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Os peritos dizem que os problemas que causaram o incêndio mortal da Grenfell Tower na Grã Bretanha poderiam existir em centenas de edifícios em todo o mundo. É por isso que a NFPA está desenvolvendo um conjunto de recursos para lidar com questões relacionadas aos sistemas de fachada combustíveis.

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Leia como o Presidente da NFPA Jim Pauley em seu blog usa o incêndio de Grenfell para mostrar de que forma o sistema de prevenção e proteção contra incêndio no mundo está quebrado.

Leia o relatório de 2014 da Fundação de Pesquisa para a Proteção contra Incêndio “Fire Hazards of Exterior Wall Assemblies Containing Combustible Components".

Leia o relatório da BRE Global sobre os testes de incêndio dos sistemas de fachadas combustíveis no Reino Unido.

Veja como o Address Hotel em Dubai arde na véspera de ano novo em 2015.

Veja a ferramenta interativa desenvolvida pela NFPA que explica quando a NFPA 285 deveria ser usada.

Em 1666, Londres ardeu. As chamas varreram a cidade como um tsunami, desalojando 70000 dos 80000 residentes. Inesperadamente, poucas pessoas morreram; houve apenas seis mortes confirmadas.

Avanço rápido até 2017, quando um incêndio recente muito menor ocorrido em Londres foi muito mais letal. Pelo menos 80 pessoas morreram no incêndio de 14 de junho na Grenfell Tower no oeste de Londres, tornando-o o incêndio mais mortífero na história britânica. Depois de 351 anos de avanços no âmbito da segurança contra incêndio e da proteção da vida, porque o número de mortos foi tão superior ao do Grande Incêndio de Londres?  A resposta se encontra em parte nos métodos de construção modernos. 

No âmbito dum projeto de reforma executado em 2015 e 2016 na Grenfell Tower, um edifício de apartamentos de 24 andares construído em 1974, as paredes exteriores foram renovadas aplicando um sistema dado a conhecer por muitos meios de informação como uma combinação de painéis compostos de alumínio e plástico de polietileno e espuma isolante, ambos considerados combustíveis. Quando uma geladeira no quarto andar provocou um incêndio, as chamas encontraram um caminho até o exterior do edifício, incendiando os materiais combustíveis do sistema de fachada, que canalizou rapidamente as chamas para cima. O incêndio não só subiu rapidamente e rodeou os lados do edifício, como também se propagou de fora para dentro, destruindo toda a estrutura.

Nas semanas que seguiram Grenfell, os investigadores concorreram a edifícios similares em toda a Grã Bretanha. Amostras dos sistemas de fachadas, incluindo varias combinações de painéis de material de metal composto (MCM, da sigla em inglês) e materiais isolantes, foram retiradas e submetidas aos referidos “testes de combustibilidade do governo”. Como resultado dos testes, centenas de edifícios foram declarados inseguros e milhares de pessoas receberam uma ordem de evacuação de suas residências. Em 28 de julho, o governo britânico anunciou uma análise independente para examinar “o sistema regulatório relacionado ao projeto, construção e manutenção de edifícios no que diz respeito à segurança contra incêndios; questões relacionadas tocantes à conformidade e aplicação dos códigos; e a regulamentação e experiência internacional na área.”

O problema dos sistemas de fachada combustíveis não é novo – incêndios envolvendo esse tipo de sistemas ocorreram em todo o mundo, incluindo os Estados Unidos – a experiência recente da Grã Bretanha ilustra uma nova emergência global subjacente a essa questão. Funcionários públicos, defensores da segurança e meios de informação estão fazendo perguntas sobre a prevalência dos sistemas de fachada combustíveis em edifícios do mundo inteiro e o que se pode fazer para prevenir incêndios potencialmente catastróficos.

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A NFPA espera ajudar a responder a essas perguntas disponibilizando um conjunto de recursos aos parceiros, incluindo uma nova ferramenta de avaliação de risco concebida para as autoridades competentes (AHJs, da sigla em inglês). Essas ferramentas são necessárias agora mesmo, dizem os peritos. “Em muitas de nossas maiores cidades ou jurisdições, temos em alguns casos um número significativo desses edifícios [que poderiam estar em situação de risco],” disse J.C. Harrington, vice-presidente  na FM Global. “Podem ser centenas no mundo inteiro.”                                    

