O coração da festa
      Perdeu o acesso?  

 

Lugares de Reunião Pública, Discotecas & Egreso

O coração da festa

Por Jesse Roman

festival header

Espaços seguros. Serviços de saúde mental. Sistemas de testes de drogas. Bem vindo ao admirável mundo novo da redução de danos, a ferramenta de proteção da vida mais recente na florescente indústria global dos festivais. 

Na madrugada do domingo 29 de maio, Nancy Bermudez recebeu uma chamada horripilante duma trabalhadora social do Hospital St. Joseph em Tampa, Florida. Katie, a filha de 21 anos de Bermudez, estava no hospital e o prognóstico era terrível. Quando Bermudez chegou, de acordo com o Tampa Bay Times, ela encontrou a filha inconsciente e agarrada à vida com a ajuda de tubos e aparelhos. “Katie, tens de lutar”, sussurrou Bermudez à filha. No dia seguinte Katie estava morta.

O gabinete do médico legista ainda não determinou a causa da morte de Katie Bermudez e de Alex Haynes, de 22 anos, que morreram durante o fim de semana do Memorial Day, depois de terem sido levados ao hospital do Sunset Music Festival, um festival de música eletrônica (EDM, da sigla em inglês) no Estádio Raymond James, em Tampa. Cinquenta e sete outros participantes do festival foram também levados ao hospital durante o fim de semana com vários problemas e mais de 25 foram acusados de crimes dolosos, situação que sobrecarregou os recursos dos socorristas locais.

Nem a polícia de Tampa nem o prefeito Bob Buckhorn esperaram os relatórios de toxicologia para fazer suas avaliações dos acontecimentos. “Esse tipo de festival atrai esse tipo de uso de drogas e esse tipo de drogas. Combine isso com o calor no estádio, foi realmente a tormenta perfeita que permitiu a ocorrência de coisas ruins,” disse o prefeito numa declaração aos órgãos de informação depois do festival Sunset, que reuniu aproximadamente trinta mil pessoas. “Claramente é um evento que, como comunidade, devemos reconsiderar.”

É difícil encontrar informação detalhada sobre ferimentos e mortes em festivais, mas num ano normal dezenas de pessoas em todo o mundo morrem nos festivais de música e centenas sofrem ferimentos. Muitas vezes, as mortes envolvem drogas e seguem roteiros similares: alguém toma demasiada quantidade da droga errada ou duma combinação de drogas, fica desidratado ou hiper-hidratado ou superaquecido e por fim, inconsciente. Depois da morte duma jovem de 20 anos no Electric Daisy Carnival em Las Vegas, em junho, o pai da jovem reconheceu que havia drogas no sistema da filha e que isso tinha contribuído para sua morte, “Mas não foi só a droga que a matou,” ele disse à Associated Press. “Ela passou três dias no EDC Las Vegas com um calor recorde. Isso seria suficiente para matar qualquer pessoa.”

As drogas e as intempéries não são os únicos perigos. Um homem morreu em maio depois dum ataque fatal num festival na Califórnia. Os tumultos podem matar dezenas ou mais pessoas, como as 21 pessoas que morreram em 2010 no festival de música eletrônica Love Parade, na Alemanha. E temos as pessoas que realmente não têm sorte, como a mulher de 28 anos que morreu quando um raio atingiu a tenda onde se encontrava num festival de música na Louisiana, em março.

Especialmente quando estão envolvidas drogas, os incidentes em festivais provocam uma reação intensa do público, atraem o interesse da mídia e causaram o encerramento de alguns dos maiores festivais do mundo, desde Los Angeles até Kuala Lumpur. Duas vezes o Condado de Los Angeles proibiu temporariamente as raves – grandes festas de música eletrônica – depois de eventos onde houve mortes, a primeira vez quando uma adolescente morreu por uma overdose de droga no Electric Daisy Carnival, em 2010 e novamente o ano passado, quando duas jovens, de 18 e 19 anos, morreram no Hard Summer Music festival em Pomona.

