Perigo: construção

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Perigo: construção

Por Angelo Verzoni

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Uma série de incêndios recentes grandes e caros envolvendo edifícios em construção sublinha a necessidade dum uso mais difundido da NFPA 241 para lidar com um conjunto de riscos relacionados

Por Angelo Verzoni

Conteúdo Relacionado

Veja um webinário do American Wood Council, que inclui duas apresentações da NFPA sobre a proteção contra incêndio durante a construção.

Visite o sitio web do American Wood Council sobre segurança na construção, que oferece muitos recursos, incluindo vídeos e manuais de segurança contra incêndio, entre outros.

Leia o relatório de abril 2017 da NFPA, “Fires in Structures Under Construction, Undergoing major Renovation, or Being Demolished.”

Leia o artigo de Junho 2017 do NFPA Journal Latinoamericano “Uma vez mais, queimados”, sobre incêndios em propriedades em construção pela empresa AvalonBay em New Jersey.

Leia o artigo de Setembro 2017 do NFPA Journal Latinoamericano, “Trabalho a Quente, Trabalho Seguro”, sobre as lições aprendidas da análise realizada pelo U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation Board sobre incidentes envolvendo trabalho a quente.

Numa manhã quente de verão, o cheiro da fumaça ainda permanecia entre os montes de madeira carbonizada e metal torcido que cobriam um grande terreno a beira do rio em Waltham, Massachusetts. 

Uma semana antes, na propriedade situada a 10 milhas ao oeste de Boston, se erguiam cinco prédios de apartamentos praticamente terminados com mais de 260 unidades, que deveiam começar a receber inquilinos no outono. Contudo, cedo de manhã no dia 23 de julho, um incêndio massivo devastou o conjunto residencial, reduzindo a maior parte a escombros. Apenas os poços de elevador de concreto e um estacionamento do mesmo material ficaram intactos. 

O fogo cuspiu brasas como num incêndio florestal, ameaçando as propriedades a milhares de pés de distância. “As brasas que vi voar tinham o tamanho duma bola de softbal,” lembrava o Comandante de bombeiros adjunto de Waltham, Andrew Mullin. “Recebemos notícias de brasas e detritos até uma distância de uma milha do local... e numerosos tetos danificados.” As brasas iniciaram um incêndio numa descarga de lixo a aproximadamente um terço de milha do local e um pequeno incêndio estrutural a aproximadamente um quarto de milha, de acordo com Mullin. Por volta de três semanas depois do incêndio, os investigadores anunciaram que tinha sido um incêndio proposital e que pediam a ajuda do público para encontrar o responsável. Os danos foram estimados em 110 milhões de dólares.

O incêndio de Waltham foi um duma série de grandes incêndios que ocorreram nos últimos meses em edifícios em construção nos Estados Unidos. Em agosto, no Colorado, um antigo moinho de 118 anos que estava sendo reformado para receber um restaurante e outros negócios, foi destruído por um incêndio. Mais cedo no mesmo mês, um incêndio iniciado por um trabalho de solda causou extensos danos a um edifício histórico em renovação no campus da Universidade de Vermont. No início de julho, um incêndio com um tamanho suficiente para ser detectado desde o espaço pelos satélites meteorológicos destruiu um prédio de apartamentos em construção de sete andares em Oakland, Califórnia. Em junho, as chamas destruíram um prédio de apartamentos quase terminado em Boston. Em abril, um incêndio causou danos estimados em 40 milhões de dólares a um prédio de apartamentos em construção no Maryland. E em março, dois incêndios a menos de uma semana de distância devastaram prédios de apartamentos em construção na Carolina do Norte e no Kansas.