Quantificar o problema

A construção de paredes exteriores pode adotar muitas configurações diferentes, mas um arranjo muito freqüente consiste em uma espuma de plástico isolante fixada à estrutura e separada por uma estreita câmara de ar da camada exterior constituída por finos painéis de metal que encerram um núcleo de plástico; presume-se que essa era a configuração aplicada em Grenfell. (A mídia se refere a esses sistemas construtivos combustíveis como “revestimento externo combustível”, um termo que não condiz com a maior parte das formulações dos códigos e se refere apenas a um dos componentes desses sistemas.) Apesar dos problemas conhecidos, esse tipo de sistema é muito popular porque pode contribuir a eficiência energética do edifício, ajuda a prevenir a penetração da chuva e da umidade e dá aos edifícios um aspecto limpo e moderno. 

Para lidar com essas questões, a NFPA está desenvolvendo uma ferramenta que permite as AHJs – especificamente, as agências que velam pela aplicação dos códigos – determinar quais edifícios em suas jurisdições estão mais expostos ao risco de incêndios envolvendo sistemas de fachadas combustíveis. A ferramenta, que a NFPA espera disponibilizar até o fim do ano, levará em conta variáveis como os materiais de construção, a altura e a configuração e a existência ou ausência de sistemas de proteção contra incêndio como sprinklers anti incêndio. O inventario revelará também quais sistemas de fachadas comportando materiais combustíveis foram considerados seguros e por meio de quais procedimentos de testes.

As empresas internacionais de engenharia Arup e Jensen Hughues estão também envolvidas no projeto, assim como um painel internacional de peritos técnicos provenientes da Fundação de Pesquisa para a Proteção Contra Incêndio (FPRF, da sigla em inglês). Os membros do painel “foram escolhidos por sua perícia técnica e adotamos também uma abordagem muito global na escolha dos participantes”, disse Amanda Kimball, diretora de pesquisa da FPRF. “temos perspectivas desde a Ásia, o Médio Oriente, a Europa, a Austrália e os Estados Unidos.”

Casey Grant, que dirige a FPRF, explicou que a ferramenta não será concebida para dizer as AHJs como resolver os problemas, mas para que saibam se o problema existe e seu grau de gravidade. “Não é tão simples como dizer ‘este edifício tem uma fachada combustível e este não, ’” disse Grant. “Trata-se de desenvolver uma ferramenta de avaliação de riscos para que as autoridades que velam pela aplicação dos códigos possam priorizar seu inventário.”

Embora os principais utilizadores sejam as AHJs, a ferramenta poderá ser utilizada por qualquer pessoa interessada. Esperamos que a ferramenta seja um trampolim para os peritos de segurança contra incêndios e proteção da vida à medida que se envolvem mais com o assunto, já que grande parte do problema é a incerteza que existe por todo o mundo em volta da prevalência de sistemas de fachadas combustíveis. “Há uma necessidade de analisar os atributos dos diferentes sistemas e adotar uma abordagem organizada, com base nos riscos, para determinar como uma AHJ ou uma prefeitura poderia avaliar o estoque de edifícios existentes”, disse Harrington, membro do painel técnico do projeto.

No Reino Unido, pelo menos, o panorama está ficando mais claro, graças à atividade instigada pelo incêndio de Grenfell. De acordo com uma publicação recente da ABC News, supõe-se que pelo menos 600 edifícios em Grã Bretanha tenham um sistema de fachada similar ao que tinha Grenfell. Em outros lugares, como Dubai, nos Emiratos Árabes Unidos, o problema também é patente. Quando o Address Hotel, um prédio de 63 andares situado no centro de Dubai, se incendiou na véspera de ano novo de 2015, os espectadores capturaram vídeos assombrosos das chamas que subiram pela fachada em questão de segundos. Cinco incêndios similares envolvendo sistemas de fachadas combustíveis ocorreram em Dubai desde 2012. Dois desses incêndios afetaram o mesmo edifício – uma torre residencial de 79 andares chamada “The Torch” – que sofreu extensos danos causados pelas chamas que ascenderam rapidamente pelos lados do prédio em 2015 e outra vez em agosto deste ano.