As tragédias que a mídia mostra, contudo, podem ocultar o fato que a grande maioria dos festivais decorre sem incidentes, graças, em parte, a uma série de medidas novas que os festivais e as organizações sem fins lucrativos implementam para aprimorar a segurança do público. Alguns desses esforços pertencem à categoria de “redução de danos” e incluem estratégias como equipes voluntárias de apoio, espaços seguros exclusivos para mulheres e pessoas que precisam afastar-se da multidão e laboratórios montados no local onde os participantes podem levar suas drogas para serem testadas para detectar adulterantes. Enquanto isso, os primeiros socorros no local, o gerenciamento de multidões, a gestão médica e de emergências se tornaram mais sólidos e sofisticados. As medidas complementam a avaliação de segurança humana, um item do NFPA 101®, Código de Proteção da Vida, que se aplica aos eventos de reuniões de público como os festivais, para garantir a presença dos elementos necessários à proteção dos participantes. Todos esses passos se tornaram mais importantes nos festivais, cada vez maiores e mais complexos, localizados muitas vezes em locais isolados que requerem um alto grau de autossuficiência.

“Em comparação com dez anos atrás, hoje mais eventos são mais bem organizados, com um nível mais alto de requisitos e supervisão e demonstram um melhor planejamento e coordenação com as agências locais,” disse Joseph Pred, que foi chefe de operações de serviços de emergências no festival Burning Man durante 18 anos e é agora proprietário da Mutual Aid Response Services, uma empresa de consultoria que trabalha com festivais em todo o mundo.   “Assim que saímos dum ambiente de festival urbano e não podemos contar com recursos fixos, entramos numa categoria diferente de festival. O enorme crescimento do mercado dos festivais resultou em mais eventos realizados em locais mais remotos e os festivais entendem que, para alcançar o nível mais alto de segurança de vida, precisam esse nível elevado de sofisticação.”

As demandas da indústria

Pred não exagera quando fala das dinâmicas do mercado dos festivais – os festivais de música em todo o mundo estão alcançando níveis sem precedentes de popularidade e rentabilidade. De acordo com um relatório de 2015, preparado pela Nielsen, uma empresa de dados sobre consumidores, aproximadamente 32 milhões de pessoas vão pelo menos a um festival de música nos Estados Unidos a cada ano, com um terço dos fãs participando de mais de um festival. O estudo notou também que os participantes dos festivais são apaixonados, viajando em média 903 milhas para atender um festival. Musicfestivalwizard.com registrou 17 festivais de música importantes nos Estados Unidos somente no fim de semana do Memorial Day e o site conta 174 festivais anualmente, provavelmente muito menos que o número real. Na Europa a loucura dos festivais cresceu ainda mais.  Um artigo do LA Weekly de 2013 estimou o número anual de festivais no continente entre 2500 e 3000, com 670 somente na Inglaterra e um aumento de 73% entre 2003 e 2013.

O crescimento ocorre em função da cultura e da economia. Com a venda de discos diminuindo significativamente na era digital, a indústria da música e os artistas dependem cada vez mais dos eventos ao vivo para compensar a diferença. Em parte por causa da intensa concorrência para lotar os eventos mais importantes, as estrelas podem ganhar até quatro milhões por festival, de acordo com a Rolling Stone, enquanto atuações menos conhecidas podem tocar para audiências maiores e conseguir maior exposição do que fariam trabalhando no circuito dos clubes. Os promotores e as cidades anfitriãs também saem ganhando, com os espectadores preparados para gastar 300 dólares ou mais para uma entrada. De acordo com a Forbes, as vendas de entradas nos cinco maiores festivais dos Estados Unidos juntaram 183 milhões de dólares em 2014 e isso é antes de acrescentar as receitas substanciais provenientes dos patrocínios corporativos e das vendas de alimentos, álcool e produtos. Um estudo de 2015 realizado pela Beacon Economics e pago pela Insomniac, uma das maiores produtoras de festivais EDM do mundo, chegou à conclusão que 48 eventos, organizados pela Insomniac entre 2010 e 2014, produziram mais de três bilhões para a economia dos Estados Unidos e criaram mais de 25000 empregos. O Electric Daisy Carnival da Insomniac, em Las Vegas, injetou 1,7 bilhões de dólares na economia de Nevada durante o período, de acordo com o estudo, incluindo como fatores os impostos e os gastos dos participantes em hotéis, comida, transporte e outras despesas.

O retorno econômico potencial é apenas um dos motivos pelos quais os promotores dos festivais e as cidades anfitriãs sentem-se pressionados para manter a indústria funcionando e os participantes saudáveis e felizes. Os dedicados fãs da música, atraídos pelas experiências sociais compartilhadas e pelo convívio promovido pela cultura dos festivais, estão também interessados em manter a música andando e muitos se propõem como voluntários para ajudar com os programas de redução de danos. Como resultado, toda uma indústria artesanal, com ou sem fins lucrativos, construída em volta da segurança nos festivais e caracterizada por novas estratégias inovadoras e uma sofisticação cada vez maior, cresceu em sincronia com o aumento da assistência aos festivais.

