O Incêndio do Supermercado Ycuá Bolanos
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O Incêndio do Supermercado Ycuá Bolanos

Por Eduardo D. Álvarez, P.E., SFPE & Jaime A. Moncada, P.E., SFPE

No último dia 1° de agosto, numa manhã de domingo, em um moderno supermercado da cidade de Assunção, no Paraguai, um incêndio causou a morte de aproximadamente 400 pessoas1, deixou mais de 360 feridas e destruiu totalmente o estabelecimento. Esse foi um dos maiores incêndios ocorridos nas últimas décadas em todo o mundo em edifícios de uso público utilizados para o varejo.

A NFPA não foi convidada oficialmente para investigar o incêndio. Entretanto, visitamos o local para obter informações técnicas por meio de entrevistas com testemunhas e análise dos dados disponíveis. Neste texto destacamos os aspectos sobre os quais, devido a essas limitações, podem existir dúvidas quanto à exatidão ou certeza. A perícia a que tivemos acesso foi realizada por uma equipe de investigadores enviada especialmente a Assunção pelo Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives (ATF) do Departamento de Justiça dos EUA.

 

 

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Área de ventas del supermercado. Se pueden observar los detectores fotoeléctricos de humo bajo el cielorraso (Gentileza Diario ABC Color - Asunción)

 

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Nivel de estacionamiento protegido por detectores termovelocimétricos. Se observa que no poseía rociadores (Gentileza Diario ABC Color - Asunción)

Localização e descrição
Assunção é a capital da república do Paraguai e conta com 513.000 habitantes, sendo a cidade mais importante do país. Fundada em 1537, as estreitas ruas de seu centro histórico recordam a época em que era colônia espanhola. O supermercado, entretanto, não se encontra no centro da cidade, devido à dificuldade de acesso, mas localiza-se na interseção de duas largas e modernas avenidas, no bairro conhecido como Santísima Trinidad. Trata-se de um bairro de casas térreas, constituído em sua maioria por moradias unifamiliares de classe média e algumas lojas.

O supermercado Ycuá Bolanos pertence a uma rede local que inclui outros dois estabelecimentos. Em língua guarani, o segundo idioma do país depois do castelhano, “ycuá” significa “mina d’água, manancial” e “bolanos” faz referência ao bairro onde foi construído o primeiro supermercado da rede. A loja incendiada se denominava “Botânico” devido à sua proximidade do Jardim Botânico de Assunção.

Inaugurado em 7 de dezembro de 2001, o supermercado ocupava um edifício de dois pavimentos, cada um com uma área coberta de aproximadamente 4.000 m 2. No térreo havia um estacionamento coberto para 163 automóveis. Havia também um estacionamento ao ar livre. O pavimento superior era ocupado por uma grande área de vendas e uma praça de alimentação, além de padaria, cozinha, depósitos e outros setores de serviços. Completavam a construção dois mezaninos; um no lado sul do edifício, ocupado por escritórios administrativos, e outro, do lado norte, anexo à praça de alimentação. A capacidade dos dois níveis da praça de alimentação era de 324 pessoas sentadas.

A estrutura do edifício era de concreto armado, com paredes de blocos. A estrutura do telhado era feita de vigas metálicas, e em alguns lugares por treliças metálicas. Essa estrutura não possuía qualquer revestimento que aumentasse sua resistência ao fogo. A cobertura era feita com chapas metálicas onduladas, e sob ela foi aplicada por aspersão uma capa isolante de espuma de poliuretano combustível com espessura entre 25 e 250 mm.

Um forro fazia a separação entre o telhado e a área de vendas e a praça de alimentação. O forro estava a uma altura de aproximadamente 5,6 m e era feito de placas de aproximadamente 1,2 m x 0,60 m, apoiadas sobre uma estrutura metálica leve presa ao telhado por cabos metálicos. As placas do forro eram do tipo sanduíche, com recheio de poliestireno entre duas camadas de gesso.

