O beijo da Morte
      Perdeu o acesso?  

 

Lugares de Reunião Pública, Discotecas & Egreso

O beijo da Morte

Por Jaime A. Mocada, P.E., SFPE

A tragédia da Boate Kiss, o incêndio mais mortífero numa casa noturna da América Latina, mostra mais uma vez como as deficiências de regulamentação contribuem para a existência dessas armadilhas mortais em todo o mundo.

BoateKiss 498

A tragédia da Boate Kiss, o incêndio mais mortífero numa casa noturna da América Latina, mostra mais uma vez como as deficiências de regulamentação contribuem para a existência dessas armadilhas mortais em todo o mundo.

Às 03h15minh da madrugada, numa casa noturna abarrotada de jovens, o vocalista duma banda de música acende um fogo de artifício, iniciando um incêndio sem precedentes. O resultado: mais uma tragédia latino-americana, onde 242 pessoas perderam a vida e outras 123 ficaram feridas (de acordo com o relatório policial e múltiplas fontes, 235 pessoas morrem no incêndio e outras seis no hospital nos dias seguintes; dos 123 feridos, inicialmente 75 estavam em estado crítico).

Foi o pior incêndio dos últimos 50 anos no Brasil e o terceiro mais fatal numa casa noturna a nível mundial. Infelizmente, como se indica no artigo da edição de março 2013 do NFPA Journal Latinoamericano “Crônica duma morte anunciada: Incêndios em discotecas”, este incêndio é uma repetição de outras tragédias recentes ocorridas na região. A documentação sobre este incêndio baseia-se em minha visita ao local dos fatos, entrevistas com os investigadores e bombeiros que responderam ao incêndio, minha participação durante a filmagem do programa especial do Discovery Channel “Tragédia em Santa Maria”, o relatório policial do incidente e a análise das centenas de fotos e vídeos fornecidos pela Defesa Civil e pelos Bombeiros do Rio Grande do Sul.

O incêndio
Na cidade universitária de Santa Maria, por volta das 23h de sábado, 26 de janeiro de 2013, uma casa noturna, ou boate, no Brasil, chamada Kiss, localizada no centro histórico dessa cidade, abre suas portas ao público. Santa Maria, uma cidade de 260,000 habitantes, se encontra a 290 km a oeste de Porto Alegre, no sul do Brasil, na região “gaúcha” do país. Naquela noite havia-se organizado uma festa chamada “Agromerados”, um jogo de palavras com aglomerados, com o apoio da Faculdade de Agronomia e outras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A UFSM é a maior universidade do Estado do Rio Grande do Sul, com aproximadamente 25,000 estudantes. Um dos eventos musicais contratados para a festa era a banda Gurizada Fandangueira, um grupo de música regional brasileira.

Por volta das 2 horas da madrugada do domingo, 27 de janeiro, a boate estava totalmente cheia. Vários sobreviventes asseguram que “se podia andar”, mas era preciso pedir licença para poder avançar. Estima-se que, no momento da tragédia, de acordo com o relatório final da 1ª Delegacia da Polícia de Santa Maria, publicado em 22 de março de 2013, se encontravam entre 1,000 e 1,500 pessoas na boate. O programa especial de TV chamado “Tragédia em Santa Maria”, transmitido pelo Discovery Channel em 27 de abril de 2013, estabelece que estariam 1,061 pessoas na boate, enquanto que a capacidade máxima permitida pelos bombeiros era de 691 pessoas. Como era época de férias na USFM, não havia muitas discotecas abertas no fim de semana, mas a Boate Kiss abriu naquela noite, já que era uma das casas noturnas “na moda” entre os estudantes de Santa Maria.

BoateKissEsp 01 Fotografía: cortesía de Jaime A. Moncada

Às 3 horas da madrugada, Gurizada Fandangueira inicia seu ato musical. Quinze minutos mais tarde dispara-se, por controle remoto, um fogo de artifício que o vocalista levava na mão esquerda, protegida por uma luva. O artefato, de uns 7 cm de altura, chamado comercialmente Sputnik, é projetado para ser usado em locais externos. O cantor levanta o braço e nesse momento a bola de fogo proveniente do artefato pirotécnico atinge a espuma de poliuretano expandido que tinha sido instalada no teto do palco para atenuar o som e a incendeia rapidamente.

