo é restaurar e preservar os edifícios históricos e os arquitetos enfrentam pressões para manter o aspecto histórico da estrutura, incorporando ao mesmo tempo tecnologia moderna de segurança contra incêndio e proteção da vida. É um desafio que os profissionais das comunidades de preservação histórica e segurança conseguiram superar concebendo métodos de projeto alternativos como os oferecidos pelos códigos e normas da NFPA.

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"Uma das coisas das quais somos mais orgulhosos é tomar esses edifícios, torná-los mais seguros, mais aproveitáveis, enquanto lhes devolvemos sua aparência histórica, "disse Susan Gammage, arquiteta e diretora adjunta do Texas Historic Courthouse Preservation Program (THCPP). "Integrar todos os sistemas de supressão de incêndio e outras características de segurança contra incêndio é muito complexo… e os arquitetos da preservação e outros profissionais que trabalham para preservar os tribunais históricos do Texas fizeram um excelente trabalho integrando sistemas de supressão e notificação de incêndio, proporcionando meios de saída adicionais, assegurando que as portas se abram para fora nos espaços de reunião de público ou nas saídas principais dos edifícios e que sejam incluídas outras medidas de proteção da vida, tudo com um impacto mínimo na aparência histórica do edifício."

Porque salvamos os tribunais?

O THCPP, um programa do Gabinete de Preservação Histórica do Estado de Texas, é uma das várias organizações governamentais e não governamentais nos Estados Unidos que apóia a preservação dos tribunais históricos. A simpatia para esses edifícios é forte praticamente em todo o país. Alguns entusiastas até viajam procurando os tribunais mais antigos e mais belos – uma atividade conhecida como "turismo dos tribunais."

"Existe uma profunda atração cultural para os tribunais na América," escreveu Erik Hein, diretor executivo da National Conference of State Historic Preservation Officers, num e-mail ao NFPA Journal. "Em muitas comunidades esses edifícios representam o melhor do investimento público. O tribunal pode ser o edifício mais imponente da cidade e incorporar o trabalho de artesãos locais usando os melhores materiais. Situados em locais notáveis, os tribunais podem ser um símbolo do orgulho da comunidade."

O THCPP, disse Hein, é o programa de preservação do estado mais importante e conhecido no país, alcançando a popularidade com a ajuda dum forte apoio público. Somente no Texas, existem 242 tribunais históricos propriedade dos condados – definidos como os edifícios construídos pelo menos 50 anos atrás– ainda hoje utilizados pelo governo. Desde seu lançamento no final dos anos 90, o THCPP concedeu quase 300 milhões em subsídios equivalentes (matching grants) voltados para a preservação dos tribunais a condados em todo o estado.

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É essa afeição para os velhos tribunais que leva as comunidades a escolher principalmente a preservação em lugar de construir um edifício novo moderno. Apesar de existirem poucos dados sobre o número total de projetos de preservação de tribunais em curso em todo o país, a internet está cheia de notícias sobre projetos completados recentemente, em curso, ou propostos. E embora a segurança dos ocupantes seja o motor principal da introdução de elementos modernos de segurança contra incêndio nesses edifícios históricos, não é a única razão.

"Talvez as pessoas não saibam que os tribunais contêm arquivos do seu condado; é ali onde nascimentos, casamentos e mortes são registrados," disse Laura Bush, ex-primeira dama e firme defensora da restauração dos tribunais de condado do Texas, numa entrevista realizada em 2013 para Preservation, a revista do National Trust for Historic Preservation. "Esses velhos arquivos, esses documentos e livros antigos podem facilmente ser destruídos tanto pela luz como pela temperatura, ainda mais pelo fogo, por isso é realmente importante restaurá-los e garantir a sua proteção."