Não foi sempre assim, de acordo com Andrew Bazos, um cirurgião que começou a trabalhar em grandes festivais de música na cidade de Nova Iorque no início dos anos 90. Naquela época, os promotores estavam obcecados pela preparação, a produção do som e a segurança - as questões médicas eram muitas vezes algo secundário, ele disse. “Naquele tempo o produtor chamava uma companhia de ambulâncias local e procurava amadores de forma aleatória pedindo que encontrassem uma tenda perto do palco e trouxessem os materiais que achassem apropriados. Não ia muito mais longe,” ele disse. Bazos agora é o novo presidente da CrowdRx, uma das maiores empresas provedoras de serviços médicos em eventos. No ano passado, a CrowdRx forneceu serviços médicos a dezenas de eventos ecléticos, incluindo Lollapalooza, Coachella, Bonnaroo, Burning Man e vários festivais de EDM incluindo Mysteryland e Electric Zoo. Cada evento apresenta uma série de desafios e considerações únicos, disse Bazos, e o planejamento médico é muito mais que apanhar um rolo de gaze e avançar. “Os dados agora guiam tudo aquilo que fazemos,” ele disse. “Estamos utilizando dados para predizer o volume e os tipos de incidentes que teremos de forma a estarmos preparados do lado da oferta. Na atualidade podemos identificar a taxa provável de transporte [ao hospital] baseada em quatro ou cinco pontos diferentes”. Variáveis como o gênero de música, se é permitido acampar, se haverá venda de álcool, o número esperado de assistentes, a localização geográfica, a proximidade dos hospitais, podem modificar os materiais, o equipamento e o pessoal requerido para um evento, disse Bazos.

As características da audiência poderiam ser o fator mais importante, de acordo com Steve Adelman, um especialista de segurança de eventos e membro fundador da Event Safety Alliance, uma associação sem fins de lucro de profissionais da indústria dos eventos em vivo. “Os torcedores de futebol ingleses serão muito diferentes em termos de atividade esperada que os assistentes ao Newport Folk Festival e muito diferentes dos fãs de Jimmy Buffet,” ele disse.

Entre os especialistas de segurança dos eventos, os festivais de musica country são conhecidos pelo consumo pesado de álcool, então se preparam mais estações para administrar fluidos intravenosos. Os eventos EDM têm mais problemas de consumo de drogas de desenho como o MDMA – mais conhecida como “Ecstasy” ou “Molly” – e seus primos químicos e os médicos devem estar preparados com planos de medicação e tratamento específicos para essas substâncias. Os festivais ao ar livre no deserto com muito calor e exposição ao sol precisam mais camas refrigerantes. Muitas das salvaguardas são intuitivas, mas deixar algo de fora pode significar uma tragédia. O planejamento muitas vezes começa com antecipação de um ano ou mais. Realizam-se reuniões das partes interessadas antes do festival para analisar a logística e os planos de resposta, que incluem muitas vezes exercícios simulados. A cooperação e linhas abertas de comunicação são essenciais antes e durante um evento, disse Connor Fitzpatrick, diretor de operações na CrowdRx. “Nada é feito de forma isolada, tudo é interdisciplinar,” ele disse. “Incêndio, questões médicas, segurança, operações – todas as partes interessadas devem estar envolvidas porque tudo afeta todo o resto. Se o promotor cobrar 10 dólares pela água, por exemplo, isso terá um impacto sobre as questões médicas.”

As bases de grande parte dos requisitos de planejamento e segurança de vida vêm do processo de avaliação de segurança humana incluído no NFPA 101. O código requer uma extensa avaliação e análise para todos os eventos de reunião de público que excedam 6000 pessoas e inclui considerações detalhadas sobre todos os aspectos, desde a densidade e movimento da multidão até os assentos, as características e comportamento da multidão, o consumo de álcool e potenciais conflitos de grupos e analisa também as relações entre os gerentes das instalações, os participantes do evento, as agências de resposta de emergência e mais. O NFPA 101 requer também pelo menos um gerente de multidões treinado -  as pessoas que usam as camisetas “Guest Services” – para cada 250 participantes. Geralmente, as autoridades competentes realizam a análise com base em informação fornecida pela produtora e entregam ao festival a lista de medidas e precauções que devem ser cumpridas para que o festival consiga a autorização. Na maioria dos casos, muitas outras posturas e regulamentos locais se aplicam também.