O edifício possuía uma entrada exclusiva para pedestres, na interseção das avenidas Artigas e Santísima Trinidad. Uma escada não enclausurada ligava essa entrada ao nível do salão principal. A partir daí, uma porta independente conduzia à praça de alimentação. Outra escada ligava a praça de alimentação ao mezanino onde havia mesas adicionais.

A maioria do público ingressava pelos acessos para veículos, um na avenida Santísima Trinidad e o outro na avenida Artigas. Próximo a esse último acesso havia outra escada e uma rampa para os carrinhos do supermercado. Tanto a rampa como a escada ligavam o nível do estacionamento ao nível superior correspondente à área de vendas. Nem a escada nem a rampa tinham enclausuramento resistente ao fogo.

O acesso dos veículos de fornecedores era feita por uma entrada traseira independente que dava acesso às áreas de serviço. Os funcionários utilizavam uma escada independente que ligava o nível do estacionamento à área de serviço no nível superior.

Sistemas contra incêndio e equipamentos prediais
O edifício possuía gabinetes com hidrantes de parede, presumivelmente alimentados por um sistema de bombeamento próprio e por uma conexão de recalque na fachada da avenida Santísima Trinidad. Aparentemente, o abastecimento de água do estabelecimento não estava em funcionamento no momento do incêndio (isso não pôde ser confirmado).

O edifício tinha um sistema automático de detecção e alarme de incêndios. A área de vendas, praça de alimentação e a maioria dos setores de serviço, possuíam detectores fotoelétricos de fumaça, enquanto no estacionamento coberto, padaria, confeitaria e cozinha, os detectores eram termovelocimétricos. O sistema totalizava 90 detectores fotoelétricos, 49 detectores termovelocimétricos, 10 acionadores manuais de alarme e 10 notificadores com alarme sonoro e luz estroboscópica, além de outros três elementos de alarme sonoro. Esses dispositivos estavam agrupados em 20 zonas de detecção convencionais, não monitoradas, e conectadas a um painel de alarme do tipo “anti-intrusão”. Nenhuma das testemunhas relatou haver escutado os alarmes de incêndios.

Só a cozinha industrial que servia a praça de alimentação utilizava gás combustível, sendo o propano-butano armazenado em dois tanques na área de serviços. Esses tanques não foram envolvidos no incêndio. Havia também uma churrasqueira na cozinha, que utilizava carvão como combustível. A chaminé atravessava o mezanino da praça de alimentação, o forro e o telhado, onde havia um exaustor elétrico. O restante dos sistemas de aquecimento, entre eles os fornos da padaria, utilizava eletricidade. A área de vendas era climatizada com um sistema cujos dutos de ar estavam instalados no espaço vazio entre o telhado e o forro.

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O Incêndio
De acordo com os peritos do ATF, o fogo começou dentro de um trecho horizontal da chaminé da churrasqueira. Esse trecho horizontal possuía um grande acúmulo de gordura que serviu como combustível. O aumento da temperatura do duto enfraqueceu os suportes nesse trecho, permitindo que o fogo, até então confinado ao interior da chaminé, saísse da mesma e alcançasse o telhado, avançando até a parte mais elevada devido à sua inclinação. Isso causou a ignição do isolamento de poliuretano e das placas do forro.

O incêndio, que se desenvolvia no espaço fechado entre o forro e o telhado, continuou avançando em direção ao sul, com aumento das chamas e liberação de gases quentes. O calor gerado começou a debilitar os suportes do forro, e o fogo, finalmente, atravessou as placas ao redor da chaminé no mezanino da praça de alimentação. O fogo causou a quebra dos vidros da parede de separação entre a praça de alimentação e a área de vendas. Nesse momento, o fogo foi visto pela primeira vez pelos empregados e clientes do supermercado.