Um relatório de 2014 da FPRF sobre sistemas de fachadas combustíveis ilustra como o problema afeta todos os cantos do globo. O relatório identificou incêndios envolvendo sistemas de fachadas combustíveis desde 1990 na Austrália, no Canadá, na China, na França, na Alemanha, na Hungria, no Japão, na Rússia, na Coréia do Sul, nos Emiratos Árabes Unidos, no Reino Unido e nos Estados Unidos. “Obviamente este problema não ocorre apenas no Reino Unido”,  disse Harrington. 

Um modelo imperfeito?

Em 24 de junho, o New York Times publicou um artigo com uma pergunta: “por que ardeu Grenfell?” É uma pergunta simples cuja resposta se encontra em décadas de rechaço das propostas de mudança das políticas. O Times revelou que já em 1999, os bombeiros e engenheiros alertaram o Parlamento sobre o fato que os códigos de construção Britânicos não continham elementos suficientes para lidar com o risco da propagação vertical do fogo em edifícios com sistemas de fachadas combustíveis. Não obstante, os representantes da indústria rejeitaram às alertas e não houve mudança dos códigos. Por isso, pensa-se que os edifícios altos com sistemas de fachada combustíveis são difundidos na Grã Bretanha, como o demonstra a atual corrida para inspecionar os edifícios similares a Grenfell.

Com códigos mais estritos do que na Grã Bretanha, os Estados Unidos são muitas vezes considerados como um modelo de análise minuciosa dos sistemas de fachadas. Isso não significa que nos Estados Unidos não ocorram incêndios que envolvem os sistemas de fachadas. De fato, dos 32 incêndios de fachadas em edifícios altos registrados no mundo por várias fontes de notícias de 2014 a junho 2017, quase a metade ocorreu nos Estados Unidos. Mas poucos foram graves, a maioria ocorrendo em componentes que foram acrescentados por motivos estéticos e que aparentemente não constituíam uma ameaça aos edifícios.

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Superficialmente, a ausência de incêndios graves em sistemas de fachadas nos Estados Unidos parece testemunhar do êxito dos códigos e normas da América do Norte como a NFPA 285, Fire Test Method for Evaluation of Fire Propagation Characteristics of Exterior Non-Load Bearing Wall Assemblies Containing Combustible Components. A NFPA 285 define um procedimento de testes rigorosos em escala real para sistemas de fachadas, e na prática proíbe a aplicação de sistemas de fachada como o de Grenfell nos edifícios altos.

No fundo, porém, surgem dúvidas sobre a aplicação adequada da NFPA 285 e se um incêndio desse tipo poderia acontecer nos Estados Unidos.
“Eu acredito que este problema exista em toda a Europa, nos Estados Unidos, na Ásia e no Meio Oriente,” disse Didier Schutz, engenheiro da SCOR, uma companhia global de resseguros que apresentou uma sessão sobre sistemas de fachadas combustíveis na conferência anual da NFPA em 2016. “É um problema global”.

Um mês depois do incêndio de Grenfell, fontes locais de notícias em Baltimore informaram que um dos edifícios altos da cidade, um hotel de 32 andares pertencente à cadeia Marriott, poderia estar revestido com os mesmos painéis de alumínio composto aplicados na Grenfell – um produto chamado Reynobond, fabricado pela companhia Arconic, baseada em Pittsburgh. O Marriott de Baltimore é uma pequena amostra daquilo que os especialistas de segurança contra incêndios receiam que seja um problema mais extenso nos Estados Unidos: a possibilidade que nos últimos anos os construtores e gerentes de instalações tenham esquivado ou ignorado intencionalmente a NFPA 285, para reduzir os custos.

Uma explicação possível para o não cumprimento da NFPA 285 é que não há uma norma estabelecida para a terminologia usada nesse tipo de sistemas, o que abre a possibilidade de confusão entre arquitetos, engenheiros, construtores e gerentes de instalações sobre a necessidade de aplicação da norma quando se enfrentam a um mar de termos sobrepostos e inconsistentes. Conceitos com revestimento, paredes-cortina, sistemas de fachadas, painéis de metal isolados, material de metal composto, parede do tipo “rainscreen”, entre outros, podem se referir aos mesmos componentes e sistemas, a elementos diferentes, ou a várias combinações de componentes.