Em cinco desses incêndios – os dois de Massachusetts e os de Maryland, Carolina do Norte e Kansas – um denominador comum foi o sistema construtivo com estrutura leve de madeira (wood frame), que depende do uso de elementos estruturais de madeira como os caibros de 5 por 10 (“two-by-fours”) acoplados a componentes de madeira “leve” ou “engenheirada” produzidos com cola e resinas. (A construção com estrutura de madeira leve não deveria ser confundida com a construção em madeira massificada (mass timber) que usa elementos mais pesados de madeira engenheirada para construir edifícios chamados usualmente “edifícios altos de madeira”).  A madeira é considerada mais barata, mais duradoura e mais sustentável que materiais como o aço e o concreto. A construção com estrutura leve de madeira é muito difundida nas casas unifamiliares e se tornou também comum em edifícios maiores, muitos dos quais são conjuntos multifamiliares até cinco pisos de altura.

Está também comprovado que a madeira leve queima e falha mais rapidamente que a madeira maciça tradicional, representando um problema de segurança para os bombeiros faz 20 anos.

Mas outros insistem que questionar os materiais de construção envolvidos nesses incêndios recentes é apenas um passo para a resolução do problema. Uma abordagem mais abrangente, dizem, considera os riscos presentes em qualquer obra independentemente dos materiais usados para a construção.

Uma ferramenta importante para mitigar os riscos de incêndio nas obras é a NFPA 241, Salvaguarda de Operações de Construção, Reforma e Demolição. A norma sublinha as medidas destinadas a reduzir o risco de incêndio nos prédios em construção, assim como nos edifícios em processo de reforma ou demolição. A norma requer que os proprietários de edifícios, responsáveis pela sua implementação, designem um gerente de programa de prevenção de incêndio para garantir a execução das medidas corretas de segurança contra incêndio durante a totalidade do projeto de construção. A edição 2018 da NFPA 241 deveria estar disponível ainda este ano e incluirá varias mudanças no uso de equipamento de cozinha e aquecimento e provisões para o uso de sistemas temporários de proteção contra incêndio nas obras. Incluirá também medidas novas permitindo que as autoridades competentes, ou AHJs, requeiram uma segurança contra incêndio quando não há trabalhadores presentes para projetos que envolvem construção combustível de mais de 40 pés de altura.

Embora a NFPA 241 tenha mais de 80 anos, ainda existem falhas na sua aplicação por parte das pessoas envolvidas, motivo pelo qual os especialistas julgam que existe uma necessidade de aumentar a educação sobre a norma. Para esse fim, a NFPA e o American Wood Council (AWC) estão ambos redobrando esforços para melhor educar os parceiros sobre os recursos existentes no âmbito da segurança contra incêndio, incluindo a NFPA 241, com o objetivo de reduzir os incêndios nos edifícios em construção.

A madeira é o inimigo?

Depois de dois incêndios no Massachusetts, bombeiros e servidores públicos locais atacaram fortemente a construção em madeira leve. As palavras mais duras vieram da prefeita de Waltham, Jeanette McCarthy. “A construção em madeira leve é uma tolice. É uma loucura”, ela disse ao Wicked Local, um sítio web comunitário. Da mesma forma, o comandante dos bombeiros de Waltham, Paul Ciccone, disse ao Wicked Local que ele “preferia as coisas construídas em materiais não combustíveis.”

Indícios casuais sugerem que a construção com estrutura de madeira leve, especialmente em edifícios residenciais multifamiliares, está prosperando em certas zonas do país, incluindo a área de Boston. Dados do U.S. Census Bureau mostra que é de longe o tipo de estrutura mais popular para edifícios multifamiliares – e que foi assim durante vários anos. A construção com estrutura de madeira leve constituía 84 por cento dos edifícios multifamiliares construídos nos Estados Unidos em 2016, de acordo com dados do censo. Esse nível ficou estável durante os últimos oito anos com uma média anual de aproximadamente 86 por cento.

