Incêndio no Hospital do Rio de Janeiro: Os Ocupantes de Prédios de Alto Risco Exigem Proteção de Nível mais Alto

 

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Incêndio no Hospital do Rio de Janeiro: Os Ocupantes de Prédios de Alto Risco Exigem Proteção de Nível mais Alto

Por Robert Solomon

Escolhemos um enfoque diferente, neste blog, do que normalmente fazemos. Vídeos de segurança obtidos por várias agências de notícias no Brasil dão uma perspectiva interna bem do começo do incidente, quando o incêndio começou. Trabalhei com vários dos meus colegas da NFPA, incluindo um que é fluente em português, para tentar entender o que estávamos vendo e ouvindo das autoridades do governo que foram entrevistadas. Incluímos links para as matérias e que incluem os vídeos.

Quando incidentes mortais como estes acontecem, surgem as perguntas usuais. Por que aconteceu? O que fazemos para evitar futuras tragédias? Enquanto não sabemos as causas, sabemos que padrões existem para prevenir perdas de vida e propriedades no ambiente de cuidados de saúde.

Prédios e instalações que cuidam dos doentes e feridos exigem provisões nos códigos para proteger pacientes vulneráveis do fogo. Embora muitas das vítimas do Hospital Badim fossem idosos, os riscos continuam, na maioria, os mesmos para qualquer paciente cuja condição médica os torna incapazes de se auto preservarem. Durante um incêndio, os pacientes ficam essencialmente dependentes das características de construção do prédio, dos sistemas de proteção de incêndios, dos planos de gerenciamento de emergências e dos funcionários.

De acordo com as notícias iniciais e seguintes vindas do Rio, um gerador de emergência que era localizado no subsolo é considerado a causa e origem do incêndio. O gerador estava numa área que tinha veículos e materiais de construção, um espaço que ou estava normalmente desocupado ou que tinha uma população, relativamente pequena, de ocupantes do prédio que trabalhava neste espaço. Vídeos de câmeras de segurança neste nível mostraram algum tipo de arco ou faíscas vindos do gerador aproximadamente às 17:45 h. Embora não se saiba se o gerador estava funcionando, esta é a primeira indicação de que algo estava errado. Alem disso, quatro tanques de armazenamento de diesel, de 250 litros, estavam localizados adjacentes ao gerador. Outras câmaras de segurança em diferentes níveis do hospital mostravam claros sinais de migração de fumaça para diferentes espaços e escritórios. Mesmo no meio de claros sinais de incêndio significativo, parecia não haver sentido de urgência, ao menos inicialmente, enquanto as coisas aconteciam no nível do subsolo. Várias tentativas foram feitas para controlar ou extinguir o fogo com extintores portáteis, mas os esforços não tiverem sucesso. Cerca de quinze minutos depois do começo do incêndio parece que estavam sendo tomadas decisões sobre começar o protocolo de relocalização ou evacuação para os funcionários e pacientes.

Em algum momento uma grande chama pode ser vista saindo do subsolo, se projetando acima do nível da rua. Espessa fumaça negra acompanhou esta parte do incêndio enquanto, ao mesmo tempo, ele estava migrando através de múltiplos níveis da instalação. Embora a cobertura da TV, fotos e vídeos nos permitem algumas suposições sobre o incidente, obviamente não sabemos as circunstâncias completas atrás do incêndio ou as medidas de proteção de incêndio, construção ou plano de emergência. São elementos importantes que devem ser considerados como parte da investigação formal sobre este incêndio em particular. E, para o registro, deveriam sempre ser parte de um plano abrangente para segurança da vida e incêndios nas instalações de cuidados de saúde.

Sempre que um incidente de grandes perdas como este acontece, a NFPA tem a obrigação de compartilhar informações sobre os vários códigos e normas da NFPA que existem para prevenir tais tragédias – mesmo quando elas acontecem fora das fronteiras dos EUA. O NFPA 101, Código de Segurança da Vida, o NFPA 99, Código para Instalações de Cuidados de Saúde e o NFPA 110, Sistemas de Energia de Reserva e Emergência estão entre os documentos que tem mais relevância para este incêndio. O NFPA 101 estabelece um método holístico e compreensivo para a segurança de cuidados de saúde. Conhecido como o enfoque do “Conceito Total”, o código cria uma combinação de controles sobre o tipo de construção do prédio e seus materiais, extenso uso de sistemas cruciais de proteção contra incêndios, incluindo alarmes e sistemas automáticos de sprinklers e confiança em funcionários devidamente treinados e exercitados que sejam capazes de tomar medidas salvadoras de vidas para proteger os pacientes como parte do conceito do planejamento de emergências. Quando um destes elementos não está ao nível devido, resultados pouco desejáveis são inevitáveis.

