O futuro dos eventos

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O futuro dos eventos

Por Jesse Roman
 
Criado a partir duma tragédia e impulsado por uma missão com visão estratégica, um grupo sobre Segurança dos Eventos, em rápida expansão, espera aprimorar a segurança das reuniões de público em todo o mundo
 

Criado a partir duma tragédia e impulsado por uma missão com visão estratégica, um grupo sobre Segurança dos Eventos, em rápida expansão, espera aprimorar a segurança das reuniões de público em todo o mundo

As 8h45 do dia 11 de agosto 2011, um anúncio emitido pelos alto falantes próximos do palco ressoou no Indiana State Fairgrounds em Indianapolis: apesar do aviso de tempo severo do Serviço Meteorológico Nacional, o concerto muito esperado do grupo Sugarland à noite prosseguia. A maior parte dos milhares de espectadores, apesar do céu cada vez mais escuro, ficaram onde estavam, sentadas ou em pé, impacientes por assistir à atração principal. Mas o show não ia continuar.

De acordo com uma investigação pós-incidente realizada pela Indian Fair Commission, apenas um minuto depois do anúncio, uma forte rajada de vento deslocou as barreiras de concreto que seguravam os tirantes do palco e causou um colapso catastrófico da cobertura temporária e das colunas de apoio. Num instante, a inteira estrutura do telhado de 70.000 libras ruiu sobre a multidão desprevenida, matando sete pessoas e ferindo muitas mais. Detalhes do evento apareciam nas telas da televisão em todo o mundo, enquanto os políticos criticavam frontalmente os planejadores do evento e os acusavam de colocar o lucro antes da segurança dos participantes.

Quase imediatamente, muitos viram o colapso do palco do Indiana como um tipo de indicador para toda a indústria dos eventos ao vivo. Os líderes da indústria não só estavam horrorizados pela perda de vidas, eles estavam preocupados pela possibilidade de o incidente afastar clientes receosos, diz Steve Adelman, advogado e um dos consultores líder da proteção, segurança e gerenciamento de risco dos eventos ao vivo (e colaborador ocasional do NFPA Journal). Com as consequências do evento ainda presentes no início de 2012, Adelman e outros profissionais da segurança de eventos com a mesma posição eram chamados regularmente a Indianapolis para participar de discussões sobre como aprimorar a segurança.

Entre os presentes se encontrava Jim Digby, amigo de longa data de Adelman e gerente da banda de rock Linkin Park. “Jim e eu concordamos que não somos o tipo de pessoas que se preocupam sem fazer nada – somos pessoas de ação, somos fazedores,” disse Adelman numa entrevista recente com o NFPA Journal. “E entendemos que se não fizermos algo não só para aprimorar a segurança dos eventos ao vivo, mas também para fazer que as pessoas se sintam mais seguras nesses eventos, eles não irão e nós não vamos ter trabalho. E não queríamos que nenhuma dessas coisas acontecesse.”

Dessas discussões surgiu a ideia de criar uma associaçao sem fins lucrativos, chamada Event Safety Alliance, dedicada a aprimorar a segurança das multidões pela difusão de educação e conscientização em toda a indústria dos eventos. “Muitas das coisas que fazemos são culturais,” disse Adelman. “Estamos tentando mudar uma cultura enfocada no ‘show deve continuar’ para um enfoque de colocar a segurança no primeiro lugar.”

Desde a sua fundação em 2012, a ESA, como a indústria dos eventos ao vivo em geral, cresceu muito rapidamente,” diz Adelman, vice-presidente da organização. A quantidade de membros e de recursos tem aumentado, assim como a participação na sua conferência anual de uma semana, o Event Safety Summit. A ESA produz agora um podcast, do qual Adelman é apresentador, e uma revista digital, “Event Safety Insights,” disponível em eventsafetyalliance.org/News-1. Os especialistas da ESA estão sempre presentes nos eventos e conferências da indústria em todo o mundo, incluindo a Conference & Expo da NFPA. Ainda este ano, a ESA entrará por primeira vez no mundo do desenvolvimento de códigos e normas quando publicar uma norma acreditada pela ANSI intitulada Crowd Management. O documento será, de acordo com Adelman, a primeira norma acreditada no mundo que trata unicamente do gerenciamento de multidões nos eventos ao vivo.

O NFPA Journal se encontrou com Adelman para falar sobre a evolução da segurança dos eventos ao vivo e o seu papel, o crescimento da ESA e saber mais sobre a nova norma da organização sobre gerenciamento de multidões e como complementa o NFPA 101®, Código de Proteção da Vida.

Qual é o estado da indústria dos eventos ao vivo hoje comparado com os anos passados em termos do número e tamanho dos eventos?