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À medida que a construção com estrutura de madeira leve se torna predominante nos edifícios multifamiliares, a construção com estrutura de aço leve (steel-frame) perde popularidade. De 2009 a 2012, representava 7,75 por cento do total dos edifícios multifamiliares construídos anualmente; de 2013 a 2016, apenas 4,25 por cento. A popularidade estável da madeira e a popularidade decrescente do aço para esses edifícios significam que outros materiais, incluindo o concreto, se estão tornando mais comuns, apesar de não haver dados do censo disponíveis sobre outros sistemas construtivos.

Além disso, dados da FP Innovations, uma organização canadiana que pesquisa a indústria florestal, sugere que o tamanho dos edifícios residenciais multifamiliares está aumentando. Em 2006, 18 por cento da construção multifamiliar tinha entre quatro e seis andares. Em 2016, eram 37 por cento. Embora a construção em madeira leve represente uma preocupação legitima para os bombeiros que poderiam ter de entrar nos edifícios em chamas, especialistas como Allan Fraser, especialista sênior de códigos de edificações na NFPA, sublinha que no caso dum edifício em construção, é o fato de estar em construção que representa o maior risco de incêndio, e não os materiais de construção. Em outras palavras, o risco de incêndio num edifício com estrutura de aço em construção é igual ao risco num edifício de madeira em construção, disse Fraser.

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A melhor prova disso são os incêndios devastadores em edifícios em construção, ou em processo de reforma ou demolição, que não usam estrutura de madeira. Em 2007, dois bombeiros da Cidade de Nova Iorque morreram combatendo um incêndio num prédio da Deutsche Bank, construído em 1974. O edifício, que tinha uma estrutura de aço, estava em processo de demolição como resultado dos graves danos sofridos nos ataques terroristas de 11 de setembro. Quando os incêndios ocorrem num edifício de madeira em construção, contudo, as diferenças inerentes de resistência entre a madeira e um material como o aço alimentam as preocupações dos bombeiros.   

Durante as primeiras etapas da construção, todos os edifícios são vulneráveis porque a maioria dos sistemas de proteção contra incêndio e as características de projeto requeridas pelos códigos para isolar e conter o fogo ainda não estão instaladas, disse Ken Willette, diretor do segmento de socorristas da NFPA. “Quando os bombeiros são chamados a combater um incêndio nesses prédios, eles se enfrentam a um tremendo volume de fogo que está atacando o esqueleto do edifício que o mantém erguido,” disse Willette. “Quando o edifício tem uma estrutura de madeira, e em particular com uma estrutura de madeira leve, o esqueleto falha muito mais rapidamente que no caso dum edifício com estrutura de aço, e isso preocupa os bombeiros – o colapso pode ocorrer de repente e com pouco aviso, e eles podem ficar presos.

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Respondendo a incêndios recentes em edifícios com estrutura de madeira leve, a AWC, uma associação comercial que representa a maioria dos fabricantes de produtos de madeira da América do Norte, pretende atrair tráfego para constructionfiresafety.org, seu sítio web dedicado a segurança contra incêndios. O sitio, que inclui vídeos e manuais de segurança contra incêndios, entre outros, foi lançado uns dois anos atrás por construtores, agências regulatórias e bombeiros. A criação recente da Construction Fire Safety Coalition, formada para ajudar a desenvolver a educação e a consciência sobre ferramentas potencialmente valiosas como a NFPA 241, faz parte desses esforços.

“A indústria dos produtos de madeira reconhece o significado desses incêndios, e sentimos que a educação é a melhor abordagem – conseguir que todos sejam conscientes do perigo de incêndio nas obras e que isso se torne uma prioridade de todos os dias para todos no local da obra,” disse Kenneth Bland, vice-presidente de códigos e regulamentos da AWC.

