Risco na Rampa

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Ocupações Industriais/Armazenamento

Risco na Rampa

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OS VEÍCULOS MODERNOS APRESENTAM UM RISCO DE INCÊNDIO MAIOR DO QUE NUNCA. PARA LIDAR COM ESSE RISCO, OS ESPECIALISTAS ANALISAM O PROJETO E OS ELEMENTOS DE SEGURANÇA DOS EDIFÍCIOSGARAGEM, COMUNS NAS PAISAGENS URBANAS DO MUNDO INTEIRO

Por Jesse Roman

NFPA.ORG/GARAGES

Leia o relatório preparado depois do incidente do estacionamento de King’s Dock por Merseyside Fire & Rescue.
Veja um breve vídeo e um slide show sobre o incêndio
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COMO MUITOS OUTROS CENTROS INDUSTRIAIS ANTIGOS

os canais ao longo do Rio Mersey em Liverpool, na Inglaterra, sofreram uma transformação drástica nas últimas décadas. Onde antigamente os estivadores passavam atarefados entre as chaminés movimentando a carga entre os navios e os armazéns de tijolo vermelho, hoje a beira do rio se anima com o movimento dos turistas e dos habitantes abastados, atraídos pelo número crescente de restaurantes na moda, locais de entretenimento e hotéis de luxo.

King’sDock, talvez o mais turístico dos bairros gentrificados à beira do rio, estava cheio de visitantes na tarde da virada do ano 2017. Além das atividades usuais antecipando a celebração da noite, milhares de pessoas tinham vindo a King’sDockpara assistir ao popular show internacional de cavalos de Liverpool, realizado na EchoArena, com 11 mil lugares, no coração do bairro. Até às 16h30, quase todas as vagas do estacionamento com múltiplos andares de King’sDock, localizado perto da arena, estavam ocupados por veículos, muitos dos quais caminhonetes grandes e veículos utilitários esportivos, preferidos no mundo das corridas de cavalos.

Sue Wright e seu marido Mark se encontravam nos dois últimos veículos que entraram no estacionamento lotado. Quando o casal saiu do carro e se dirigiu para a saída, nem eles nem as centenas de pessoas presentes podiam saber que nunca voltariam a ver os seus veículos intactos.

De acordo com o relatório compilado depois do incidente pelo Merseyside Fire & Rescue Department, o primeiro sinal de problema apareceu exatamente às 16h29, quando uma câmara de televisão de circuito fechado capturou fumaça saindo de um Land Rover estacionado no terceiro andar. Quando os Wrights passaram ao lado dele, aproximadamente 10 minutos mais tarde, "as chamas saiam do motor e passaram para as rodas, disse Susan Wright a BBC. "Parecia uma bola de fogo na frente do carro e estava produzindo muita fumaça."

Merseyside Fire & Rescue foi alertado da situação às 16h42 e chegou oito minutos mais tarde. Quando as equipes de bombeiros chegaram com as linhas de mangueira até o terceiro andar, aproximadamente 18 de 20 veículos estavam completamente incendiados. Os veículos queimavam a uma temperatura tão alta que as três linhas de mangueiras que o departamento costuma mobilizar nesse tipo de incidente não eram suficientes para apagar o incêndio, explicou Barry Moore, diretor do Merseyside Group numa entrevista ao NFPAJournal em janeiro.

"Se a absorção de calor da água ultrapassar a emissão de calor do fogo, será possível apagar o incêndio - se não, estaremos perseguindo esse incêndio para sempre e essa era a situação naquela noite," ele disse. "Com a carga combustível dos veículos modernos e o tamanho dos veículos que se encontravam na garagem naquela noite, o incêndio só continuava a crescer e crescer e nós não conseguimos travar esse crescimento. A situação ultrapassou a nossa capacidade de extinguir o incêndio."

Os bombeiros de Merseyside rodearam o incêndio e lutaram durante quase uma hora, acrescentando continuamente recursos para o combate, mas eles nunca puderam levar a melhor. As temperaturas superaram os 1100º C na proximidade do fogo, os pneus dos veículos incendiados começaram a explodir. Os tanques de combustível de plástico – que se encontram agora em aproximadamente oitenta por cento dos veículos - se derreteram e quebraram, deixando vazar a gasolina incendiada no chão de concreto, que começou a se desintegrar devido ao calor intenso.