Enquanto o NFPA 101 pode garantir requisitos mínimos, alguns festivais são tão diferentes em suas necessidades e suas localizações são tão austeras e remotas, que requerem infraestrutura e procedimentos especiais. Burning Man, por exemplo, se realiza cada mês de setembro num local remoto do Black Rock Desert em Nevada, para onde mais de 70.000 pessoas se deslocam a cada ano para construir e viver numa cidade temporária, erguer grandes peças de arte experimental, dançar e queimar um grande homem de madeira. Para garantir a segurança das pessoas, uma rede completa e sofisticada de resposta de emergência, que excede as capacidades dos recursos de algumas pequenas cidades, deve ser montada no meio do deserto. Em suas quase duas décadas como chefe de operações dos serviços de emergência do Burning Man, Joseph Pred viu crescer o sistema de segurança do festival, passando duma rede informal de segurança e serviços médicos para um departamento muito bem estruturado, com serviços de Emergências Médicas, serviços de combate ao incêndio, serviços de saúde mental e comunicações de emergência, todos coordenados através duma estrutura de comando unificada e um modelo de resposta de alto desempenho construído utilizando orientações de não menos de sessenta normas e códigos da NFPA. Pred introduziu o uso de programas de despacho assistidos por computador do tipo do 911 para gerenciamento de recursos e incidentes e para criar um registro definitivo em tempo real.  A brigada de incêndio do festival opera sob um comando unificado, com três estações e nove veículos anti-incêndio. No total, quando Pred deixou o festival em 2013, o departamento de operações de emergência de Burning Man tinha 18 chefes seniores e seus adjuntos, cada um com seu próprio comando e contando com aproximadamente 80 agentes e mais de 750 socorristas. Embora nem todos os festivais possam ostentar esse nível de sofisticação na resposta, disse Pred, a disparidade está diminuindo todo o tempo.

As capacidades médicas seguiram uma tendência similar, disse Bazos. No ano passado, por exemplo, a CrowdRx ganhou pela primeira vez o contrato para fornecer serviços médicos ao Burning Man. As instalações no local incluíam uma sala de emergência totalmente equipada e dotada de médicos, enfermeiras, técnicos em emergências médicas, ambulâncias, transporte de asa fixa e um helicóptero. Os médicos que trabalham no local do festival têm acesso a aparelhos de raios-x, de ultrassom, monitores cardíacos, um laboratório e uma farmácia. 

Redução de danos: ir ao encontro das pessoas

Enquanto os sistemas e as estratégias de resposta evoluem para garantir melhores resultados para os participantes dos festivais no caso de algo mal acontecer, um exército de organizações sem fins lucrativos e voluntários está promovendo esforços para evitar que isso aconteça. “Você não pode ter apenas os serviços médicos e a polícia – essas são estratégias reativas,” disse Stefanie Jones, da Drug Policy Alliance, um grupo que defende a reforma da legislação sobre drogas. “Você pode ter todos os policiais e as revistas que quiser e ainda haverá drogas nos festivais. É por isso que como alternativa promovemos maiores recursos, mais educação e serviços de redução de danos.”

A redução de danos, como chamam seus defensores, é a pratica de “ir ao encontro das pessoas”. É o reconhecimento que nenhum festival pode esperar impedir que as pessoas decidam fazer algo arriscado, como tomar drogas, então é melhor que o festival faça tudo o que está ao seu alcance para mitigar os danos. Sendo assim, a redução de danos pode tomar muitas formas, desde medidas não controvertidas – como distribuir gratuitamente água e tampões para ouvidos ou oferecer um espaço seguro às mulheres que se sentem ameaçadas ou que foram agredidas – até práticas que causam rejeição, como a realização de testes de drogas gratuitos para que os participantes saibam se os comprimidos que pensam tomar são de fato as drogas que pensam que são.

O padrão de excelência da redução de danos, de acordo com muitas pessoas do mundo dos festivais, é o Shambhala Music Festival na Columbia Britânica, Canadá. Durante cinco dias e cinco noites cada outono, Shambhala transforma o Salmo River Ranch, uma bucólica chácara situada no sudeste da Columbia Britânica, na maior cidade da região de West Kootenays. Mais de 10.000 fãs da música eletrônica se concentram no lugar para dançar ao pé de seis cenários e acampam a beira do rio. No ano passado cinco participantes foram levados ao hospital; no ano anterior foram 13. O festival lamentou apenas uma morte em seus 19 anos de história. 