A banda para de tocar e, no meio da confusão, um empregado da segurança, ao ver o incêndio, tenta apagá-lo com um extintor. Mas o extintor não funciona e o público zomba. Nesse momento, o segurança descreve um pequeno incêndio de mais ou menos um metro de cumprimento. As pessoas que estão em frente ao palco tentam ajudar atirando água no fogo. Quando o segurança percebe que não se pode apagar, o fogo já envolve quase todo o cenário; utilizando o microfone da banda, ele pede aos ocupantes da pista de dança que evacuem. Entretanto, esse aviso só foi ouvido pelas pessoas que escutavam o concerto na pista de dança, mas não pelas centenas de frequentadores que estavam em outros locais da boate.

As pessoas que presenciaram o incêndio na pista de dança, assim como os integrantes da banda, dirigem-se imediatamente à porta principal. Mas ali são retidos, momentaneamente, por dois seguranças. Ante os gritos e as queixas das pessoas, a segurança do local libera as saídas. Até então já se havia formado um engarrafamento na única porta de evacuação. Infelizmente, muitos jovens que estavam em outros locais da boate ainda não tinham percebido que havia um incêndio. Os sobreviventes mencionam que, depois de dois a três minutos, a boate estava cheia de fumaça. Nos primeiros minutos perde-se a energia elétrica e tudo fica às escuras. A boate não tinha placas luminosas nem luzes de emergência para sinalização.

Ao formar-se o engarrafamento na saída principal, devido ao número de pessoas que tentavam sair simultaneamente, muita gente decide entrar nos banheiros, quase adjacentes à saída principal, pensando que talvez fosse possível sair também por esse lado. Os sobreviventes mencionaram que dos banheiros vinha uma luz verde, que possivelmente alguém tenha confundido com um sinal de evacuação. Alguém pode ter dito “por aqui tem uma saída” e no meio da confusão muitos podem tê-lo seguido. Os banheiros são um beco sem saída onde, depois de entrar, é muito difícil sair, devido ao grupo de pessoas que vem atrás, tentando entrar também. A principal surpresa para os bombeiros que responderam a esta tragédia foi, ao entrar nos banheiros, a descoberta de mais de 100 mortos.

Imediatamente após a recepção das chamadas pela Central de Bombeiros de Santa Maria, às 3h17min despacha-se uma unidade de extinção de incêndio e outra de resgate, com 10 bombeiros no total, que saem da Estação Regional de Bombeiros Nº4 dessa cidade, a 2 km da boate. Dependendo da fonte, de cinco a sete minutos mais tarde os bombeiros já estão diante da boate. Quando os bombeiros entram no local, uns buscam o foco do incêndio e descobrem que já havia se apagado; outros buscam sobreviventes, mas já é muito tarde. Não por causa do tempo de resposta dos bombeiros, mas devido à velocidade de desenvolvimento desse tipo de incêndio. O som incessante das chamadas nos celulares das vítimas chama também a atenção dos bombeiros. Encontram o edifício cheio de fumaça, uma fumaça densa e preta. Por volta das quatro horas da madrugada começam os trabalhos de resgate.

BoateKissEsp 02 Fotografias: AP/Wide World; Cortesía de Defensa Civil Rio Grane do Sul


Como era o edifício
A Boate Kiss era um prédio térreo, construído num terreno rodeado por edifícios em três lados, com fachada sobre a Rua Andradas, uma rua de duas pistas. No centro da fachada se encontravam, lado a lado, dois conjuntos de duas portas com uma largura total de 360 cm. Essas portas eram as únicas vias de evacuação do local e, do ponto de vista normativo e prático, correspondiam a uma única saída de evacuação. As portas abriam para fora e tinham barras antipânico. De acordo com as normas do estado do Rio Grande do Sul, essas portas limitavam a capacidade do local a 691 pessoas.

Embora as duas portas duplas oferecessem a única saída para o exterior, uma estava cercada, na calçada em frente à discoteca, por guarda corpos metálicos cuja finalidade era permitir que clientes da discoteca saíssem temporariamente para fumar, mas sem poder sair livremente. Essa área cercada é chamada “fumódromo” no Brasil.

É também importante descrever como funcionam as casas noturnas no Brasil. Quando os clientes entram recebem um papel onde, ao longo da noite e à medida que consomem bebidas ou comida, se anotam os consumos. Na saída, cada cliente deve apresentar o papel, soma-se o consumo e paga-se. Então o cliente pode sair livremente. Esse processo de pagamento é contraproducente numa emergência e a situação não mudará até que o Brasil altere o procedimento por meio de legislação, estabelecendo o pagamento no momento do consumo ou um sistema pré-pago com a compra de fichas que se trocam por bebidas ou comida. Nos locais muito frequentados, a saída deve permanecer sempre livre.