Mais complicações surgem porque alguns sistemas de fachada foram instalados antes da existência da NFPA 285 e da inclusão das referências à norma nos códigos de edificações em vigor; a primeira edição da NFPA 285 foi publicada em 1998. Além disso, quando as combinações de materiais são testadas de acordo com a NFPA 285, qualquer modificação que represente um desvio em relação à configuração testada poderia modificar o comportamento do fogo. “Os proprietários de edifícios podem acreditar que os materiais aplicados cumprem as normas certas, como a NFPA 285, mas não é necessariamente o caso,” disse Tracy Vecchiarelli, pessoa de contacto para a NFPA 285. “Eles de fato não sabem o que têm”.

Outra fonte de problemas é à forma como o International Building Code liberalizou o uso desses sistemas. À diferença do NFPA 5000®, Código de Construção e Segurança das Edificações, a edição 2012 do IBC permite a omissão dos testes dos sistemas de fachada de acordo com a NFPA285 para edifícios de qualquer altura que cumpram alguns critérios, como ter sprinklers anti-incêndio, limitar a área das paredes revestidas e proporcionar distâncias de separação de incêndio adicionais. No passado, o IBC requeria normalmente testes de sistemas de fachadas que incluem materiais combustíveis para edifícios acima de 40 pés de altura.

Para ajudar a esclarecer as coisas, Vecchiarelli dirigiu recentemente uma equipe composta por pessoal da NFPA que criou um fluxograma interativo explicando quando usar a NFPA 285. A ferramenta online foi concebida principalmente para arquitetos e engenheiros, que podem clicar numa série de perguntas que incluem qual código de construções estão usando, se as paredes dum edifício são portantes ou não, o sistema construtivo do edifício, entre outros. A ferramenta inclui fotografias, vídeos e definições para facilitar aos usuários o acesso ao processo. O fluxograma, junto com a ferramenta de avaliação de risco desenvolvida pela NFPA, foi concebido para aumentar a consciência e os conhecimentos sobre sistemas de fachada combustíveis e da NFPA 285 entre as AHJs, os projetistas, os construtores e os gerentes de instalações.

Fora dos Estados Unidos, existem testes similares aos da NFPA 285, como o BS 8414, uma norma da BRE Global usada no Reino Unido e partes do Meio Oriente e Ásia, e a norma de aprovação 4880 da FM Global. Como os testes da NFPA 285, são testes em escala real que aplicam fogo a sistemas de fachadas construídos para observar sua propagação. Mas no Reino Unido, por exemplo, exceções permitem que os construtores e gerentes de instalações omitam o teste em escala real se os componentes da fachada, quando testados individualmente, passam testes de combustibilidade em escala reduzida. O processo é contraditório com a NFPA 285, que estabelece que os sistemas de fachadas devam ser testados como um sistema integral num ambiente que reproduz as condições da vida real tão exatamente como possível.

O primeiro duma série de relatórios publicados em julho pela BRE Global, uma organização baseada nos Estados Unidos que realiza testes de produtos, mostrou que um sistema que contém os mesmos painéis de alumínio composto (ACM, da sigla em inglês) e as mesmas placas de espuma isolante aplicadas em Grenfell e configurados duma forma “representativa dos sistemas de uso comum nos edifícios” não passou o BS 8414. O núcleo de polietileno dos painéis ACM alcançou o máximo nível de combustibilidade, a categoria três, quando testado separadamente, de acordo com o relatório.

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No mundo inteiro, a proliferação de sistemas de fachadas combustíveis coincidiu com os esforços para renovar edifícios altos envelhecidos e pouco atraentes, muitos deles construídos nos anos 70, e com as iniciativas para aumentar a eficiência energética tanto em edifícios novos como existentes. Embora existam opções para isolar edifícios duma forma mais segura do ponto de vista do incêndio, como utilizando lã de vidro ou lã de rocha em lugar de plástico, esses materiais são mais caros. Usualmente, precisa-se do dobro de material para alcançar a mesma eficiência energética, disse Schutz. “Não é tão fácil instalar lã de vidro ou lã de rocha,” ele disse. “O plástico é fácil”.

Então o que vale mais, a conveniência ou a segurança? Schutz receia que se os construtores e os gerentes de instalações continuarem a escolher a primeira, mais pessoas poderiam morrer em incêndios que envolvem sistemas de fachada combustíveis. “É assustador,” ele disse. “Podemos enfrentar cada vez mais esse tipo de incêndios”.

ANGELO VERZONI es redactor permanente en NFPA Journal.

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