Como muitos edifícios-garagem, o de King’s Dock tinha um sistema de drenagem em cada andar para captar o excesso de água de escoamento e levá-la fora da garagem. Uma fenda de 15 mm de largura corria ao longo do piso da garagem entre as filas de carros estacionados e a água que passava por essa abertura era captada por uma calha de alumínio situada abaixo da abertura e transportada para fora do edifício. Aproximadamente duas horas depois do início do incêndio, a calha se derreteu, deixando cair livremente uma chuva de gasolina incendiada através da fenda sobre os veículos estacionados no andar de baixo. Ao mesmo tempo, a fenda situada no andar de cima funcionava como uma chaminé que aspirava o gás superaquecido e a fumaça até os veículos do andar de cima. Em poucos minutos, dezenas de carros e caminhonetes situados acima e abaixo dos bombeiros estavam em chamas e foi tomada a decisão de retirada do edifício que corria o risco de um colapso estrutural. "Quinze minutos depois de nos termos retirado, houve um crescimento muito importante do incêndio e todo o edifício ficou envolvido," disse Moore.

Enquanto o incêndio ardia com fúria, os edifícios na área circundante foram evacuados e os bombeiros mudaram o enfoque da extinção para a contenção. Finalmente, às 19h 45 do dia 2 de janeiro, quase 40 horas depois da chegada ao local dos bombeiros de Merseyside, o incêndio se tinha extinguido. Até então a garagem era pouco mais que um monte de concreto chamuscado, sepultando os restos retorcidos de quase 1200 carros, caminhonetas e veículos utilitários esportivos.

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039 01’Como e possível?’ O exterior do estacionamento King’s Dock, acima, depois do incêndio que destruiu toda a estrutura. Abaixo, as instalações apresentavam características de projeto e construção que permitiram a propagação do fogo e tornaram impossível a contenção pelos bombeiros locais.

Surpreendentemente, ninguém morreu ou ficou ferido no incêndio.

Quando a noticia do incêndio em King’s Dock foi conhecida, engenheiros de proteção contra incêndio e pesquisadores em todo o mundo ficaram chocados pela magnitude do evento.

"Foi tão dramático que todos começaram imediatamente a perguntar, ‘O que aconteceu aqui? Todos os carros numa garagem aberta de oito andares queimados? Como é possível?’ disse Casey Grant, diretor executivo da Fundação de Pesquisa para a Proteção Contra Incêndio. "Do ponto de vista da engenharia de proteção contra incêndio, foi quase como Grenfell. As pessoas começaram a fazer todo tipo de perguntas críticas."

Grant não era o único que fazia a comparação com o incêndio da Grenfell Tower, um incêndio de um edifício residencial em Londres que matou 72 pessoas em junho de 2017. Apesar de não ter havido mortes em King’s Dock, o incidente "é visto e tratado por nós como algo muito parecido com Grenfell – um precursor do que poderia ter sido um incidente muito mais catastrófico," disse Moore. "Se esse incêndio tivesse iniciado apenas uma hora mais tarde, teríamos tido mais de 600 carros em fila saindo do edifício, porque o evento estaria terminando." "Pensamos que é a nossa responsabilidade compartilhar aquilo que aprendemos desse evento, da forma mais ampla possível."

A revolução do plástico

Uma vez que King’s Dock não teve as consequências fatais de Grenfrell, a atenção da mídia no mundo foi limitada e a indignação correspondente do público foi silenciada. Mas o incidente sacudiu fortemente a comunidade de proteção contra incêndio - pesquisadores, entidades que desenvolvem os códigos, oficiais dos bombeiros e outros veem King’s Dock como um aviso e talvez como um momento determinante para a proteção contra incêndio dos edifícios de estacionamento.

Uma preocupação importante, dizem os especialistas, é se a orientação atual sobre a proteção contra incêndio dos estacionamentos ainda é adequada, considerando a mudança drástica dos veículos nas últimas décadas. Existe também uma preocupação crescente quanto à forma de proteger as tendências mais recentes de projeto e layout das garagens urbanas (ver "racked & stacked" na página 28).