O projeto do edifício limitava-se a um retângulo de 26.45 m de profundidade e 23.18 m de largura, com uma área construída de 613 m². Em março de 2010, depois de uma extensa reforma, a Boate Kiss foi inaugurada. De acordo com o projeto de construção aprovado pela municipalidade, a estrutura tinha paredes exteriores de tijolo; o teto era metálico e de duas águas; o forro era de gesso acartonado; as paredes interiores eram de alvenaria rebocada cobertas com madeira e o piso era cerâmico.

BoateKissEsp 03 Ilustração: NFPA Journal Latinoamericano/IFSC


A boate só estava protegida por extintores. Não havia sprinklers, sistemas de detecção e alarme, sinais luminosos, iluminação de emergência ou mangueiras de incêndio.

De acordo com as perícias policiais, a espuma de poliuretano expandido foi instalada em finais de 2011 para resolver problemas de reverberação do som (eco) dentro da boate. Esta espuma foi colocada no forro do palco e nas paredes das caixas. De acordo com as investigações da polícia, a espuma de poliuretano não tinha sido tratada com retardante de chama.

O poliuretano é um revestimento altamente combustível que, ao entrar em pirólise e por ter nitrogênio, emana ácido cianídrico (HCN), chamado também cianeto de hidrogênio, cianato ou ácido prússico, altamente tóxico. Seu cheiro não é forte, é parecido com o cheiro de amêndoas amargas e é um tóxico de ação muito rápida. O ácido cianídrico é 25 vezes mais tóxico do que o monóxido de carbono (pode-se obter mais informação nas paginas 6-16 da quinta edição em espanhol do Manual de Proteção Contra Incêndios da NFPA), o produto de combustão mais comum nos incêndios. O ácido cianídrico é um gás narcótico e asfixiante, que inibe a respiração a nível celular e produz a morte por parada respiratória. É muito letal, uma exposição de 10 minutos a 181 partes por um milhão é mortal. Os estudos forenses concluíram que o ácido cianídrico foi a causa principal de morte das vítimas do incêndio.

BoateKissEsp 04 Fotografias: Cortesía de Defensa Civil Rio Grane do Sul



Diferenças com o incêndio na discoteca The Station.

O incêndio da Boate Kiss tem muitas semelhanças não só com o incêndio da Discoteca Cromañon, ocorrido em Buenos Aires em 30 de dezembro de 2004, onde 194 pessoas perderam a vida, como também com o incêndio do clube The Station em Rhode Island, Estados Unidos, onde morreram 100 pessoas em 2003. O incêndio do The Station ocorreu num edifício que era aproximadamente 30% menor que a Boate Kiss. Esse incêndio é importante não só pela semelhança com o incêndio de Santa Maria, mas também por ter sido amplamente documentado e estudado, o que nos ajuda a entender o ocorrido na Boate Kiss.

No incêndio do The Station as condições eram muito similares às encontradas na Boate Kiss, incluindo poliuretano expandido no palco onde uma banda de rock estava usando artefatos pirotécnicos (leia o estudo sobre o incêndio publicado pela NFPA em nfpajla.org/discotecas). Aquele edifício, uma edificação térrea com uma área construída um pouco inferior a 500 m², não estava protegido por sprinklers porque nessa época as normas da NFPA não o requeriam. O edifício estava protegido por um sistema de detecção e alarme e quatro rotas de evacuação bem distribuídas, suficientes para a capacidade no momento do incêndio. De acordo com as entrevistas com sobreviventes, vídeos e um incêndio de laboratório em escala real que duplicou o ocorrido naquele incêndio, a pista de dança adjacente ao local onde estava a banda encheu-se de fumaça em menos de dois minutos depois da ignição do poliuretano.

O incêndio do The Station, como se mencionou anteriormente, foi analisado num laboratório de incêndio em escala real pelo Instituto Nacional de Normas e Tecnologia (NIST, da sigla em inglês) que publicou em junho de 2005 o Informe sobre a Investigação técnica do Incêndio da Discoteca The Station (NCSTAR 2:Vol1). Durante esses testes, demonstrou-se que 100 segundos depois da ignição as condições a 8 metros de distância do palco onde iniciou o incêndio e a 140 cm acima do piso teriam sido letais. Demonstrou-se também que se esse mesmo edifício tivesse sido protegido com um sistema de sprinklers, o incêndio não teria afetado as condições de sobrevivência dos ocupantes da discoteca (ver tabela).
BoateKissEsp Tabla
O incêndio da Boate Kiss não foi o típico incêndio prolongado onde após a combustão do cenário a capa de fumaça alcança temperatura suficiente para incendiar os conteúdos em todo o recinto. Isso se chama ignição súbita generalizada (flashover). Aqui não houve ignição súbita generalizada já que a maior parte dos acabamentos combustíveis na boate não se incendiou.