Um dos fatores que explica esse recorde de segurança é a proibição de longa data do consumo de álcool no local. Porém, outros fatores, como a duração do festival, a localização remota, a orientação EDM e a disponibilidade de acampamento poderiam sugerir um perfil de mais alto risco. O principal motivo pelo qual não há mais incidentes na chácara, dizem os organizadores do festival, é a aplicação sistemática de programas e estratégias de redução de risco de Shambhala. Essas estratégias incluem uma tenda santuário com 26 camas onde os visitantes podem se afastar da multidão e falar com conselheiros de saúde mental; um espaço seguro para mulheres, uma equipe de apoio que patrulha o local 24 horas por dia cumprindo a função de olhos e ouvidos das equipes de segurança e médicas; água grátis, uma abundância de documentação sobre redução de riscos; produtos de saúde sexual gratuitos; uma seção de acampamento separada para “acampamento sóbrio” e uma instalação para testar drogas ver “Cara, o que tem neste comprimido?”. 

Enquanto a maioria dos grandes festivais no Canadá e na Europa adotou os princípios de redução de danos, a maioria dos festivais nos Estados Unidos mantém distância da ideia, especialmente no que diz respeito às drogas. Parte da resistência é legal, e parte é cultural, disse Jones da Drug Policy Alliance. “Muitas agências locais de polícia e de saúde publica ainda pensam que a principal prioridade é evitar que as pessoas consumam drogas e não estão interessadas em nada mais que estratégias de cumprimento da lei,” ela disse. “Os produtores dos festivais muitas vezes são mais abertos, mas eles devem lidar com a necessidade de conseguir a licença e a autorização do evento. Eles não querem fazer nada que ponha em risco a realização do evento.”

De acordo com os defensores da redução de danos, os temores dos produtores provêm principalmente do Illicit Drug Anti-Proliferation Act, uma lei dos Estados Unidos de 2003, conhecida como RAVE Act. Aprovada no auge da reação adversa ao MDMA nos Estados Unidos, a lei considera os produtores do evento criminal e civilmente responsáveis se forem encontrados operando “com conhecimento” “uma instalação envolvida com drogas”. Muitos produtores compartilham o sentimento que autorizar as organizações a distribuir informação sobre as drogas ou fornecer uma zona de recuperação (“Chill out space”) aos participantes seria suficiente para serem acusados de operar com conhecimento de causa num evento onde as drogas são toleradas. A lei foi aplicada poucas vezes - se é que foi aplicada - mas sua sombra ainda permanece. Pred a compara ao “Pé Grande” e Cameron Bowman, um defensor e aficionado dos festivais que costuma fazer declarações contra o RAVE Act, descreveu-a numa entrevista recente como a “Keyser Soze das leis – todos têm medo dela, mas ninguém pode lembrar alguma vez onde foi realmente aplicada.”

Seja por causa do RAVE Act, da resistência da comunidade ou das preocupações quanto ao licenciamento, muitos eventos nos Estados Unidos rejeitaram cortesmente a presença de grupos como SafeDance, uma das primeiras e mais conhecidas organizações de redução de danos, para fornecer serviços aos festivais. “Algum tempo atrás tive de fato DanceSafe em nossos eventos, mas quando o local de realização, as autoridades locais e as seguradoras se opõem, essa cidade o esse local não serão uma opção,” escreveu o CEO da Insomniac, Events Pasquele Rotella, em sua página de Reddit “Ask Me Anything” no ano passado, explicando porque safe Dance não está autorizada a operar nos eventos de Insomniac como Electric Daisy Carnival.” “Já é bastante difícil encontrar lugares onde posso organizar os eventos. Infelizmente, algumas pessoas veem a parceria com DanceSafe como um aval ao uso das drogas em lugar de uma forma de manter as pessoas a salvo e isso pode impedir que os produtores consigam lugares e organizem os eventos.”

Contudo, os defensores da estratégia concordam em que as atitudes podem estar mudando nos Estados Unidos, em parte devido às tragédias como as mortes de Katie Bermudez e Alex Haynes em Tampa, em maio. Após as duas mortes relacionadas às drogas o ano passado, o Condado de Los Angeles formou um grupo de trabalho sobre festivais de música eletrônica e em março o comitê de supervisão do condado aceitou por unanimidade as recomendações do grupo, que incluíam algumas estratégias de redução de danos. Seattle recebeu também várias reuniões sobre segurança nos festivais de música para juntar as partes interessadas e encontrar soluções mais inovadoras para manter as pessoas a salvo nos festivais.