O grande fluxo de ar causado pela quebra dos vidros provocou a ignição dos produtos gasosos da combustão, gerando uma bola de fogo que se propagou na direção sul-sudoeste por cima do forro. A queda de novas placas aumentou a quantidade de oxigênio disponível, aumentando a bola de fogo que alcançou a parede sul do supermercado. Nesse momento, a quase totalidade das mercadorias na área de vendas já se encontrava em chamas.

A onda de pressão gerada fez com que as chamas atingissem o estacionamento, percorrendo a rampa que ligava esse nível à área de vendas. A trajetória das chamas pôde ser evidenciada pelos veículos afetados pelo fogo e pelos que só apresentaram danos menores. Os maiores danos, observados no extremo sul do edifício, deveram-se à maior combustibilidade dos materiais expostos para venda nesse setor, como roupas, tecidos e mercadorias semelhantes. Pelo contrário, o lado norte da área de vendas continha, em sua maioria, produtos alimentícios.

A propagação do fogo descrita acima coincide com as declarações dos sobreviventes, que fizeram referência ao fogo "que caía do teto" e expressões similares. As numerosas explosões a que fizeram referência várias testemunhas podem ser explicadas pela explosão de latas de aerossóis, do compressor de uma câmara frigorífica e outros elementos.

Análise de normas
A legislação paraguaia, através do Decreto 25097/88 da Cidade de Assunção, estabelece as medidas contra incêndio que devem ser seguidas por um estabelecimento como este supermercado. As principais exigências do Decreto se resumem a distâncias máximas até as saídas, paredes de enclausuramento de meios de saída, sentido de abertura de portas, sistemas de detecção e alarme e sistemas de hidrantes de parede com reserva água própria. Não há na legislação paraguaia exigência do uso de sprinklers automáticos.

Não é objeto deste artigo analisar se a legislação era adequada ou se foi cumprida, sobretudo considerando-se que a arquiteta Teresa Miranda, Diretora de Administração Urbana da Municipalidade de Assunção, expôs à imprensa local que os planos do supermercado atendiam ao Decreto, não sendo encontrada por ela nenhuma objeção radical que justificasse observações ou dúvidas quanto à documentação.2

 

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Área de servicios del supermercado donde se observa la estructura liviana del cielorraso (Gentileza Diario ABC Color - Asunción

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Interior del local de ventas donde se observa la estructura metálica del techo la cual no poseía recubrimiento resistente al fuego. Las chapas acanaladas de la cubierta superior poseían aislación térmica mediante espuma de poliuretano combustible. (Gentileza Diario ABC Color - Asunción)

Uma análise resumida do incidente à luz da NFPA 101, Código de Proteção da Vida (edição 2003), permite os seguintes comentários:

  • O edifício não cumpria o requisito de estar protegido totalmente por sprinklers automáticos. Entretanto, possuía um sistema de detecção, o que não é exigido pela NFPA 101. A detecção de fumaça não é uma proteção equivalente a sprinklers automáticos.
  • A NFPA 101 faz referência à Norma NFPA 96 sobre Ventilação e Proteção contra Incêndios de Cozinhas Comerciais, que por sua vez indica que os dutos verticais ou inclinados são preferíveis aos dutos horizontais, pois estes podem acumular gordura. Ainda que não tenhamos detalhes exatos sobre a construção da chaminé, muito possivelmente esta não cumpria a distância mínima de 46 cm de separação entre ela e os materiais combustíveis do telhado.
  • Não havia o número necessário de saídas3. A praça de alimentação tinha uma lotação máxima permitida de 324 pessoas e possuía somente uma única saída, em vez de duas; a área de vendas, por sua vez, apresentava uma lotação máxima permitida de 1.126 pessoas e só tinha duas saídas, sendo que seriam exigidas quatro saídas independentes pela NFPA 101.
  • Na área de vendas a distância total de percurso até uma saída era superior à exigida. A distância era de 96 m em vez dos 46 m requeridos.
  • A capacidade dos meios de saída era de 821 pessoas enquanto a lotação máxima era de 1.450 pessoas, sem levarmos em conta a ocupação da área de serviços.
  • De acordo com as plantas e as fotografias, nenhuma das portas se abria no sentido da saída. Não encontramos evidência de que as saídas eram sinalizadas.
  • A espuma de poliuretano combustível aplicada ao lado inferior do telhado, indubitavelmente influiu no desenvolvimento do incêndio. De acordo com a norma NFPA 5000 (Building Construction and Safety Code), este material só pode ser utilizado se atende à norma ASTM C-1029 (Standard Specification for Spray-Applied Rigid Cellular Polyurethane Thermal Insulation) e se o telhado estiver certificado segundo a norma UL 1256 (Standard for Safety for Fire Test of Roof Deck) ou FM 4450 (Test Standard for Class 1 Insulated Steel Deck Roofs). Não foi possível determinar se a espuma plástica utilizada como isolamento no telhado cumpria com esses requisitos ou outros e equivalentes.