Além disso, as fotografias da maioria dos mortos mostram que a causa da morte foi a inalação e que foram pouco afetados pela radiação que ocorre num incêndio prolongado. Os bombeiros chegaram bastante rápido depois da ignição, mas a fumaça era tão letal, que já era tarde. O incêndio, para descrevê-lo em termos simples, “comeu” o oxigênio existente e como não havia aberturas no perímetro da discoteca, exceto a porta principal, ficou sem oxigênio que permitisse a ignição do resto dos conteúdos combustíveis da discoteca. Quer dizer que foi um incêndio muito rico em combustíveis mas muito pobre em oxidantes.

Análise das normas
O código local não dava ferramentas ao inspetor para mudar as rotas de evacuação, eliminar o poliuretano expandido ou requerer a instalação de sprinklers. Embora não tenha conseguido a regulamentação brasileira para o uso de fogos artificiais em ambientes fechados, parece-me que se existe, não é uma norma muito explícita. O que foi possível estabelecer de forma segura é que a discoteca só tinha uma saída e que estava superlotada, que não tinha sprinklers, que a espuma de poliuretano utilizada para atenuar o som não tinha retardantes de chama e que foi incendiada por fogos artificiais. Mas nenhuma dessas condições, embora contrárias ao que nos ensinam as normas da NFPA, com exceção da superlotação, constituía uma violação válida no Rio Grande do Sul, pois as normas locais não pediam que fossem diferentes. Quer dizer, não podemos responsabilizar os inspetores municipais, porque eles não tinham ferramentas para mudar as condições nesse local.

Para dar um exemplo sobre a problemática das normas locais, A Norma Técnica de Prevenção de Incêndios do Estado do Rio Grande do Sul (decreto Nº 38.273 de 9 de março de 1998), faz referência, no que respeita as rotas de evacuação, à norma da associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT 9077, Saídas de Emergência dos Edifícios, que entrou em vigor em 2002. Essa norma, em suas 35 páginas, estabelece de forma simplista os critérios de projeto das rotas de evacuação. Na tabela 7 estabelece que nas boates (ocupação Grupo F6) de andar térreo (Código K), requerem-se duas saídas de evacuação. Mas em nenhum lugar a norma define que as duas saídas de evacuação devam ser afastadas uma da outra (o NFPA 101, Código de Proteção da Vida, em 7.5.1.3.2 define que a distância de separação entre duas saídas não deve ser inferior à metade do cumprimento da diagonal máxima da área servida por essas duas saídas). O proprietário e seus assessores argumentaram que a Boate Kiss cumpria o requisito da norma já que tinha duas portas independentes, o que era certo, mesmo estando uma ao lado da outra. O inspetor não tem ferramentas para mudar as coisas, embora sua experiência lhe diga que não estão certas, pois a norma, ao ser tão simples, não especifica este tipo de detalhe que tem uma importância crítica.

Por outro lado, geralmente as inspeções dos bombeiros realizadas depois da abertura dum edifício concentram-se na inspeção dos sistemas contra incêndios e das saídas de evacuação. Muitas vezes, os inspetores não têm uma preparação apropriada (refiro-me à maioria dos países que vi, incluindo os Estados Unidos) para realizar a inspeção dos acabamentos internos. De fato, a inspeção visual do poliuretano expandido para verificar se tem retardante de chama (quer dizer se cumpre com o requerido para um acabamento de classe A de acordo com a NFPA) é quase impossível. De acordo com a NFPA, a espuma de poliuretano pode ser utilizada numa casa noturna sempre que seja tratada com um retardante de chama e cumpra os critérios estabelecidos para os acabamentos de Classe A. Isso quer dizer que a espuma deve ter um índice de propagação da chama inferior a 25 e uma densidade específica ótica inferior a 450 (referido à produção de fumaça). Isso é definido pela NFPA como um acabamento interior de classe A (NFPA 1: 12.5.4.4), testado de acordo com a ASTM E 84, Método Padrão de Teste para as Caraterísticas de Combustão Superficial dos Materiais de Construção. Esta norma é equivalente à norma UL 723 e é conhecida informalmente como teste do Túnel Steiner.

Resultados das perícias
Em 28 de janeiro, os donos da Discoteca, Elissandro Spohr (Kiko) e Mauro Hoffmann, e dois dos integrantes da banda, Luciano Bonilha Leão, produtor da banda que acionou o fogo artificial e Marcelo de Jesus dos Santos, o vocalista da banda que tinha o fogo na mão, foram detidos preventivamente. Em 22 de março de 2013 a Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul entregou seu relatório e imputou criminalmente 16 pessoas para a tragédia, entre eles os quatro detidos, e mencionou que outras 19 pessoas estavam sendo investigadas.

