Pequena escala, alto teor alcoólico

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Ocupações Industriais/Armazenamento

Pequena escala, alto teor alcoólico

Por Angelo Verzoni

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Enquanto as destilarias artesanais proliferam no país, cresce a preocupação quanto à escassez de diretrizes sobre segurança oferecidas aos destiladores artesanais e às autoridades competentes

Em 2003, um raio que caiu num depósito da Jim Beam, em Bardstown, Kentucky, incendiou a estrutura de madeira e mandou 800 000 galões de uísque em chamas para uma bacia de retenção próxima. Alimentadas pelos fortes ventos da trovoada, as chamas do álcool queimando dispararam para cima e formaram um remoinho de fogo acima da bacia que foi capturado em vídeos e logo compartilhado amplamente na internet, onde foi alcunhado “fogonado”, ou tornado de fogo, nas manchetes sensacionalistas. Ninguém ficou ferido no incidente, mas o Weather Channel falou da morte de “muitos peixes”. 

Incêndio similares ocorreram em outras destilarias no Kentucky , onde operam muitos dos maiores fabricantes de uísque. Em 1996, um incêndio se declarou na destilaria Heaven Hill, localizada também em Bardstown, e o uísque em chamas criou aquilo que um empregado descreveu para o Kentucky Standard como “um rio de fogo”. No ano 2000, um incêndio numa destilaria da Wild Turkey, em Lawrenceburg, destruiu aproximadamente um milhão de galões de uísque. 

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Incidentes como esses ilustram a inflamabilidade das bebidas destiladas com uma graduação alcoólica de 40% em volume (Alchool By Volume, ou ABV) ou mais, e levaram as seguradoras de propriedades industriais e comerciais, como a FM Global, a realizar pesquisas sobre as formas de garantir a segurança contra incêndio do álcool armazenado.

A FM Global, cujos clientes incluem fabricantes de uísque, começou a pesquisar sobre a proteção contra incêndio e as configurações de armazenamento do álcool por volta de cinco anos atrás. Muitas das pesquisas precedentes datavam dos anos 70. “Analisamos os critérios antigos e achamos que havia uma margem significativa para aprimorar a proteção dos barris armazenados”, diz John LeBlanc, engenheiro principal de normas da FM Global, que apresentou os resultados de algumas das pesquisas realizadas pela companhia na Conference & Expo da NFPA em 2017. “Isso foi quando criamos os novos programas de pesquisa relativa à armazenagem em paletes ou prateleiras de barris de madeira cheios de líquido com um teor de 70% de álcool por volume. Agora, estamos no processo de incorporar todos os testes à revisão de nossas normas.”

A pesquisa da FM Global mostra que, enquanto os sprinklers anti-incêndio são geralmente efetivos para suprimir incêndios de álcool armazenado em prateleiras em barris deitados, nas configurações de paletes com barris eretos é essencial ter espaços livres amplos (flue spaces). A combinação de barris eretos, que retêm a água descarregada pelos sprinklers de teto, e a falta de espaços livres adequados entre pilhas sobre paletes pode impedir que a água chegue ao incêndio.

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Não é apenas o armazenamento do álcool que apresenta um risco. O processo de destilação em si requer calor e produz vapor de etanol – elementos que, combinados, podem produzir incêndios ou explosões.

Essas questões se tornaram particularmente urgentes nos últimos anos, quando a destilação de pequena escala ganhou uma enorme popularidade em todo o país. Como já aconteceu com o movimento de cervejarias artesanais, pensa-se que o número de destilarias artesanais vai aumentar. Existem mais de mil chamadas destilarias artesanais – onde o álcool é fabricado usualmente em pequenos espaços por pequenos grupos de trabalhadores, muitas vezes apenas um punhado de pessoas – distribuídas em todo o país, e os especialistas pensam que a produção e o armazenamento de álcool em algumas dessas instalações poderia ocorrer com pouca atenção à segurança contra incêndio.

“Essas pequenas destilarias artesanais cabem mais ou menos em qualquer lugar,” diz LeBlanc, que é também presidente do Comitê Técnico da NFPA 30, Código de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis. “Estão introduzindo uma grande quantidade de líquido combustível em áreas onde esse tipo de perigo não existia anteriormente. Poderia ser num local que envolve a presença de público, como um centro comercial a céu aberto, mas agora temos também uma quantidade significativa de líquidos que podem queimar e vazar porque são guardados em recipientes combustíveis. Isso pressiona os bombeiros a pensarem como irão regulamentá-los.”