“Quanto maior for o número de mortes, mais pessoas se abrem a diferentes estratégias,” disse Jones. “A abertura à educação sobre as drogas e à redução de danos cresce lenta, mas seguramente.”

“Mesmo se isso salva só uma vida,” acrescentou Perd, “vale a pena”.

Jesse Roman é editor associado do NFPA Journal

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Cara, o que tem neste comprimido?

Um festival na Columbia Britânica é pioneiro na prática de analisar as drogas em nome da segurança dos participantes

festival safety securitydude whats in this pillUm voluntário testa uma amostra de droga fornecida por um participante em Shambhala. Aproximadamente um terço das substâncias testadas no festival não são aquilo que diziam que eram.Os especialistas de festivais consideram que o Shambhala Music Festival, uma celebração anual de cinco dias de música eletrônica realizada nos bosques da Columbia Britânica, é o padrão de excelência da efetividade da redução de danos na América do Norte. O festival oferece tudo, desde água grátis até apoio em saúde mental e um grupo especial de locais para acampar separados para “acampamento sóbrio”, características que ajudaram a minimizar o número de mortes, ferimentos e internações ao longo dos 19 anos de vida do festival.

Um dos esforços de redução de danos mais importante - e controvertido – de Shambhala é a tenda de verificação de drogas, que fornece, sem fazer perguntas, testes das drogas trazidas pelos participantes, junto com informação relevante sobre segurança e uso. Localizada na zona de saúde e bem estar, ao lado dos primeiros socorros e no coração da aldeia do festival, a tenda fica aberta 17 horas ao dia e é operada por uma organização local sem fins lucrativos chamada AIDS Network Kootenay Outreach and Support Society (ANKORS). Tem 45 voluntários e três pessoas pagas trabalhando. Os voluntários incluem enfermeiras, conselheiros e até funcionários do governo – o coordenador de redução de danos para a Autoridade de Saúde Interior da Columbia Britânica foi voluntário e este ano um empregado do Ministério da Saúde da Província fará o mesmo. Os voluntários são treinados no local em protocolos de testes, registro de dados, manuseio de reagentes, segurança e descarte da droga. Eles participam também da análise dos avisos, materiais de educação e prevenção e outros serviços de redução de danos disponíveis e como lidar com situações de emergência como uma agressão ou o colapso dum participante na tenda.

A tenda para testes de drogas contem seis estações de testes e às vezes a fila para fazer testar as drogas tem mais de 60 pessoas, com tempos de espera de duas horas ou mais. Depois de cada teste, os voluntários dizem à pessoa que trouxe a substância qual é o ingrediente principal – a não ser que o teste não dê resultados – e em alguns casos poderão também informar se têm outras substâncias ou químicos presentes. Os visitantes recebem também informação detalhada sobre a droga, como por exemplo, sua reação com outras drogas, informação sobre as doses e os sinais de overdose. O voluntário registra os resultados do laboratório numa base de dados que permite a busca por tendência que é enviada à equipe médica no terreno. Se um padrão emerge – se os comprimidos verdes com o logo Playboy Bunny vendidos como ketamina contêm de fato methoxetamina, uma droga dissociativa mais poderosa, por exemplo – o pessoal pode alertar os serviços médicos e os participantes do festival. 

O processo permite uma transparência que é essencial tanto para os participantes do festival como para o pessoal médico, disse Stacey Lock, diretor de redução de danos em Shambhala. “Se alguém aparecer em mau estado na tenda médica, podemos levar o que tiver no seu bolso e testá-lo,” ela disse. “Isso ajuda a proporcionar o melhor serviço médico a essa pessoa. Eu de fato não conheço nenhum outro festival que faz isso.” O uso dos serviços cresceu em 25% ou mais a cada ano desde que foi lançado em 2002. O ano passado, 3.224 comprimidos e pós foram testados no local. Uma morte relacionada às drogas ocorreu durante os 19 anos do festival, em 2012, de acordo com Lock. Um relatório de toxicologia do falecido encontrou morfina, diazepam, cocaína, MDMA e GHB em seu corpo.

festival safety securityfest techA CrowdRx fornece serviços médicos para uma variedade de grandes eventos, incluindo o festival Mysteryland USA, um evento EDM organizado pelo promotor Holandês ID&T.