"Muitos de nós que trabalhamos no campo da proteção e supressão de incêndios, inclusive eu, estamos perguntando, ‘Temos toda a informação necessária?" disse Michael Carsillo, presidente do Comitê sobre Garagens e Estruturas de Estacionamento, responsável pela supervisão da NFPA 88A, Norma para as Estruturas de Estacionamento. "Os avanços da tecnologia automotiva são muito reais e a sua evolução é rápida. Existem lacunas na nossa compreensão de como o desenho e a construção dos automóveis influem nas características dos incêndios e do seu crescimento."

Depois do incidente de King’s Dock, Grant disse que teve numerosas conversas com engenheiros preocupados que o procuraram independentemente para discutir a necessidade de realizar novas pesquisas sobre as estruturas de estacionamento e as características dos incêndios dos veículos modernos. Ele concorda em que o projeto é essencial. "Acabamos de submeter a nossa lista de projetos de pesquisa para 2019 e essa questão é a nossa prioridade número um," ele disse. Quando você põe um sistema de sprinklers numa garagem, você quer obviamente ter a certeza que esse sistema controlará um incêndio - você não quer se perguntar e esperar. "Antes de construir 10000 novos estacionamentos em todo o mundo, precisamos estar seguros."

Os detalhes específicos do projeto dependem do patrocínio e dos recursos disponíveis, disse Grant, mas a meta principal será quantificar os riscos de incêndio inerentes aos veículos modernos e determinar os melhores projetos e melhores esquemas de proteção contra incêndio para os estacionamentos para combater esses riscos. As conclusões do projeto terão provavelmente um impacto em pelo menos dois documentos da NFPA, a NFPA 13, Norma para a Instalação de Sistemas de Sprinklers, e na NFPA 88A.

A base da questão é que os materiais utilizados na construção de praticamente todos os veículos mudaram drasticamente ao longo das décadas. Os construtores de carros, submetidos à pressão de cumprir os padrões mínimos estabelecidos pelo governo para a eficiência no uso do combustível e a segurança, trocaram sistematicamente partes metálicas por novos plásticos duráveis para tornar os veículos mais leves e mais seguros, mais resistentes à ferrugem e mais baratos. Os veículos contêm também mais elementos eletrônicos e fiações de plástico do que antes, acrescentando potenciais fontes de ignição.

"A transição começou nos anos 60 no interior dos veículos, quando materiais mais macios e painéis de controle acolchoados suplantaram os painéis metálicos para a proteção em caso de choque", disse Dan Madrzykowski, pesquisador de longa data do Instituto Nacional de Normas e Tecnologia (NIST) que trabalha agora no Firefighter Safety Research Institute do UL. Na década de 1970, os carros começaram a perder seus para-choques metálicos, que foram substituídos por para-choques de uretano. Com a necessidade crescente de melhorar o rendimento do combustível e a resistência à corrosão, a chapa metálica foi substituída por plástico ou fibra de vidro. Hoje, até os componentes dos motores de ferro fundido ou alumínio, como o coletor de admissão, são feitos de plásticos de alta temperatura."

Essas mudanças significam que os veículos modernos podem apresentar um risco de incêndio maior do que os veículos mais velhos, situação comparável com o problema dos incêndios nas casas modernas. Na década de 1950 as casas eram usualmente construídas com elementos de madeira maciça que queimavam lentamente e estavam cheias de materiais como a mobília de madeira dura e as telas naturais.

As casas modernas, pelo contrário, são agora usualmente construídas em materiais de madeira leve que queima mais rapidamente e contêm mobília feita de aglomerado, de espuma de polietileno e plásticos altamente combustíveis. Os testes científicos, junto com as provas circunstanciais dos bombeiros e dos defensores da segurança pública, demonstram que os incêndios residenciais queimam hoje mais rápido e mais forte do que faziam uma geração atrás.

Uma tendência similar parece ter surgido na indústria automotiva. De acordo com o American Chemistry Council, a metade do volume dos veículos modernos é composto por materiais plásticos, mas os materiais plásticos representem apenas 10 por cento do peso médio do veículo. Os especialistas da indústria acreditam que, à medida que surjam melhores tecnologias e padrões mais altos de eficiência em relação ao uso de combustível, a percentagem de plástico nos carros só vai aumentar. Nos Estados Unidos, por exemplo, o padrão da média corporativa de rendimento do combustível (corporate average fuel efficiency - CAFE) exige que as frotas de veículos de passageiros dos fabricantes de carros cumpram com uma média de 54,5 milhas por galão até 2025. Para cumprir essas exigências e requisitos similares europeus, o carro médio vai incorporar quase 350 kg de plásticos até 2020, contra 200 kg em 2014, de acordo com uma análise da IHS Chemical, um grupo de pesquisa da indústria química.