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O problema artesanal

Em janeiro, o Corpo de Bombeiros de Pittsburgh foi chamado à Wigle Whiskey, uma destilaria artesanal aberta em 2012, no Strip District da cidade. Quando chegaram ao local, os bombeiros descobriram que uma caldeira da destilaria, situada num edifício de tijolos de uso misto a aproximadamente vinte metros dum complexo de apartamentos, tinha sofrido uma explosão. Não se declarou um incêndio, mas um empregado sofreu ferimentos leves.

Apesar de as perdas causadas pelo incidente terem sido mínimas, o ocorrido ilustra o porquê da preocupação quanto a esse tipo de instalações: você nunca sabe onde podem surgir problemas. Apesar do caráter massivo do incêndio da destilaria Heaven Hill em 1996, pulando dum armazém a outro e dizimando aquilo que representava na época dois por cento do estoque mundial de uísque, o incêndio ficou confinado ao grande terreno das instalações numa zona agrícola do Kentucky. Mas esse luxo de isolamento não existe na maioria das pequenas destilarias localizadas em edifícios adaptados em quarteirões urbanos densamente ocupados. O que teria acontecido, por exemplo, se um incêndio se tivesse declarado depois da explosão da caldeira do Wigle Whiskey e propagado para os apartamentos ou lojas situados nas proximidades?

Os riscos de incêndios que acarretam a fabricação e o armazenamento de produtos destilados pode ser significativo. De acordo com dados duma versão de 2005 dum manual de proteção contra incêndio, publicado pelo Distilled Spirits Council of the United States (DISCUS), o etanol puro – o álcool presente em bebidas destiladas, cerveja e vinho – libera mais da metade da energia liberada pela queima de gasolina de 100 octanas; a gasolina libera 20.750 BTU por libra, enquanto o etanol libera 12800 BTU por libra. O número é muito mais baixo para soluções etanol-água a 40% ABV – o nível de álcool presente em bebidas destiladas com teor de 80-proof – por volta de 4.300 BTU por libra. O ponto de fulgor, ou temperatura na qual os líquidos liberam vapor em quantidade suficiente para que ocorra a ignição no ar, ilustraram também os perigos da destilação. O ponto de fulgor do etanol puro é de 12,7ºC – muito mais baixo que a temperatura ambiente – enquanto o ponto de fulgor duma solução a 40% ABV é de 27,9ºC.

Quando ocorrem incêndios que envolvem bebidas destiladas, suas consequências podem ser muito mais graves que as perdas monetárias. Um dos incidentes que causou mais mortes de bombeiros na história ocorreu no incêndio dum armazém de uísque em Glasgow, Escócia, em 1960. Dezenove bombeiros morreram no incêndio, conhecido como o incêndio do armazém de uísque alfandegado de Cheapside Street. “Com o aumento da temperatura do incêndio, os barris de uísque armazenados tinham começado a quebrar. Isso não só formou rios de álcool em chamas correndo pela rua, ma causou também uma acumulação perigosa de vapores dentro do edifício,” de acordo com The Herald, um jornal escocês.

Além da localização, temos também o problema de quem os proprietários deixam entrar na destilaria. Uma característica comum a quase todas as destilarias é uma sala de prova onde os visitantes com idade legal para tomar álcool podem provar amostras gratuitas ou baratas dos produtos da destilaria. Algumas também oferecem visitas guiadas, onde os participantes podem ver de perto o equipamento usado no processo de destilação. Esses diferentes usos criam uma mistura de tipos e classificações da ocupação, como um local de reunião de público combinado com uma ocupação industrial que contém produtos perigosos. Elliot Gittleman, engenheiro de proteção contra incêndio, consultor tanto dos setores público como do privado, na área de são Francisco, conta a história duma destilaria em Nevada que queria que os visitantes passassem por uma plataforma situada acima da área de processamento do uísque. “Eu disse ‘A não ser que você compre muito vidro caro resistente às chamas, nunca terá a aprovação do departamento de edificações,’” disse ele.

Mas isso não é nem de longe o pior cenário que Gittleman encontrou em relação às destilarias artesanais. Ele lembra uma situação onde encontrou um contêiner intermediário de plástico, de 250 galões, cheio de líquido de alto teor ABV armazenado num edifício desprovido de sprinklers. “Temos um problema,” diz Gittleman, membro da NFPA de longa data. “Basicamente, temos grandes quantidades de líquidos inflamáveis em edifícios que não estão protegidos por sprinklers. Algumas jurisdições locais não sabem o que fazer com eles.”

