Projeto limpo

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Clean by Design

Os bombeiros sempre viveram e trabalharam em quartéis contaminados por camadas de produtos tóxicos cancerígenos. Paul Erickson, arquiteto e sobrevivente do câncer, pensa que existe uma forma melhor e mais saudável de projetar.

Entrevista dirigida e editada por Jesse Roman

Ao fazer seu trabalho, os bombeiros criaram sem querer um “sistema de colheita de cancerígenos” de uma eficiência devastadora, de acordo com o arquiteto Paul Erickson. Isso funciona assim: os bombeiros respondem a uma chamada de incêndio onde passam horas mergulhados em químicos tóxicos que se infiltram na roupa de proteção, nos caminhões e no equipamento. Logo eles trazem todo o equipamento contaminado de volta ao quartel onde emite gases que contaminam o ar e as superfícies onde eles comem, dormem, vivem e trabalham. “Esse ciclo se repete ao longo de dias, semanas, meses e anos,” explica Erickson, aumentando os níveis de contaminação em seu ambiente de vida.

A exposição aos cancerígenos é a principal causa das taxas extremamente altas de câncer que afetam os bombeiros, bastante mais elevadas, de acordo com vários estudos, que as taxas de câncer presentes no público em geral. Gastam-se milhões de dólares e incontáveis horas para lidar com a questão através da pesquisa, da educação e de novas formas de fazer as coisas. Isso inclui um exame sério de como os quartéis de bombeiros – o epicentro desse sistema de colheita de cancerígenos – são projetadas.

Erickson, que foi co-fundador em 1986 da empresa LeMay Erickson Willcox Architects, baseada na Virginia, participou em mais de 100 projetos de segurança pública em toda sua carreira e dirige desde 2012 um trabalho em desenvolvimento que pretende repensar o projeto dos quartéis de bombeiros e controlar a difusão de químicos que causam câncer.

O primeiro quartel projetado aplicando esses novos conceitos está atualmente em construção Em Nova Jersey e Erickson disse que já tem mais projetos encaminhados. O NFPA Journal falou com Erickson sobre os novos conceitos de projeto dos quartéis, o que os corpos de bombeiros podem fazer hoje – exceto construir um novo quartel - para mitigar os riscos e sua própria batalha contra o câncer durante o ano passado.  

Quando foi a primeira vez que tiveram a idéia de projetar quartéis de bombeiros de forma a mitigar os riscos de câncer?

Nosso interesse para o tema surgiu dum compromisso anterior para projetar quartéis levando em conta a saúde e o bem estar do pessoal, problema no qual temos trabalhado durante quase uma década. Por volta de cinco anos atrás, tomei conhecimento dalguns fatos sobre o câncer que afeta os bombeiros e assumi o desafio de projetar um quartel onde a incidência do câncer seria reduzida. Em 2012, Cindy Ell, presidente do Firefighter Cancer Support Network, perguntou-me por que, com toda a contaminação presente, não aplicávamos conceitos de contenção dos incidentes HAZMAT aos quartéis de bombeiros. Essa pergunta fazia tanto sentido que continuei a desenvolver os conceitos por minha conta desde então.

Em poucas palavras, porque os quartéis de bombeiros são ambientes tão perigosos?

Qualquer incidente que envolva fumaça inclui também a exposição a químicos carginogenos e tóxicos. Qualquer equipamento ou roupa usado em serviço em resposta a essas chamadas fica exposto aos contaminantes. A não ser que se realize um processo completo de descontaminação no local do incidente, esses contaminantes são levados de volta ao quartel. Se você não realizar uma descontaminação cuidadosa e completa de toda a roupa, equipamento e viaturas e do próprio corpo tomando um chuveiro, você permitirá que esses contaminantes se espalhem no interior do quartel.

De que forma o projeto do quartel pode ajudar a mitigar a exposição?