Na ausência de dados agregados definitivos sobre os incêndios em edifícios de estacionamento no mundo, é difícil quantificar como o aumento dos materiais plásticos nos veículos tem mudado a frequência ou a intensidade dos incêndios em estacionamentos, mas muitos especialistas acreditam que as provas circunstanciais são impactantes. Além de King’s Dock, numerosos incêndios recentes em estacionamentos envolvendo dezenas e até centenas de veículos fizeram as manchetes nos últimos anos (ver uma lista parcial desses incidentes acima). Para ver estatísticas sobre os incêndios em locais de armazenamento e estacionamento de veículos nos Estados Unidos entre 2012 e 2016, use a nova ferramenta interativa da NFPA "Fires by Occupancy or Property Type" em nfpa.org/firesbypropertytype.

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Incêndios recentes em estacionamentos + incêndios relacionados

NEWARK, NEW JERSEY

Em janeiro, 17 veículos foram destruídos num incêndio no último andar ao ar livre dum edifício garagem no aeroporto internacional de Newark.

BROOKLYN, NEW YORK

Um incêndio em setembro passado no estacionamento de um centro comercial (acima) destruiu mais de 130 veículos e feriu 21 pessoas incluindo 18 bombeiros, e fechou o centro comercial por dois dias

REINO UNIDO

Em 2015, um incêndio se declarou no porão dum navio que transportava aproximadamente 600 veículos novos e usados atravessando o Canal da Mancha. De acordo com um relatório do US National Transportation Safety Board, um arco elétrico no sistema de frenagem automática de um veículo foi responsável pelo início do incêndio, que resultou na perda de 90 milhões de dólares em carga e a destruição do navio com um valor de 10 milhões de dólares.

PARIS, FRANÇA

Em 2012, um incêndio no estacionamento subterrâneo de cinco andares do Ritz Carlton destruiu pelo menos 50 veículos e causou danos por aproximadamente 5,3 milhões de dólares. –J.R

No que diz respeito às provas concretas, o melhor estudo da evolução dos incêndios de edifícios-garagem pode ser um relatório elaborado em 2015 por quatro pesquisadores franceses. Eles analisaram dados coletados por um levantamento de centenas de incêndios em estacionamentos ocorridos na França entre 1995 e 1997 e compararam esses dados com um levantamento de incêndios em estacionamentos na França entre 2010 e 2014. A conclusão dos autores foi: "os riscos de incêndio nos estacionamentos de carros aumentaram muito em 20 anos com a evolução de atividades e as novas tecnologias usadas nos automóveis".

Os dados sugerem que um incêndio típico de estacionamento hoje terá muito mais probabilidades de envolver múltiplos veículos do que duas décadas atrás, sugerindo que os incêndios são de fato mais severos. Em incêndios em estacionamentos entre 1995 e 1997, 98 por cento atingiram menos de quatro veículos; apenas um por cento dos incêndios envolveu mais de cinco veículos e nenhum dos incêndios analisados envolveu mais de sete veículos. Por outro lado, oito por cento dos incêndiosem estacionamentos entre 2010 e 2014 envolveram mais de cinco veículos e seis por cento envolveram mais de sete veículos.

Os dados revelaram que os incêndios de estacionamentos na atualidade parecem ser muito mais difíceis de apagar. Em 1997, 95 por cento dos incêndios analisados em estacionamentos foram apagados em menos de 60 minutos. Contudo, dos incêndios que ocorreram em estacionamentos na França entre 2010 e 2014, apenas 40 por cento foram apagados em menos de uma hora, 30 por cento levaram mais de duas horas e 10 por cento levaram mais de 4 horas. Por outro lado, menos de um por cento dos incêndios de 1997 levaram mais de duas horas para serem apagados.

‘Modo de estudo’

Embora muitas provas apoiem a ideia que os incêndios de veículos são mais perigosos do que em épocas anteriores, o debate sobre o que fazer em relação a esse problema está apenas começando. Finalmente, precisamos de mais pesquisas para fornecer opções clarasàs organizações que desenvolvem os códigos e as normas.