O computador que gravava as imagens das câmaras de segurança desaparece horas depois do incêndio e não foi encontrado. Esses vídeos poderiam ter esclarecido por quanto tempo os seguranças das portas de saída travaram a saída dos ocupantes depois de declarado o incêndio.

Reflexões
Este é mais um incêndio da série de grandes incêndios que vem assolando América Latina. É como uma epidemia. Passamos a ser o “campeão mundial” dos incêndios grandes. Seis dos dez incêndios com mais mortos e 50% dos incêndios com mais de 100 mortos no mundo desde o ano 2000 ocorreram na América Latina. Parte do problema é nosso desenvolvimento vertiginoso, onde estamos copiando a arquitetura do primeiro mundo sem ter as ferramentas nem os códigos de segurança contra incêndios, que evitariam a construção de edifícios que se convertem em armadilhas em caso de incêndio.

Esse problema não começará a ter solução enquanto não tivermos códigos atualizados de segurança contra incêndios. É aqui que a regulamentação da NFPA é tão útil para nós. Embora tenha sido desenvolvida nos Estados Unidos, sua simplicidade, seu bom senso e sua base técnica tornam-na útil em qualquer país do mundo. Há pessoas que dizem que é muito “americana”, mas esse argumento não é lógico, já que os incêndios não sabem de geografia, de cultura, de nacionalidades. Os incêndios utilizam a linguagem da física e da química, que é a mesma em todos os países do mundo. Adotar e adaptar essa regulamentação à nossa realidade é, desde meu ponto de vista, a solução mais rápida e efetiva.

O que podem aprender o Brasil e a América Latina com o incêndio da discoteca Kiss? As normas contra incêndios em todo o mundo sempre foram reativas. Quer dizer, as coisas começam a mudar depois de uma grande tragédia. Aqui temos uma oportunidade histórica, pois isso ocorreu no maior país da região, um país que se está desenvolvendo rapidamente, um país que está na mira do mundo porque será o anfitrião da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos em 2014 e 2016 respectivamente. Que melhor legado, que mais linda homenagem para todos esses jovens que morreram na Boate Kiss, se o exemplo dessa tragédia for usado para que no Brasil e na América Latina, no futuro próximo, esta tragédia não possa voltar a acontecer porque as autoridades tiveram o bom senso de adotar normas modernas e internacionalmente aceitas.  

Jaime A. Moncada, P.E., é diretor da IFSC, uma empresa consultora de engenharia de protecção contra incêndios com sede em Washington, D.C. e com escritórios na América Latina, e Diretor de Desenvolvimento Profissional da NFPA para América Latina.


Agradecimentos
Este tipo de informe é possível graças à ajuda desinteressada de muita gente. Em primeiro lugar quero agradecer a Jim Dolan, Diretor Regional de Códigos de Incêndios da NFPA e a Federico Cvetreznik, meu colega no IFSC do Cone Sul, que viajaram comigo para Santa Maria e me ajudaram a digerir aquilo que víamos e ouvíamos. No Rio Grande do Sul, (RS) devo agradecer ao Tenente-Coronel Adriano Krukoski, que liderou a investigação do incêndio por parte do Corpo de Bombeiros de RS e compartilhou amavelmente comigo tudo que sabia, e ao Tenente-Coronel José Henrique Ostaszewski, da Defesa Civil de RS, que nos levou a Santa Maria e nos abriu muitas portas. Em Santa Maria, meus agradecimentos vão ao Tenente-Coronel Adilomar Jacson Silva, da Defesa Civil Regional de Santa Maria e a vários inspetores e bombeiros do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, que compartilharam conosco suas experiências. Também devo agradecer à Mixer, em são Paulo, a companhia produtora do programa especial para Discovery Channel “Tragédia em Santa Maria”. Especificamente ao diretor geral Rodrigo Astiz, ao diretor especial Daniel Brillo, e particularmente à investigadora Jessica Hernandez que me permitiu, durante este especial, incluir a noção de que existe uma solução para essas catástrofes. Quero agradecer também a Justin Pritchard, um repórter da Associated Press com quem trabalhei nos dias após o incêndio e que me enviou os planos da discoteca e outra informação inestimável para meu trabalho, que não tenho ideia de como a conseguiu. Finalmente, a Olga Caledonia, Diretora Executiva de Operações Internacionais da NFPA, e Gabriela Mazal que continuam apoiando meu trabalho e oferecendo a oportunidade de documentar esses incêndios.

Share

nós

Quem nós Somos

A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.