A premissa é separar os espaços do quartel com base em sua exposição aos contaminantes. As áreas associadas com itens que os bombeiros levam quando respondem a uma chamada - equipamento, ferramentas, equipamento de proteção individual (EPI), viaturas – são espaços considerados zonas quentes. Agrupamos esses espaços e chamamo-los de áreas vermelhas. Os espaços de vida, independentemente de seu uso, são agrupados em zonas seguras e categorizamos esses espaços como zonas verdes, mantidos totalmente separados das áreas vermelhas. Tratamos com muito cuidado a questão da transição e o movimento de ida e volta entre as áreas vermelhas e verdes. Essas áreas são separadas por uma área amarela onde instalamos lugares para lavar as mãos. Na conceição mais atual, a área amarela inclui um caminho para que os bombeiros que voltam das chamadas saquem sua roupa contaminada e seus uniformes de trabalho, tomem uma ducha e ponham uniformes limpos para voltar ao serviço.

Separar as áreas contaminadas e não contaminadas faz sentido do ponto de vista intuitivo, mas parece difícil na prática. Imagino que a área amarela seja a mais difícil de projetar. Quais são os elementos de projeto e os processos que asseguram que os contaminantes não passem para a zona verde?

Queremos que o processo seja tão fácil e óbvio como possível para os bombeiros. Uma das coisas que temos são nichos para lavar as botas e para lavar as mãos, colocados no caminho entre o estacionamento dos veículos e a zona de habitação, de forma que a limpeza não implique um esforço. Esses nichos se usam diariamente passando do estacionamento a zona de habitação, durante uma chamada ou não. Tentamos desenvolver um protocolo novo onde os bombeiros que voltam duma chamada entram numa sala de descontaminação e mandam o equipamento para um lugar onde é lavado e guardado. O pessoal segue outro caminho até um banheiro privado com uma pia, um vaso sanitário, um chuveiro, onde pode remover todos os contaminantes que tenham penetrado eventualmente através das costuras de seu EPI. Eles podem logo por uniformes limpos e voltar ao serviço. Este é um conceito revolucionário. Não parece complicado, mas a maioria dos quartéis não está configurada assim porque as pessoas não têm reconhecido historicamente o vínculo entre a exposição aos contaminantes e o risco de câncer. 

Você apresentou essas idéias em todo o país, incluindo a Conference & Expo da NFPA o ano passado. Qual foi a reação que recebeu em relação a essas idéias?

A resposta tem sido positiva em todos os casos – as pessoas parecem estimuladas pelas idéias. Ouvi pessoas dizer coisas como, “Que loucura, porque não fizemos isso anos atrás?” O fato de usar um conceito familiar como controle HAZMAT e aplicá-lo ao projeto dos quartéis é algo que as pessoas compreendem facilmente. Às vezes surgem algumas dúvidas, causadas em minha opinião por um sentimento da limitação do que é possível. Estamos indo contra protocolos bem estabelecidos nos corpos de bombeiros, e as pessoas pensam as vezes que não poderão realizar as mudanças. Este é provavelmente o maior desafio. Mas não quero falar muito nisso, porque penso que a grande maioria das pessoas que entram em contacto com o conceito dizem “Olha, há algumas idéias realmente interessantes aqui e podemos fazer algo.” Minha proposta é que podemos mudar algo, que somos obrigados a mudar, e que mesmo uma pequena mudança vale o esforço que requer.

Qual foi o nível de interesse por parte dos líderes dos corpos de bombeiros? Você acha que essas idéias estão sendo postas em prática?

Parece-me que essas idéias são cada vez mais aceitas, da mesma forma que a questão do câncer passou dos bastidores ao centro do palco. Falei com muitos colegas em todo o país e eles conhecem esses conceitos e começam a adotá-los em suas discussões com os clientes. Muitos de nossos clientes nos dizem que querem incluir essas estratégias em suas instalações. Não há nada mais importante para eles que salvar as vidas de seus companheiros, e isso é algo que pode nos unir. Um comandante de bombeiros que ouviu minha palestra em maio me chamou um mês mais tarde para dizer que ele queria falar mais comigo sobre esse conceito e pediu que eu os visitasse. Entretanto ele me contou as mudanças que seu departamento já tinha introduzido e ficava claro que o comandante tinha escutado com muita atenção minha apresentação e tinha entendido. Ele voltou e realizou muitas mudanças apenas duas semanas depois da minha palestra.

A maioria dos quartéis existentes foi construída quando o controle da contaminação não se encontrava nas prioridades da segurança dos bombeiros. Quais são os elementos de projeto dum quartel típico que o preocupam mais?