A tenda é amplamente apoiada pela comunidade e pelo governo da Columbia Britânica - a província outorgou recentemente 25.000 dólares à ANKORS para preparar um manual que ajude outros eventos a replicar as práticas de testes de drogas. Mesmo assim, Chloe Sage, diretora do programa de redução de danos em festivais da ANKOR, ouve muitos cépticos questionando se sua organização está encorajando o uso de drogas e se está dando às pessoas um falso sentimento de segurança. 

Ambas as perguntas deixam de fora o essencial, ela disse. “O fato é que esses serviços são utilizados por pessoas que tomaram a decisão de consumir drogas antes de encontrar-se conosco. Nós estamos para ir a seu encontro – não encorajamos as pessoas e não as julgamos,” disse Sage, indicando que todos os visitantes devem ler um aviso que destaca os riscos das drogas. Os visitantes recebem também material de informação. “Cada contacto que temos é uma oportunidade de discutir com uma pessoa que tenciona usar drogas, antes que as consuma, sobre como pode ficar mais segura,” disse Sage. “Se nós tivéssemos apenas uma tabela e uma série de panfletes sobre isso, nunca teríamos o tipo de contacto que temos, mas estamos oferecendo um serviço que as pessoas querem.”

Um motivo principal da importância dos testes de drogas, dizem seus defensores, é a explosão da adulteração e de novas substâncias psicoativas durante a última década. Introduzindo pequenas alterações químicas, os fabricantes e os vendedores podem ficar um passo a frente da lei, vendendo substâncias poderosas que não estão tecnicamente na lista das drogas controladas. De acordo com os dados dos testes de drogas compilados pela ANKORS em Shambhala, aproximadamente 30% das substâncias que as pessoas trazem não são o que eles pensavam. Os comprimidos são os piores infratores; em 45% dos comprimidos testados, o ingrediente principal estava mal representado. Aproximadamente 90% da cocaína testada o ano passado continha algum adulterante e perto de um quarto das amostras estavam cortadas com levamisole, um antiparasita para gado.

Em testes que revelam uma substância desconhecida ou excessivamente perigosa, ou algo diferente do esperado, aproximadamente um terço dos participantes descarta a droga nas caixas de lixo da tenda, de acordo com os dados da ANKORS. Sage disse que ela suspeita que muitas mais drogas são descartadas ou devolvidas aos vendedores quando os visitantes deixam a tenda.

“Se não estivéssemos aqui, as pessoas não teriam nenhuma informação sobre as substâncias que estão tomando,” disse Sage. “As pessoas pensam que aqueles que usam drogas não têm cérebro, mas as pessoas que usam drogas e vêm à nossa tenda são muito conscientes dos riscos e querem informação para se manter a salvo. Eles estão tão agradecidos, agradáveis e cooperativos. Recebemos muito carinho dos hospedes dos festivais”. J.R.

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Fest Tech

Nova tecnologia para gerenciamento de multidões e os “benefícios em cascata” que traz lidar cedo com os incidentes

Não são apenas as pessoas no terreno que tornam os festivais mais seguros para os participantes. Existem também cada vez mais ferramentas sofisticadas que os gerentes de emergências e as autoridades estão utilizando ou desenvolvendo para ajudá-los a observar aquilo que está acontecendo e responder mais rapidamente às emergências.

Sistemas avançados de câmaras de segurança

Câmaras em posições estratégicas já foram usadas amplamente para segurança e fiscalização em festivais e os sistemas e aplicações estão se tornando cada vez mais avançados. Por exemplo, no ano passado, no Download Festival em Donington no Reino Unido, a polícia utilizou câmaras com reconhecimento facial para examinar os participantes nas entradas. As imagens eram cruzadas com uma base de dados de imagens de vigilância de toda a Europa para apreender criminosos procurados. Nos Estados Unidos, a cidade procedeu a uma contratação controvertida da IBM para testar programas informáticos de vigilância durante o festival de música Boston Calling, realizado em 2013 no centro da cidade, que deram às autoridades imagens detalhadas e ao vivo dos participantes do concerto, transeuntes e veículos dentro e fora do evento, sem seu conhecimento. Os programas associados podiam analisar os vídeos e fornecer alertas automáticas se alguém entrasse numa área protegida, por exemplo, e podiam até ser programados para seguir indivíduos suspeitos no local. A cidade manteve a experiência de segurança em secreto, mas uma controvérsia explodiu mais tarde quando um jornal local publicou os detalhes, provocando uma condenação ampla por parte dos defensores de direitos civis que alegavam que a privacidade dos participantes tinha sido violada.  