Os argumentos a favor duma maior regulamentação

A questão que levanta Gittleman toca o centro do problema – mesmo que as autoridades competentes sejam capazes de reconhecer o risco que apresentam as destilarias em suas áreas, elas não têm muito material de referência para fazer aplicar as práticas de segurança contra incêndio. Enquanto a indústria da destilação foi autorregulada por décadas, a explosão das destilarias artesanais levanta a questão de saber se seria possível ou necessário fornecer orientação adicional por organizações como a NFPA.

Os códigos e normas da NFPA e outros códigos como o International Fire Code (IFC) não incluem informação específica sobre a destilação – um resultado da história de autorregulação e ação de lobby. Embora o Capítulo 17 da NFPA 30, Instalações de Processamento, se aplique eventualmente ao processo de destilação, não se mencionam as destilarias ou qualquer assunto específico aplicável a esses espaços que poderiam facilitar o trabalho de fiscalização das autoridades competentes. O código exclui as bebidas destiladas de seus capítulos sobre armazenamento. “As autoridades competentes precisam de algo mais no código que as ajude a saber o que procurar e quais riscos se apresentam,” diz Gittleman.

O manual de proteção contra incêndio do DISCUS, produto da contribuição de grandes destilarias como a Jim Bean, fornece muita informação num formato relativamente fácil de assimilar. Com mais de 150 páginas que incluem tabelas e diagramas, os detalhes relevantes não faltam. O manual faz referência a numerosos códigos e normas da NFPA, como a NFPA 13, Instalação de Sistemas de Sprinklers, e o NFPA 72®, Código Nacional de Alarme de Incêndio e Sinalização, e enfatiza estritas medidas de proteção contra incêndio. “Os incêndios mais graves em áreas de armazenamento e processamento de grãos ocorrem em edifícios de construção combustível, como velhos elevadores de madeira ou revestidos de metal, ou em edifícios não combustíveis onde o conteúdo, com a exceção dos grãos, é combustível e onde a proteção por sprinklers é ausente ou danificada por explosões,” diz uma das seções.

Mas o manual não é algo que as jurisdições possam adotar e fazer aplicar, já que sua compra e utilização ficam à discrição dos destiladores. Apesar de Gittleman ter indicado o documento a seus clientes no passado, ele está agora tão preocupado com as questões de responsabilidade relacionadas à segurança contra incêndio nas destilarias que já não as aceita como clientes. “Começava a ser muito arriscado,” ele diz. “Qualquer recomendação minha teria como base o instinto ou o documento [DISCUS]. Se as coisas que se encontram ali não funcionarem, alguém poderia acabar dizendo: ‘ Mas você disse de fazer isso assim’ e eu não tenho um código para respaldar isso.”

A experiência de Kara Gerczysnki é parecida. Gerczysnki, inspetora de incêndio do Colorado, tomou conhecimento dos problemas das destilarias cerca de dois anos atrás e entendeu que os documentos, como a NFPA 30 e os códigos criados pelo International Code Council (ICC), que foram adotados pelo estado do Colorado, fornecem pouca orientação à indústria. “Não temos um caminho claro para aplicar a regulamentação a esse tipo de destilarias artesanais,” ele diz. “Não fomos capazes de aplicar nenhuma provisão dos capítulos desses códigos sobre produtos perigosos ou líquidos inflamáveis.”

A falta de orientação nos códigos e normas utilizados normalmente levou a uma falta de conhecimento entre os destiladores artesanais e os bombeiros sobre alguns dos perigos inerentes a esse tipo de instalações, de acordo com Gerczysnki.

Um dos aspetos mais perigosos da destilação, diz Gerczysnki, são os vapores de álcool que podem emanar tanto do equipamento de destilação como dos barris e barricas de produtos destilados armazenados. Conhecida informalmente como a “parte dos anjos”, a evaporação representa uma perda de até um por cento do conteúdo da barrica a cada ano, de acordo com fontes da indústria. Há tanto vapor de álcool no ar que em algumas destilarias implementaram métodos para coletá-lo e reutilizá-lo. O manual do DISCUS requer uma ventilação mecânica ou manual para manter a concentração de vapores no ar abaixo dos 25% do limite mínimo de inflamabilidade, ou da concentração mínima na qual os vapores podem incendiar o ar, que varia com base na temperatura e na concentração de álcool. “Isso deveria ser confirmado pela coleta de amostras da concentração real de vapor em condições normais de operação”, diz o documento.