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Fazendo concessões: história versus segurança

Historicamente, os registros dos condados foram bem protegidos contra o fogo, de acordo com Gammage, arquiteta do THCPP. A razão é que na grande maioria dos tribunais nos Estados Unidos, particularmente os construídos antes de 1940, existe uma câmara de metal ou de concreto resistente ao fogo para guardar os registros. "Enquanto o resto do edifício tem belos ornamentos de madeira entalhada, esses espaços de proteção são feitos de concreto ou metal, com janelas protegidas por vidro aramado ou persianas de aço a prova de fogo," ela disse. "Quase todos os tribunais históricos mais antigos têm algum tipo de câmara a prova de fogo." Em algumas partes do país, os tribunais e as cadeias devem, por lei, manter seus registros numa câmara resistente ao fogo ou uma estrutura similar.

Outros espaços do edifício são mais difíceis de proteger contra o fogo e outros riscos, como os corredores, as caixas de escadas e a sala de audiência – os lugares onde ficam as pessoas, não os papéis.

O maior desafio, disse Gammage, é a introdução nesses edifícios históricos de tecnologia moderna de segurança contra incêndio e proteção da vida,CWAQ KLs como sprinklers ou extintores, sem causar prejuízos a materiais de construção valiosos ou modificar o aspecto original do tribunal. "Imagine que um corredor de uso público precisa dum extintor de incêndio, mas o corredor tem esse revestimento único de mármore com cinco pés de altura e agora você está falando de cortar esse belo mármore granulado que não poderá substituir," Ela disse. "Tentar evitar danos permanentes como esse ao patrimônio histórico é importante e constitui um desafio importante."

Gammage disse que durante a restauração dos tribunais aparecem continuamente ideias alternativas de projeto para propiciar as características de segurança necessárias, sempre tendo em mente a estética. Por exemplo, disse Gammage, a restauração do Tribunal do Condado de Harris em Houston, em 2011, incluiu a instalação de cortinas discretas resistentes ao fogo que caem para fechar o átrio em caso de incêndio – uma cúpula de vitrôs acima do átrio impedia a instalação dum sistema de evacuação de fumaça.

Em outros projetos no Texas, os arquitetos tomaram medidas para minimizar o impacto sobre o aspecto histórico do tribunal utilizando sprinklers embutidos escondidos por placas decorativas; iluminação de emergência retrátil, cujo invólucro pode ser pintado da mesma forma que as paredes e sinais de saída transparentes sem moldura. "Existem concessões de ambos os lados para garantir a segurança do edifício e cumprir os códigos de construção, mantendo ao mesmo tempo seu caráter histórico," disse Gammage.

NFPA 914Proteção Contra Incêndio de Estruturas Históricas, dá exemplos de alternativas como as descritas por Gammage numa secção anexa chamada "Exemplos de Alternativas de Cumprimento."

"Idealmente, todas as tubulações deveriam ser ocultas, mas isso nem sempre é possível devido às implicações estruturais, arquitetônicas e financeiras da construção de novos invólucros em espaços históricos, que podem conter tetos decorados ou superfícies com molduras," diz o documento que inclui fotografias de formas como tubulações e sprinklers expostos foram escondidos nos edifícios históricos. Uma das fotos mostra um sprinkler colocado no centro duma roseta decorativa no teto, que parecia um elemento artístico além de ser um elemento duma tecnologia que salva vidas.

No Condado de Ouray no Colorado – uma extensa área pouco povoada conhecida como a Suíça da América devido a sua paisagem montanhosa acidentada – arquitetos e funcionários municipais preveem começar este mês uma restauração que vai durar anos do tribunal do condado, que foi construído em 1888 e faz parte da lista do Registro Nacional de Lugares Históricos. Os funcionários disseram que tornar o tribunal mais seguro é a principal prioridade do projeto, mas esses esforços já requereram compromissos com a organização do estado que ajuda a financiar o trabalho.