Reflexões finais
O que primeiro salta à vista neste supermercado é o fato de se tratar de um edifício moderno, construído recentemente, e no qual a aplicação de normas internacionais de segurança contra incêndios, existentes durante o seu projeto e construção, teria seguramente evitado a tragédia ou, no mínimo, reduzido as perdas de vidas. O incêndio do Ycuá Bolanos nos mostra os riscos de edifícios sem proteção por sprinklers automáticos, e onde os equipamentos instalados, como a chaminé onde teve início o incêndio, não cumprem as normas aplicáveis; onde há uma lotação permitida muito superior às possibilidades de evacuação de suas saídas, e onde a legislação vigente, seja por seu descumprimento, seja por estar desatualizada, se mostra totalmente ineficaz para a proteção das pessoas e do imóvel.

Este incêndio põe em dúvida, uma vez mais, a estratégia de proteger edifícios de grandes áreas livres com sistemas de detecção e alarme e com hidrantes de parede, em lugar de fazê-lo com sprinklers automáticos. No incêndio analisado, não houve evidência de que o sistema de detecção e alarma tenha anunciado o incêndio nem que as mangueiras do edifício tenham sido utilizadas para combate ao fogo.

Os fatores que levaram à morte quase 400 pessoas no supermercado Ycuá Bolanos estão hoje presentes em inúmeras salas de espetáculos, shoppings, discotecas e edifícios de escritórios e residenciais na América Latina. Todos os latino-americanos são testemunhas da permanente tendência de copiar os conceitos arquitetônicos do primeiro mundo, esquecendo-nos de adotar também as medidas de prevenção e proteção contra incêndios que são requeridas nesses países, e que permitem uma razoável garantia para vidas e bens.

Agradecimentos
Este artigo não poderia ter sido realizado sem a colaboração de John Hahn, Chefe Interino de Divisão do Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives (ATF) dos Estados Unidos, do Cap. Ppal. Carlos Torres Alujas, Comandante Nacional dos Bombeiros Voluntários do Paraguai; Omar Pérez Zavala, Kyrios S.A. Assunção; Yolanda Vargas e Cecilia O’Higgins, Preventec S.A., Assunção; e o Diário ABC Color de Assunção.

1. Até 16 de agosto 331 corpos haviam sido identificados, 48 continuavam desaparecidos e 43 estavam em processo de reconhecimento. Desde o dia do incêndio, 67 pessoas faleceram em hospitais e 296 haviam sido atendidas.

2. Notícia do jornal ABC Color de 11 de agosto.

3. As fotografias tiradas depois do incêndio, os seus efeitos e os relatórios recebidos, indicam que os dois acessos principais da área de vendas se encontravam comunicados com ambos os níveis, não se constituindo em saídas independentes que não podiam ser afetadas pela fumaça ou fogo. É por isso que, para esta análise, são considerados como acessos à saída e não como saídas. A escada de aceso dos funcionários se comunica com a rua pelo mesmo portão de acesso de veículos que serve de descarga ao conjunto de escada e rampa utilizado pelo público. Devido a essa característica, também não é considera saída e sim como acesso à saída.

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