O festival Rock in Rio no Rio de janeiro, Brasil, utilizou provavelmente o maior e mais sofisticado sistema de câmara de segurança em festivais dos últimos anos no mundo. No ano passado o festival instalou 61 câmaras, incluindo 44 câmaras de alta definição colocadas em todo o recinto, duas câmaras a 360 graus, 14 câmaras móveis de alta definição e uma câmara térmica, todas conectadas a duas estações de comando de monitoramento. 

Sistemas de gerenciamento de multidões

Embora ainda estejam em desenvolvimento, as câmaras infravermelhas, os drones e vários outros sensores têm um grande potencial de uso em festivais como ferramentas de gerenciamento de multidões, dando às autoridades um melhor panorama dos movimentos da multidão, da densidade de pessoas num dado lugar e como as dinâmicas das multidões podem ser aprimoradas. Pesquisadores da Universidade de Rutgers, por exemplo, estão desenvolvendo um algoritmo de computador, alimentado por dados em tempo real a partir de câmaras colocadas em lugares estratégicos, que pode quantificar o estado atual da multidão e dar sugestões sobre a melhor maneira de aprimorar os fluxos da multidão ou alterá-los quando necessário, como por exemplo, no caso de ser precisa uma evacuação massiva. Drones aéreos são também cada vez mais utilizados para dar aos gerentes de multidões uma vista aérea dos movimentos das multidões e lhes permitem ver pontos de estrangulamento, como um contêiner de lixo mal localizado, e introduzir alterações quase em tempo real.

“Os esmagamentos de multidões são um perigo real, e esses sensores de dados nos permitem tomar melhores decisões proporcionando aos organizadores melhores informações sobre as causas dum problema em curso”, disse Joseph Pred, um consultor de segurança de grandes reuniões de público temporárias. “Penso que à medida que a tecnologia se desenvolve, veremos muito mais dessas coisas se tornando normais.”

Pulseiras de rastreamento e aplicações

As aplicações para celulares em festivais e as pulseiras de admissão inteligentes utilizando chips de identificação por frequência radio (RFID, da sigla em inglês) são cada vez mais usadas em grandes eventos como Coachella, o festival anual de música e artes da Califórnia do Sul. Esses permitem aos organizadores o rastreio geral do movimento dos participantes no recinto do festival, enviar informação aos participantes com base em sua geolocalização – por exemplo, mensagens de marketing, ou mensagens de emergência como uma tempestade iminente – assim como permitir um melhor gerenciamento da entrada ao recinto do festival restringindo o acesso se houver demasiadas pessoas numa área, ou restringir o acesso a certas áreas a participantes com pulseiras especificas. As pulseiras RFID estão ligadas a uma conta online onde os participantes podem introduzir a informação de seu cartão de crédito para pagar alimentos e bebidas com a pulseira. Em alguns casos, os participantes podem também introduzir digitalmente nas pulseiras informação médica de emergência, que um médico presente no local pode acessar simplesmente passando a pulseira por um escâner em caso de emergência.

Sistemas de texto 911

Em muitos estádios esportivos e cada vez mais em festivais, foram montados sistemas para proporcionar aos participantes uma linha direta de comunicação com os centros de gerenciamento de incidentes por meio de mensagens de texto. Os especialistas de segurança notaram que é pouco provável que os participantes se deem ao trabalho de procurar um membro do pessoal para comunicar uma ocorrência, mas que as mensagens são uma forma rápida e fácil para mudar isso. O número para enviar mensagens é indicado de forma visível em todo o recinto e os participantes do festival são encorajados a usá-lo – e muitos fazem isso, de acordo com Pred. “Se você tiver 25.000 pessoas num evento e 250 membros do pessoal de segurança, ainda que apenas 20% das pessoas conheçam e usem o sistema de mensagens de texto, você terá um fator multiplicador e aumentará de forma massiva a velocidade de informação sobre os incidentes,” disse Pred. “Isso é essencial porque os incidentes reportados mais cedo são muito mais fáceis de resolver do que aqueles que já cresceram, como um incêndio, um problema médico ou uma briga. Se você receber a informação logo no início, terá todos esses benefícios em cascata.”  

Share

nós

Quem nós Somos

A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.