Temos mais eventos ao vivo que nunca. São maiores que nunca. Estão produzindo mais dinheiro que nunca. Isso é necessário porque do lado da música, ninguém está vendendo discos - essa parte da indústria não está prosperando em nenhum aspecto. Em lugar disso, as receitas são obtidas através das turnês e da venda de produtos e outras questões subsidiárias. Para o esporte, existem mais equipes em mais níveis do que nunca, e isso acontece a nível global. Muitas vezes pensamos primeiro e às vezes por último nos esportes profissionais, mas em muitas partes dos Estados Unidos, o esporte universitário e outro esporte amador são muito importantes. Além disso temos eventos corporativos, um campo que não existia na geração precedente. As ativações de marca e outros eventos de música ou esportivos patrocinados por empresas são uma indústria em forte crescimento.

O que uma ativação de marca?

A semana passada estava em Las Vegas falando numa conferência dirigida a pessoas que organizam ativações de marca para ver como fazê-lo melhor. Uma das apresentações foi uma palestra por um membro sênior de marketing da Under Armour, e ela mostrou aquilo que se chama sizzle reel. Era um vídeo de Steph Curry, o jogador de basquete dos Golden State Warriors, que foi levado numa turnê por Asia por Under Armour para promover Curry e a marca Under Brand em vários eventos. Num dos eventos, Under Armour fechou um cruzamento importante, acho que em Tokyo, para realizar um evento Steph Curry no meio da cidade. Não imagino a logística envolvida no evento. Eles levaram também Curry para ginásios escolares onde ele realizou torneios de três pontos contra equipes locais. Existem também todos tipos de concertos e outros eventos organizados para os fãs e interação com os fãs. Esse tipo de evento de marketing se está tornando muito comum. Grandes marcas corporativas patrocinam agora todos tipos de eventos.

Já que se realizam mais eventos que nunca em todo o mundo, acompanhados aparentemente por uma maior conscientização sobre os problemas que podem ocorrer nesses eventos, a segurança dos eventos se está tornando uma indústria artesanal à parte?

Não, eu não diria isso. E não acho que seja uma meta em si. Com certeza, para alguns grandes festivais de música teremos o chamado encarregado da segurança. Mas em geral não queremos que a segurança seja considerada de forma isolada. A segurança deveria ser parte de tudo. Deveria ser a responsabilidade de todos. Assim é como a ESA diz isso: Queremos ajudar a construir a transição entre “o show deve continuar” e “a segurança em primeiro lugar.” Não queremos que seja apenas o gerente de riscos que pense na segurança e o resto das pessoas envolvidas nas suas coisas.

Isso está começando a acontecer?

É um processo. Algumas pessoas já perceberam que dedicar tempo a um trabalho seguro é um bom negócio. Salva vidas, poupa dólares. Faz que as pessoas tenham uma opinião favorável dos vossos eventos e causa perdas menores das que representaria um aumento dos prêmios do seguro. Mais seguro é melhor em todos os aspectos. Isso também mantem os advogados fora da sua casa, o que é ótimo. Algumas pessoas entendem isso. Dito isso, “o show deve continuar” é uma tradição de longa data. Quebrar esse hábito vai levar bastante tempo. Ainda temos jogadores muito significativos na indústria de eventos ao vivo que preferem não pensar ativamente na segurança. E você sabe, eles sofreram perdas bastante pesadas e ainda assim parecem resistentes. Os que criamos a ESA preguntamos e insistimos e destacamos todos os argumentos positivos que explicam por que a segurança é um bom negócio. E de vez em quando lhes lembramos que se não trabalharem de forma segura acontecem coisas más, e essas coisas são desagradáveis e custam caro.

Você disse que a ESA está em crescimento rápido. Por que pensa que tantas pessoas querem aderir?

A tragédia fez da segurança uma questão importante, que está no topo das preocupações e este não era o caso na geração precedente. Naquela época havia tragédias, como o tumulto no concerto dos Who em Cincinnati em 1979 ou no jogo de futebol no Hillsborough Stadium em Sheffield, na Inglaterra, em 1989. Mas temos mais tragédias hoje e têm maior cobertura e, portanto, há mais preocupação que nunca. A ESA nasceu em resposta a uma dessas tragédias, e infelizmente ainda ocorrem incidentes. As notícias proporcionam um argumento muito forte às posições que defendemos.

Quais são as principais questões de segurança que preocupam mais os organizadores de eventos hoje? Qual é a diferença com, digamos, 50 anos atrás?