Gerczysnki diz que trabalhou com destiladores que resistiram à instalação de sistemas de ventilação, alegando que podem afetar o processo de envelhecimento. Mas ela praticamente os convenceu alegando que o impacto negativo dum incêndio catastrófico seria muito mais forte que o de um sistema de ventilação em bom estado de funcionamento.

Pelo menos um dos códigos amplamente usados reconhecerá em breve a destilação. O ICC espera incorporar informação sobre a destilação num novo capítulo do IFC até 2021. “Aquilo que tentamos fazer é dar às destilarias um lugar no código para regulamentá-las, mas sem excessos”, diz Kevin Reinerston, inspetor de incêndio adjunto do Condado de Riverside, Califórnia, próximo de Los Angeles, presidente do grupo de trabalho do IFC que escreve o capítulo. Gerczysnki faz também parte do grupo.

Na NFPA, a definição de como e onde incluir informação específica sobre as destilarias nos códigos e normas como o NFPA 1, Código de Prevenção de Incêndio, ou a NFPA 30 será parte do novo processo de planejamento da próxima edição. Apesar disso, a destilação artesanal é uma tendência que já entrou no radar dos membros do pessoal.

“Estão surgindo por toda a parte,” diz Lisa Hartman, que dirige a Divisão de Engenharia Química e Industrial da NFPA, “A maior parte são ambientes pequenos, de tipo butique, e não sei bem como organizam a proteção contra incêndio e o armazenamento. Isso constitui sem dúvida uma preocupação. Muitas coisas poderiam ser perigosas do ponto de vista do processo e da segurança contra incêndio.” Mesmo se os códigos e normas da NFPA não forem emendados, diz Hartman, a organização pode desenvolver recursos como fichas técnicas que dirijam os destiladores para a informação disponível sobre segurança contra incêndio. 

Pequeno, mas seguro?

Apesar das preocupações quanto à segurança contra incêndio da destilação artesanal, o processo parece estar sendo executado de forma segura, ou pelo menos sem incidentes, em muitos locais, a julgar pela baixa ocorrência de incêndios ou outros eventos. Durante o ano passado, houve poucas notícias de incêndios ou explosões em destilarias nos Estados Unidos. 

A Boston Harbor Distillery, por exemplo, nunca sofreu um incêndio ou uma explosão. Localizada num moinho velho de 160 anos com uma estrutura de madeira maciça perto do centro de Boston, a destilaria esteve produzindo uísque de centeio e outras bebidas destiladas durante os últimos três anos. Numa tarde de janeiro me encontro com Marco Forziati, um dos destiladores, com quem visito as instalações. O edifício cavernoso é cumprido e estreito e corre ao longo duma propriedade situada a beira mar. O espaço de destilação contém filas de tanques metálicos, canos e tubulações e outro equipamento e é separado por vidro e espessas vigas de madeiras duma sala de prova e espaço para eventos.

A destilaria parece realmente levar a sério a segurança. “Estes são os sprinklers, e essa ali acima é a iluminação a prova de explosão,” diz Forziati, recitando algumas das características da segurança contra incêndio da destilaria. “Os ventiladores na parte traseira ajudam a dissipar qualquer vapor de álcool que poderia estar presente no ar... temos botões de desligamento de emergência para a caldeira em todo o edifício... a destilaria tem válvulas de detecção de pressão.” Num quarto separado, mais de 100 barricas de uísque e rum estão envelhecendo, empilhadas numa configuração de prateleiras, deitadas e em altura dupla, protegidas por sprinklers anti-incêndio. Quando se organizam reuniões no espaço para eventos, diz Forziati, não se permitem velas e os fornecedores do serviço de bufê não podem usar chamas abertas para aquecer a comida. Quando a destilaria estava em construção, foram utilizados códigos e normas como a NFPA 13 assim como o manual de proteção contra incêndio do DISCUS.

Apesar de todas essas medidas, Forziati atribui à experiência o registro livre de incidentes da Boston Harbor Distillery, citando o trabalho de mais de uma década no negócio da fundadora da destilaria, Rhonda Kalmann. “Eu diria que a maior parte dos incidentes ocorre provavelmente por causa dum erro do operador,” diz Forziati. “Isto pode ser realmente perigoso se você não souber o que está fazendo.”

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