Ainda é freqüente ver EPI armazenado na zona de estacionamento, às vezes pendurado de ganchos na parede, às vezes guardado em cacifos colocados na parede. Esta é provavelmente a questão mais importante que chama a atenção, porque qualquer tipo de EPI que foi exposto aos cancerígenos vai liberar produtos químicos, a não ser que tenha sido completamente limpo e a maior parte do tempo isso não acontece. Essa emissão cria um ambiente hostil para qualquer pessoa trabalhando ali. O EPI em si está também exposto a contaminantes adicionais se não houver um sistema de controle de exaustão do diesel na zona de estacionamento. Existe a possibilidade que os contaminantes fiquem incrustados no interior do EPI. De acordo com o Firefighter Cancer support Network, a cada cinco graus de aumento de temperatura corporal, a taxa de absorção dos químicos através da pele aumenta em 400 por cento. Isso significa que quando você começa a transpirar no local do incêndio, os contaminantes que se encontram no interior do EPI penetram mais facilmente no corpo através da pele. Então o EPI deveria ser guardado numa sala separada como uma porta, idealmente com uma unidade mecânica exclusiva que deveria secar o equipamento e evacuar os elementos cancerígenos fora do edifício.

Já que a maioria dos corpos de bombeiros não tem meios financeiros para construir novos quartéis, quais são os passos que alguns deles podem dar para mitigar os riscos em seus edifícios atuais?

Talvez a melhor forma de controlar a propagação de contaminantes seja assegurar que as pessoas lavem e limpem as mãos. Recomendamos a colocação duma pia perto da entrada à zona de habitação. Se não for possível, poderiam instalar um higienizador de mão. Essa é a primeira medida mais importante para controlar a propagação dos contaminantes. Em segundo lugar, pense na armazenagem dos materiais. Se alguma coisa for usada numa zona quente como o estacionamento, deveria ser guardada na zona quente. A última coisa que quer fazer é guardar todos seus produtos no estacionamento e logo apanhá-los, junto com os contaminantes, e trazê-los para as zonas limpas de habitação para usá-los.

Quais são as outras coisas que os corpos de bombeiros podem fazer de imediato com custos baixos ou nulos?

Vejo muitos quartéis com vendedoras automáticas, máquinas de fazer gelo e equipamento de exercício colocados no estacionamento. Mais uma vez, essas áreas estão contaminadas e esses contaminantes estão depositados em diferentes superfícies e liberados no ar. Isso põe os contaminantes em contato direto com o gelo, ou potencialmente com os alimentos das vendedoras automáticas que são ingeridos. Exercícios físicos árduos como levantar pesos e usar maquinas cardio num ambiente contaminado também é perigoso. Você pode entrar em contacto com contaminantes presentes na superfície do equipamento que podem ser absorvidos através da pele e é provável que você esteja transpirando, então a taxa de absorção aumenta. Você está respirando a um ritmo acelerado, então qualquer tipo de contaminante transportado pelo ar vai penetrar mais profundamente em seus pulmões. Se você estiver tomando água para ficar hidratado durante os exercícios, poderá estar ingerindo contaminantes. Remover o equipamento de exercício dos estacionamentos deveria ser uma primeira prioridade.

Você recebeu um diagnóstico de câncer o ano passado, como está e qual foi o impacto do diagnóstico em seu trabalho?

Estive falando sobre o controle do câncer nos quartéis de bombeiros durante três anos antes de receber um diagnostico de câncer de cabeça e pescoço, por volta de um ano atrás. Quando alguém diz que você tem câncer, é uma experiência que dá o que pensar, as estatísticas se tornam muito pessoais. Sou afortunado por ter médicos incríveis, e porque a radioterapia e a quimioterapia foram muito efetivas. De momento, já não tenho câncer e estou muito agradecido. Conheço muitas pessoas que não têm a mesma história para compartilhar. Compreendi ainda mais os desafios que o câncer representa para os esposos, as crianças, os sócios de negócios e obviamente, os indivíduos. Isso muda a vida, e felizmente para mim minha história é boa. Sinto mais compaixão, mais compreensão e mais incentivo para fazer a diferença. Para mim, na vida tudo se resume a deixar o mundo um lugar melhor e esta questão me permite tentar fazer isso.

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