A diferença óbvia é: armas. Não é preciso dourar a pílula. O pior evento envolvendo atiradores ativos da história dos Estados Unidos foi num evento ao vivo em Las Vegas, o Route 91 Harvest Festival. O pior incidente com atiradores ativos precedente na história dos Estados Unidos ocorreu também num evento ao vivo, o tiroteio do clube noturno Pulse em Orlando, na Florida. As disposições para mitigar o risco com atiradores ativos não funcionam muito bem nos eventos ao vivo. A instrução usual de correr, esconder-se e lutar enfrenta alguns problemas reais quando se aplica a ambientes escuros, ruidosos e estranhos e onde muitas pessoas poderiam estar comprometidas de diferentes formas.

No exterior, onde não tem o problema das armas que temos nos Estados Unidos, eles têm atentados a bomba em carros não identificados, o que é evidentemente uma preocupação significativa. Além disso, os organizadores de eventos ao ar livre devem se empenhar num plano de ação para eventos climáticos extremos e como conseguir pôr as pessoas num lugar seguro. Devemos também pensar seriamente nos abusos sexuais. O movimento #MeToo se aplica tanto nos eventos ao vivo como em qualquer outro lugar. Qualquer um desses problemas e francamente todos eles, deveriam tirar o sono aos organizadores de eventos.

Por que a ESA cria uma norma de gerenciamento das multidões? Qual é a lacuna na matriz de segurança que a norma pretende preencher?

Na verdade, não é apenas uma lacuna, é um enorme abismo. Não existe nenhuma norma sobre gerenciamento das multidões, nem nos Estados Unidos, nem globalmente. Simplesmente não existe, e isso é muito surpreendente. A ESA criou um grupo de trabalho sobre o gerenciamento de multidões para criar essa norma porque, mesmo analisando as abordagens e formas mais sofisticadas de pensar na dinâmica das multidões, pensamos que faltava algo.

O que estava faltando?

A minha formação de advogado me tornou muito sensível ao que se chama o dever legal de cuidado, que significa que todas as pessoas têm um dever legal de se comportar de forma razoável nas suas circunstâncias. Quando olho para uma norma para eventos, vejo um bom ponto de partida. É uma orientação, mas é razoável nas circunstâncias dum espetáculo específico? Um exemplo é a densidade da multidão, que é sempre muito importante, mas é relativamente menos preocupante, ou pelo menos é um problema diferente, num concerto de música clássica do que num show de heavy metal, onde a densidade será maior e o nível de atividade na assistência será muito mais elevado. Mas não é apenas uma questão de prestar atenção à lotação, mas também à quais atividades as pessoas vão desenvolver, quais são as expetativas das pessoas em relação ao evento e ao seu próprio papel, e quais atividades podem ser razoavelmente previsíveis. Matizes como essas faltam nas orientações existentes.

Uma vez que cada evento envolve circunstâncias tão variáveis e requer aparentemente muita flexibilidade, como procederam para elaborar a norma?

A versão preliminar da norma sobre gerenciamento das multidões da ESA não é uma norma ANSI típica. Na realidade é uma série de perguntas. Decidimos que, se a opinião subjetiva é uma parte integrante do gerenciamento de multidões, queremos reconhecer isso ajudando os organizadores de eventos a formar suas opiniões subjetivas de forma razoável. Nossa norma formula perguntas que o gerente de multidões vai considerar de forma a trazer à tona respostas importantes. Quando os gerentes de multidões fizerem essas perguntas a si mesmos – ou os operadores do local, as empresas de segurança, promotores de eventos ou pessoal médico – eles vão adquirir os conhecimentos necessários nesse contexto para lidar com as multidões de forma mais efetiva. Poderia parecer um pouco exagerado, mas a forma como escrevemos a norma encoraja as pessoas a pensar. É uma abordagem muito diferente da maior parte das normas.

Qual seria, por exemplo, uma questão na norma que um leigo como eu poderia não considerar imediatamente ao planejar um evento ao vivo?

Tenho a norma no meu computador agora mesmo, e de forma totalmente fortuita entrei na seção 4.2.3, “Sinalização”. E a primeira questão depois da descrição diz: “Quando avaliamos a efetividade da sinalização em relação à orientação, às saídas e aos serviços essenciais como os cuidados médicos, os responsáveis do gerenciamento de multidões devem considerar as circunstâncias nas quais os participantes vão usar essa sinalização durante todas as fases do evento, incluindo a chega e a saída.” Então o que isso significa em inglês? Significa que a sinalização orientadora é muito mais difícil de ver que a sinalização do vendedor de cerveja, você provavelmente vai querer repensar a sinalização que tem o fim de orientar as pessoas. As pessoas deveriam poder encontrar os banheiros, a tenda médica, e as saídas tão facilmente como o lugar onde comprar o próximo trago.