Uma descoberta importante no incêndio de King’s Dock, disse Moore, é que não havia nada errado com o edifício – duas inspeções anteriores revelaram que tudo era legal e cumpria todos os regulamentos de edificações - "Essa é uma mensagem muito forte - não havia problemas com a construção desse edifício garagem. Estava bem mantido e limpo e apesar disso aconteceu o que aconteceu," ele disse. "Não há motivo para pensar que com o próximo estacionamento não será a mesma coisa. Esse tipo de incêndio poderia acontecer em qualquer cidade do mundo em qualquer momento."

Em todo o mundo, poucos edifícios-garagem fora dos Estados Unidos devem instalar uma proteção por sprinklers de acordo com os códigos de edificações. No Reino Unido, as estruturas de estacionamento devem cumprir o "Approved Document B", um código de edificações elaborado em 1968, que não requer sprinklers porque os seus autores chegaram à conclusão que "não haveria propagação do fogo de um veículo para outro e que se isso acontecer as brigadas metropolitanas chegariam ao local para intervir dentro de três a quatro minutos," disse o relatório de Merseyside. Considerando que essa orientação podia estar desatualizada, o governo publicou em 2010 resultados do projeto de três anos que havia encomendado, "Fire Spread in Car Parks", que revelava, entre outras coisas, que os sprinklers são efetivos para controlar tanto incêndios em desenvolvimento como incêndios plenamente desenvolvidos. Apesar dessa observação, nunca foi acrescentada uma exigência sobre sprinklers no Approved Document B. Nos meses após King’s Dock, funcionários de Merseyside disseram que se tivessem instalado sprinklers no edifício-garagem quando foi construído em 2007, o fogo não se teria propagado da forma como aconteceu. Entretanto, o problema está piorando a cada ano.

"Passaram quase dez anos desde aquele estudo, e a diferença entre um veículo comprado em 2009 e outro comprado em 2019 é considerável, mesmo num espaço de tempo reduzido," disse Moore, aludindo ao aumento da quantidade de plásticos e combustíveis nos veículos modernos. "Aqui no Reino Unido ainda estamos construindo aplicando regulamentos estabelecidos em 1968 e olhando para a nossa região, todos os estacionamentos são exatamente iguais. Os edifícios estão em conformidade com os códigos, mas os veículos mudaram. Poderíamos dizer que os regulamentos de edificações não mudaram." Nos Estados Unidos, a NFPA 88 é a norma mais usada para estruturas de estacionamento. De forma geral, o documento não requer sprinklers em estruturas de estacionamento que são consideradas abertas – significando que tem uma ventilação natural mínima em pelo menos dois lados. Os estacionamentos subterrâneos, ou aqueles que são envolvidos ou cobertos em três ou mais lados, são considerados estacionamentos fechados que requerem proteção por sprinklers.

Sem as plantas, é difícil dizer se o estacionamento de King’s Dock teria sido considerado aberto ou fechado e, nesse caso, sujeito à exigência de sprinklers de acordo com a NFPA 88A, disse Kevin Carr, pessoa de contato da NFPA que trabalha com o documento. Não obstante, ele disse que o incidente de Liverpool "abriu o debate" e gerou perguntas entre os membros do comitê técnico e os funcionários responsáveis pela aplicação dos códigos sobre se os requisitos gerais da NFPA 88 A, incluindo a exigência de sprinklers, são suficientes.

"Neste momento estamos em modo de estudo," ele disse. "O evento de Liverpool fez realmente as pessoas pararem e perguntarem sobre as causas, as questões relacionadas e como podemos conseguir mais dados para fazer os acréscimos corretos e necessários ao código."

Na versão atual da norma, que saiu este ano, o comitê da NFPA 88 A acrescentou informação para definir melhor se um estacionamento é considerado aberto ou não. Foi acrescentada também orientação para estacionamentos que abrigam veículos autônomos, veículos movidos a combustíveis alternativos e estações de carga eletrônica, "reconhecendo que a tecnologia no mundo dos automóveis está mudando e que os estacionamentos serão os recipientes dessa tecnologia," disse Carr.

Nas reuniões em curso sobre a edição 2023 da norma, é provável que seja debatido um requisito sobre sprinklers para os estacionamentos, mas isso requereria muita reflexão e informação adicional, disse Carr.