Da mesma forma, o NFPA 99 também estabelece critérios suplementares, que permitem que instalações de cuidados de saúde planejem para uma variedade de contingências de emergência que incluem a evacuação total da instalação. Como dito acima, se presume que os ocupantes que a instalação está aí para atender serão, na maioria, incapazes de auto preservação. Por esta razão é que a evacuação total do prédio é, literalmente, uma medida de último recurso quanto à segurança de incêndio em hospitais. Contudo, para estas condições extraordinárias, a NFPA 99 fornece exigências para abrangentes planos de emergência, incluindo planos para esta situação. Em algum ponto do incêndio no Rio foi tomada a decisão de evacuar o prédio. Isto exigiu um esforço cuidadosamente coordenado entre os funcionários do hospital, primeiros respondedores e mesmo grupos de voluntários da vizinhança que trabalharam para mover os pacientes para os prédios vizinhos. Estas ações, sem duvida, ajudaram a salvar muitas vidas durante o incêndio.

Como em qualquer investigação de incêndios, determinar a causa e origem é parte chave no processo. Com as evidências de vídeo de problemas no gerador de emergência, os investigadores poderiam utilizar normas como a NFPA 110 para ajudar a determinar se o sistema estava em ordem operacional. Não se sabe se o gerador estava em funcionamento ou em posição de espera quando o fogo começou. Outras exigências da NFPA 110 incluem ter o gerador localizado num espaço ou compartimento separado construído com resistência a fogo – o que não era, obviamente, o caso neste incêndio. Alem destas provisões, a NFPA 110 também cobre exigências para inspeção, testes e manutenção (ITM) contínuos dos geradores. Os registros de ITM também devem ser revisados.

Outras evidências de vídeos mostram fumaça se espalhando a partir do nível do subsolo para todos os andares do prédio, o que deve ser avaliado e entendido. Códigos como a NFPA 101 estabelecem regras muito conservadoras para reduzir o número, tipo e tamanho de todas as aberturas verticais para evitar caminhos para a disseminação da fumaça. Esta área em particular foi muito examinada depois do incêndio de 1980 no MGM Grand Hotel Las Vegas, onde muitas das mortes aconteceram nos andares superiores do prédio, muito longe de onde o fogo se iniciou no primeiro piso. Evitar o movimento da fumaça e a migração para os andares mais altos normalmente se faz através de uma combinação de desligamento de ventiladores de HVAC, abafadores de fogo e fumaça e garantindo que penetrações verticais, desde escadas de saída a canos e calhas elétricas até juntas de expansão corretamente seladas e protegidas para tentar eliminar a possibilidade de movimento vertical da fumaça.

Nos EUA, mortes num incêndio num hospital são raras, embora não tenha sido sempre este o caso. Num relatório da NFPA, Incêndios em Propriedades de Cuidados de Saúde nos EUA, os EUA tem uma média de duas mortes por anos nestas ocupações. Incidentes que ocorreram ao longo dos anos levaram a mudanças nas NFPA 101, 99, 110 e outras normas. Como resultado, as normas correntes tratam de importantes assuntos como o gerenciamento das emergências, exigências de saídas, vulnerabilidade e avaliação de riscos, exigências de construção, fornecimento de energia de emergência e muitas outras práticas de segurança elaboradas para fazer as instalações de cuidados de saúde mais seguras.

A história e conhecimento ganhos através de lições de prévios incêndios podem ser usados para desenvolver um abrangente plano de segurança de incêndios para a sua instalação. Infelizmente acontecerão mais lições aprendidas com o incêndio no Hospital Badim, mas, esperamos, enquanto vamos adiante e trabalhamos para reduzir as perdas de vidas devidas a incêndios em instalações de cuidados de saúde, as lições aprendidas neste incêndio poderão ser aplicadas globalmente.

Robert Solomon é diretor de divisão da NFPA para Proteção Contra Incêndios dos Edifícios e Segurança de Vida

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