Dia Zero

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Dia Zero

Por Lucian Deaton

Como combater incêndios florestais durante uma estiagem aguda? É esse o problema que a Cidade do Cabo, na África do Sul, está tentando resolver desesperadamente.

Em janeiro, Patricia de Lille, intendente da Cidade do Cabo na África do Sul, anunciou que, devido à atual seca na região, sua cidade de quatro milhões de habitantes estava prestes a ficar sem água potável. Quando os reservatórios de água da cidade chegarem a 13.5 por cento de sua capacidade, um dia que ela chamou de “Dia Zero”, começaria um estrito racionamento obrigatório da água. De acordo com funcionários do governo local, o Dia Zero podia chegar em meados de abril.

Para uma cidade rodeada de vegetação arbustiva e sujeita a intensos incêndios florestais, esse fato alarmante representava um problema grave para Ian Schnetler, Comandante dos bombeiros da Cidade do Cabo. Em média, o corpo de bombeiros da Cidade do Cabo responde a pelo menos um incêndio de áreas naturais por dia. Eu me perguntava o que aconteceria quando os bombeiros não tiverem água suficiente para apagar esses incêndios não desejados. Visitei nossos parceiros sul-africanos em março e tive um encontro com o Comandante Schnetler para obter mais informação.

Enquanto a Cidade do Cabo está lutando contra uma falta aguda de água, o problema poderia provavelmente afetar os corpos de bombeiros em todo o mundo num futuro próximo. De acordo com as Nações Unidas, até 2030 a demanda global de água doce excederá a capacidade disponível em 40 por cento. Até então 60 por cento da população mundial vai morar em áreas urbanas, muitas das quais enfrentarão ameaças de incêndios florestais. Por causa de tudo isso, eu me perguntei se a Cidade do Cabo poderia oferecer algumas lições sobre como enfrentar a situação.

O Comandante Schnetler me disse que seu departamento tinha trabalhado muito para aumentar sua resiliência nesse tempo de escassez de água. Embora os incêndios estruturais sejam normalmente apagados com água potável municipal obtida de hidrantes, o corpo de bombeiros deu passos significativos para reduzir o uso de água limpa para apagar incêndios florestais e uma das formas tem sido simplesmente deixar arder mais incêndios, disse Schnetler. A ecologia da Cidade do Cabo consiste em grande parte de áreas de vegetação arbustiva que prosperam nos incêndios florestais para manter paisagens saudáveis. Numa importante mudança cultural para o corpo de bombeiros, os incêndios florestais que não apresentam um risco para a segurança das pessoas são agora monitorados de perto e em grande parte deixados em paz.

Para os incêndios florestais que apresentam um risco para o público, o departamento mudou sua tática de supressão e se tornou mais econômico no uso da água. Os bombeiros estão usando mais espuma específica para os incêndios florestais em seus esforços de supressão e quando a água é necessária o departamento emprega novas técnicas com as mangueiras que tornam a aplicação de água mais eficiente, disse o Comandante. Quando precisa usar água para a supressão dum incêndio florestal, o departamento passou a usar uma série de fontes não tradicionais: coletar água dos tetos de seus quartéis para encher os caminhões-tanque, identificar fontes naturais onde pode bombear água e até utilizar água do mar.

O Corpo de Bombeiros aplica as mesmas medidas que o público toma para participar dos esforços de conservação da água introduzidos para as zonas residenciais da cidade. Por exemplo, os bombeiros tomam duchas rápidas e o quartel coleta água cinza para sua reutilização.

Essas medidas, junto com os esforços globais em curso em toda a Cidade do Cabo estão funcionando, de acordo com o Comandante Schnetler. Antes do anúncio do Dia Zero pela intendente, a Cidade do Cabo e as regiões agrícolas circundantes estavam consumindo mais de 158,000 galões de água por dia, e os níveis dos reservatórios da cidade estavam diminuindo em 1.4 por cento a cada semana. Três meses mais tarde, até meados de março, o consumo tinha baixado a apenas 132,000 galões por dia e o Dia Zero tinha sido adiado até agosto – mês que os funcionários públicos esperam corresponda com o início histórico da época de chuvas na região.

Se e quando os níveis de água voltarem ao normal, disse Schnetler, o Corpo de Bombeiros da Cidade do Cabo manterá os esforços de conservação. Ele entende que independentemente do que acontecer num futuro próximo, a escassez de água na Cidade do Cabo será provavelmente a norma mais do que a exceção no futuro. A preparação, ele disse, é essencial. Muitos outros lugares no planeta deveriam tomar nota disto.

LUCIAN DEATON é diretor de projeto da Divisão de Operações em Incêndios Florestais da NFPA.

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