Wes Baker, engenheiro chefe da FM Global e membro do comitê técnico da NFPA 13, disse que depois do incêndio de Liverpool os requisitos de proteção contra incêndio nos estacionamentos merecem uma nova análise. "Olhando para a quantidade de plástico nos carros modernos, tanto dentro como fora, já não deveria surpreender ninguém quando vemos um incêndio como esse," ele disse acerca do King’s Dock. "Se aquele incêndio tivesse ocorrido 30 anos atrás, teria atingido um único carro, não mais que isso."

A NFPA 13 classifica um estacionamento como uma ocupação de "Risco Ordinário de Grupo I", definido como um espaço "com conteúdo em quantidade moderada e de baixa combustibilidade." As ocupações com esse tipo de classificação requerem densidades de proteção por sprinklers "projetadas para uma situação onde temos um incêndio, mas não é muito grande," disse Baker. "Com a maior quantidade de plástico, eu sugeria certamente que o Comitê 13 considere a categoria de ‘Risco Extraordinário’ para essas instalações em lugar da categoria de ‘Risco Ordinário’. Neste momento estamos provavelmente subestimando o problema."

Desde o incêndio de King’s Dock, Barry Moore e os seus colegas de Merseyside Fire & Rescue concordariam que os incêndios de veículos foram subestimados e negligenciados por demasiado tempo. Eles estão trabalhando para transmitir a mensagem em conferências de proteção contra incêndio em toda a Europa e recentemente nos Estados Unidos. Moore chama o evento de King’s Dock "a tormenta perfeita", mas também "um excelente caso de estudo."

Nessas apresentações, ele disse que quer deixar à audiência duas mensagens claras: a primeira é que os riscos e perigos dos incêndios em estacionamentos mudaram, então devem chegar rapidamente com muitos recursos. "Não podem chegar com poucos recursos se enfrentam aquilo que enfrentamos," ele disse. A outra mensagem – que Merseyside levou também ao governo britânico que está procedendo à revisão do Approved Document B após Grenfell - é que deveriam ser requeridos sprinklers em todas as estruturas de estacionamento.

"Quando ocorrer essa tormenta perfeita, os sprinklers não vão extinguir um incêndio, mas poderiam contê-lo o tempo suficiente para permitir que os bombeiros apaguem o incêndio na sua fase inicial, em lugar de deixar que se propague de forma descontrolada," ele disse. "Quando o incêndio começa a se propagar, o calor chega às ventilações e o combustível começa a correr, você vai perder o controle muito rapidamente. Se isso coincidir com um momento de muito movimento e houver pessoas tentando sair do estacionamento, o que acontecerá então?"

JESSE ROMAN é editor del NFPA Journal.

Empilhados e apinhados

A POPULARIDADE CRESCENTE DAS INSTALAÇÕES DE TIPO RACK PARA A ARMAZENAGEM DE CARROS CAUSA PREOCUPAÇÕES EMERGENTES EM RELAÇÃO AOS INCÊNDIOS ENTRE ESPECIALISTAS DA SEGURANÇA

AS ESTRUTURAS DE ESTACIONAMENTO estão evoluindo rapidamente de forma a poder atulhar muito mais veículos em muito menos espaço de forma a minimizar os custos e maximizar a eficiência.

Um estacionamento que vai abrir este ano em Houston, por exemplo, apresenta 244 vagas de estacionamento apertados num edifício ocupando uma área de apenas 700 pés quadrados – de acordo com um cálculo simples, temos uma vaga de estacionamento por 2,8 pés quadrados. Em contrapartida, antes de ser destruído pelo fogo o ano passado, o estacionamento de oito andares de King’s Dock em Liverpool – um estacionamento tradicional de concreto construído em 2007 – podia abrigar 1600 veículos ocupando uma área de 53000 pés quadrados, ou uma vaga de estacionamento por 33 pés quadrados.

Parking Garages sidebarHed 0319O FUTURO DO ESTACIONAMENTO Como muitos estacionamentos urbanos no mundo, o Autostadt em Wolfsburg, na Alemanha, utiliza sistemas automatizados para posicionar e armazenar com precisão os veículos em edifícios altos.