Em construção, em chamas

Madeira ou não, os edifícios em construção são propensos aos incêndios. Um relatório recente da NFPA, “Fires in Structures Under Construction, Undergoing Major Renovation, or Being Demolished,” revelou que de 2010 a 2014, houve uma média anual de 8440 incêndios em edifícios em obras de construção, reforma ou demolição. São praticamente duas dúzias desse tipo de incêndios a cada ano. Os incêndios causaram também uma média de 13 mortes e mais de 100 ferimentos de civis e mais de 300 milhões de dólares de danos diretos a propriedade. O relatório não contém nenhuma informação sobre os materiais de construção envolvidos nesses incêndios, mas aparentemente era uma mistura diversa de materiais de uso corrente na construção. 

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Fraser é otimista quanto à possibilidade que com os novos programas da NFPA sobre a NFPA 241 esses números comecem a diminuir. Em setembro, a NFPA prevê o lançamento dum programa de treinamento online de três horas sobre a NFPA 241 e em novembro, um treinamento presencial de três horas será dado à “Fire Marshals and Inspectors Association”. “Vamos organizar mais capacitação para os proprietários de edifícios, mas vamos também treinar corpos de bombeiros para que eles capacitem os proprietários de edifícios, porque os bombeiros não têm os recursos para monitorar as obras de forma contínua.” Disse Fraser. Enquanto a adoção, aplicação e a implementação da NFPA 241 são uma responsabilidade das AHJs, a NFPA 241 atribui a responsabilidade final da segurança contra incêndios das obras no dia a dia ao proprietário do edifício. 

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Um desafio principal para a implementação da NFPA 241 é encontrar e nomear um gerente de programa de prevenção de incêndio com as habilidades e os conhecimentos requeridos para realizar o trabalho de forma efetiva. Essa pessoa não só precisa ter um conhecimento extenso da NFPA 241, mas deve estar também familiarizado com os demais códigos e normas aos quais a NFPA 241 faz referência – são 19 – e com operações específicas de construção que podem ser pequenas partes dum projeto global, mas podem representar o maior risco de incêndio.

A construção do telhado é um bom exemplo, disse Fraser. “É trabalho a quente. É trabalho perigoso. É trabalho sujo,” ele disse. “Nessas condições, é relativamente fácil para uma pessoa esquecer um procedimento de segurança. Eles podem estar trabalhando no telhado durante dois dias, mas com um erro o edifício foi embora.” A segurança do trabalho a quente é uma parte importante da NFPA 241, que faz referência a NFPA 51B, Prevenção de Incêndios Durante a Solda, o Corte e Outros Trabalhos a Quente. Mas de acordo com um relatório da NFPA, outros fatores como o equipamento de cozinha ou de aquecimento utilizados pelas equipes de trabalho, causam mais incêndios de edifícios em obras de construção, reforma ou demolição.  De fato, no período de cinco anos que foi analisado, 27 por cento dos incêndios em edifícios em construção, em média, foram causados por equipamento de cozinha; o trabalho a quente envolvendo maçaricos, queimadores e ferros de soldar representavam apenas seis por cento das causas de incêndio. Para os edifícios em curso de reforma, o equipamento de aquecimento foi a principal causa de incêndios com 15 por cento, e para os edifícios em demolição, os incêndios provocados intencionalmente foram de longe a principal causa, com 42 por cento.

O trabalho a quente recebe muita atenção em parte devido a um incêndio ocorrido em Boston em 2014 que foi iniciado por trabalho de solda, matando dois bombeiros. Em resposta a tragédia, a NFPA lançou seu Programa de Treinamento para Segurança do Trabalho a Quente e, a partir do dia 1 de setembro, todos os trabalhadores que realizem trabalho a quente em Boston deverão ser treinados e certificados. Fraser espera que o treinamento sobre a NFPA 241 “arranque” da mesma forma que o treinamento da NFPA sobre o trabalho a quente.

Avisos de Intenção de Apresentar uma Moção, (NITMAMs, da sigla em inglês), para a edição 2018 da NFPA 241 serão publicados em 12 de outubro. Para acompanhar o desenvolvimento da próxima edição da norma, veja nfpa.org/241

 

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