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"O Tribunal do Condado de Ouray tem um teto de telhas de madeira que o State Historical Fund queria manter," disse Marina Skiles, arquiteta da Charles Cunniffe Architects, a empresa encarregada do projeto de Ouray. "Mas a nossa área é propensa aos incêndios florestais. De fato, temos um incêndio florestal ativo atualmente. Então o nosso cliente, o Board of County Commissioners, pediu sua substituição por telhas compostas que têm uma resistência à chama muito maior que as telhas de madeira. Conseguimos a luz verde do State Historical Fund e isso foi muito importante. "Depois de ganhar essa batalha, disse Skiles, os diretores do projeto concordaram com a colocação da entrada accessível, utilizada pelas pessoas com deficiência, na parte de trás do edifício, como o tinha pedido o State Historical Fund. Usualmente esse tipo de entrada se encontra na fachada principal.

De forma geral, as soluções que os arquitetos e profissionais da segurança têm desenvolvido para preservar a história, respeitando ao mesmo tempo os requisitos de segurança contra incêndio e proteção da vida, funcionaram – tanto nos tribunais como em outros projetos de preservação de edifícios históricos.

Um exemplo de êxito foi um incêndio que ocorreu em 2004 num edifício de tijolos de quatro andares de 130 anos de idade em Brattleboro, em Vermont, que tinha sido restaurado nos anos 90. Apesar de algumas das características de segurança acrescentadas ao edifício durante a restauração não serem convencionais comparadas com métodos modernos, as soluções encontradas pelos arquitetos em prol da preservação histórica funcionaram, evitando a propagação da fumaça e das chamas a todo o edifício.

"As portas [originais] de acesso às unidades do edifício tinham bandeiras envidraçadas e não tinham fechamento automático, por isso não teriam proporcionado uma barreira confiável para prevenir a propagação da fumaça e do fogo para dentro ou para fora das unidades," de acordo com a edição 2006 do "Fire Prevention and Building Code Compliance for Historic Buildings: A Field Guide," publicado pela Universidade de Vermont e baseado principalmente nos requisitos contidos nos códigos da NFPA. "Em lugar de requerer que as portas e as bandeiras fossem retiradas e substituídas por portas modernas com fechamento automático e sem bandeiras, o que teria destruído o caráter histórico dos corredores do edifício, os funcionários responsáveis pela segurança contra incêndio encontraram uma solução que permitia a permanência das portas com a condição de acrescentar dispositivos de fechamento automático e a permanência das bandeiras sempre que fossem suportadas por madeira compensada. À medida que o fogo atingia os andares superiores, as portas das unidades onde as bandeiras tinham sido reforçadas (e onde os fechamentos da porta não tinham sido desativados pela intervenção humana) funcionaram como barreiras confiáveis, como previsto, e evitaram a propagação do fogo e da fumaça." Uma segunda restauração restituiu o edifício Brattleboro à sua gloria original.

As coisas não terminaram tão bem para o Tribunal do Condado de Prince George, no Maryland, quando foi atingido por um incêndio em novembro de 2004. A estrutura, construída em 1801, foi destruída pelo fogo durante uma restauração de 27 milhões de dólares. Os investigadores identificaram como causa do incêndio uma fiação elétrica defeituosa numa iluminação temporária que tinha sido instalada pelos trabalhadores da obra. De acordo com a Associated Press, os trabalhadores fecharam também o sistema de sprinklers do edifício durante a restauração permitindo que o fogo se propagasse sem obstáculos.

O incidente sublinha a importância de manter as medidas de segurança contra incêndio durante as restaurações; a NFPA 914 diz que o trabalho de restauração deveria incluir as medidas de segurança contidas na NFPA 241, Salvaguarda de Operações de Construção, Reforma e Demolição.

O incêndio do Tribunal do Condado de Prince George causou perdas por oito milhões de dólares – uma das maiores perdas de propriedade causada por incêndios no país naquele ano – mas quando ardeu, desapareceu muito mais que dinheiro; o edifício era um dos tribunais mais antigos do país. "É uma grande perda e muita história que foi embora," disse uma bibliotecária, com os olhos cheios de lágrimas, ao Baltimore Sun enquanto via queimar o edifício de 200 anos.

 

ANGELO VERZONI é redator permanente do NFPA Journal.

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