O estacionamento de Houston, projetado por uma empresa chamada U-tron, alcança esse nível notável de eficiência utilizando robôs para empilhar veículos em estantes mecânicas com uma altura de 10 andares. Os robôs da U-tron podem estacionar veículos com uma separação horizontal de quatro polegadas e uma separação vertical de seis polegadas, de acordo com um recente artigo em axios.com. Atualmente, a empresa tem oito estacionamentos automatizados em operação, a maioria em edifícios residenciais de luxo em Nova York e Nova Jersey, com 25 edifícios em construção somente nos Estados Unidos.

U-tron não é a única empresa que constrói esses estacionamentos da nova era - em todos os Estados Unidos e no mundo, configurações de estacionamentos em racks estão se espalhando rapidamente à medida que a mecanização e a automatização se tornam mais avançadas e mais acessíveis e os promotores imobiliários nas cidades procuram soluções de estacionamento em áreas onde a terra é tão valiosa como o ouro.

Os benefícios em termos de espaço desses novos estacionamentos são claros, mas muitos pesquisadores e pessoas que elaboram os códigos estão preocupados pelas consequênciasna proteção contra incêndio de arranjos de armazenamento de veículos tão apertados. Atualmente existem poucas orientações na NFPA 13, Norma para a Instalação de Sistemas de Sprinklers, ou a NFPA 88 A, Norma para Estruturas de Estacionamento, que tratem essas novas configurações de estacionamento. O motivo disso é que houve poucas pesquisas para ver como esses incêndios podem queimar e se propagar em estacionamentos tão densamente lotados e que tipo de projeto e densidade de sprinklers seriam suficientes para apagar os incêndios.

O Comitê Técnico da NFPA 13 recebeu perguntas sobre esse tipo de instalações e é consciente do silêncio da norma sobre a questão, disse Wes Baker, membro do comitê e pesquisador na FMGlobal.Ele e outros membros do comitê da NFPA 13 pediram à Fundação de Pesquisa para a Proteção Contra Incêndio que lance um projeto para responder a algumas das perguntas levantadas para que possam oferecer orientações confiáveis aos projetistas dos sistemas. Ainda é cedo para dizer se o projeto previsto este ano pela Fundação sobre os incêndios em estacionamentos de veículos vai incluir pesquisa sobre esses novos tipos de configurações de estacionamento.

"Vimos carros armazenados em estantes tão altas como o edifício, algo totalmente diferente daquilo que as orientações da NFPA sobre estacionamentos tradicionais tomavam como base," disse Baker. "O calor gosta de viajar verticalmente, mas em lugar de subir e encontrar concreto, os carros colocados acima poderiam ser expostos as chamas. Em lugar dum incêndio bidimensional, temos um incêndio tridimensional. Isso para mim é um arranjo típico de um armazém e você deveria protegê--lo como um armazém que contém carros."

Baker acredita que instalar apenas sprinklers no teto não seria efetivo neste tipo de arranjos em estantes porque os carros acima impediriam que a água chegasse até aos carros abaixo. Ele imagina que seria provavelmente necessário um arranjo de sprinklers em estantes, onde os sprinklers são localizados em cada nível de armazenamento dos carros. "Mas o problema com isso é que esses carros estão constantemente entrando e saindo, então você deve ter cuidado que todas essas partes móveis não terminem arrancando um sprinkler," ele disse. "Devemos garantir uma solução prática e funcional."

Além dessas questões logísticas, dezenas de outras variáveis tornariam difícil a formulação de orientações abrangentes sobre sprinklers nesses novos estacionamentos, disse Steven Wolin, membro do comitê técnico da NFPA 13 e vice-presidente da Reliable Automatic Sprinkler Co. "Tem tantas configurações de armazenagem de veículos que poderiam existir em cada estacionamento em particular, e isso é um dos maiores desafios," ele disse. Variáveis como a distância entre veículos, quantos veículos estão empilhados um sobre o outro e quão ventilado ou fechado é o espaço podem fazer uma grande diferença na forma de queimar do incêndio e no tipo de proteção por sprinklers necessária. Independentemente disso, a construção dessas instalações continua em todo o mundo. "De momento, ainda estamos num daqueles cenários onde os edifícios estão sendo construídos e alguém deve pensar como colocar neles um sistema de proteção," disse Wolin. "É preciso exagerar sendo demasiado conservadores no projeto, sabendo que por agora não existem muitas orientações." – J.R.

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