Imagino que o tipo de público tem um papel importante nessas decisões?

Muito importante. Se é provável que o meu público consoma álcool, eles vão precisar de um lugar onde possam fazer passar a bebedeira antes de pegar nas chaves dos seus carros. Se é um público que consome ecstasy, eles vão precisar de um ambiente médico diferente - provavelmente mais locais para hidratação. Algumas pessoas ficam acordadas pensando em tudo isso, mas mesmo um pequeno espetáculo tem tantas partes em movimento que eles poderiam não ter pensado em todos os assuntos. Então a versão preliminar da norma de gerenciamento das multidões os obriga a pensar nessas coisas.

Qual é a diferença entre este documento e o Código de Proteção da Vida e o processo de avaliação de segurança humana, ou como os complementa? Essas coisas funcionam juntas?

Sem dúvida. Em primeiro lugar, o Código de Proteção da Vida é o material fundamental referenciado em muito lugares. Obviamente é o código líder em relação ao movimento de pessoas em espaços confinados. Tem a força de anos de existência na indústria e é um processo de verificação sem igual. O Código de Proteção da Vida tem também essas longas listas de coisas que se deveriam fazer ou circunstâncias nas quais uma avaliação de segurança humana deveria ser aplicada. Essas são as coisas que todos os responsáveis do gerenciamento das multidões precisam saber, e em lugar de reinventar a roda, ou apenas transcrevê-lo em outro lugar, simplesmente fazemos referência a isso e tentamos construir nessa base.

Quais são as principais diferenças em termos de conteúdo e abordagem entre a nova norma da ESA e o Código de Proteção da Vida?

A norma da ESA se concentra muito no “porque”, e o Código de Proteção da Vida não faz isso – o código em geral não explica, simplesmente diz “fazer.” O Manual do Código de proteção da Vida inclui muitos “por que?”, mas o manual não é um documento adotado legalmente – o código sim. Uma das coisas que podemos melhorar com a produção de eventos ao vivo é encorajar as pessoas a pensar razoavelmente, e tomar decisões razoáveis. A única forma de fazer isso é ajudando a educar as pessoas acerca de qual poderia ser um bom motivo e porque é um bom motivo.

Você mencionou que isso foi desenvolvido por um grupo de trabalho sobre gerenciamento das multidões. Quem está no grupo?

Eu sou o presidente do grupo de trabalho, que tem aproximadamente 35 membros. Essas pessoas são ou membros da ESA ou membros da Entertainement Services and Technology Association que se identificaram como pessoas com conhecimento e interesse para criar uma norma ANSI sobre gerenciamento de multidões.   Como a própria ESA, o leque de experiências de vida e especialidades inclui cada faceta da produção de eventos ao vivo. Temos promotores, produtores e pessoas com competências técnicas como montagem e iluminação de palcos. Temos empresas dedicadas à segurança e pessoas que trabalharam em eventos musicais, esportivos e de ativação de marcas, todos com assistência de público e questões relacionadas com as multidões. Temos pessoas dos seguros, eu sou advogado. Tentamos cobrir todo o leque de experiências e competências operacionais.

Aonde pensa que a ESA vai a partir daqui? Haverá outras normas?

Teremos desenvolvimento de outras normas, por exemplo uma intitulada Safety Requirements for Special Events Structure, que está atualmente no ciclo de revisão, mas francamente isso precisa de tanto trabalho que provavelmente não vai ser o enfoque principal da ESA. Estamos muito satisfeitos de deixar isso para outras entidades que estão mais bem equipadas para fazer esse tipo de trabalho, como a NFPA. Estamos muito contentes de trabalhar em parceria com a NFPA e aproveitar ao máximo todo o trabalho árduo que os membros da NFPA realizaram ao longo dos anos. A educação e a conscientização do público são realmente a missão principal da ESA, e muito disso é cultural. Mas a mudança cultural requer tempo e muita conversa. Precisamos mostrar que as pessoas que falam de segurança não assustam e não estão zangadas – somos vocês. Somos parte da indústria que estamos tentando cambiar. Falamos a língua da nossa indústria porque estamos muito envolvidos com ela.

Os eventos em todo o mundo estão crescendo tanto em número como em tamanho, de acordo com os peritos da indústria e incluem novas preocupações quanto à segurança. A direita, os farristas se juntam num evento recente de música eletrônica de pista realizado em Las Vegas.

Para lidar com as lacunas na orientação disponível aos organizadores de eventos, a Event Safety Alliance criou uma norma sobre gerenciamento das multidões para ajudar ao planejamento e operação dum amplo leque de eventos.

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