Ameaça Interna
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Ameaça Interna

Por James k. Lathrop

acabadosinteriores 498x130Os acabamentos internos contribuíram para alguns dos incêndios mais mortíferos de todos os tempos em locais de reunião de público, e os novos materiais de construção continuam a causar preocupação nas comunidades de combate a incêndio e segurança.


A comunidade de proteção contra incêndios reconheceu há muito tempo que os acabamentos internos podem apresentar riscos sérios para a segurança. Eles foram uma das causas principais de perda de vidas numa série de incêndios significativos em locais de reunião de público, desde o incêndio do Cocoanut Grove em Boston, Massachusetts (492 mortes), em 1942, até o incêndio do Beverly Hills Supper Club em Southgate, Kentucky (165 mortes), em 1977, o incêndio do clube noturno The Station em 2003 em West Warwick, Rhode Island (100 mortes), o incêndio da Cromagnón em Buenos Aires, Argentina do 2004 (193 mortes), e o incêndio da Boate Kiss em Santa Maria, Brasil (mais de 240 mortes). Os incêndios recentes na boate Kiss e noutros lugares demonstram que não é apenas uma questão histórica, mas um problema permanente.



Quase um século atrás, os elementos de acabamentos internos como os painéis a base de celulose (madeira, papelão prensado, aglomerado) e as chapas para forros a base de celulose – aquelas chapas de forro de teto de um pé quadrado que eram usualmente coladas aos tetos de gesso existentes e que, se estiverem ainda colocadas na atualidade, podem criar espaços combustíveis ocultos acima das placas minerais dos tetos suspensos – foram frequentemente citadas em artigos e relatórios sobre incêndios. Nos anos 60, o plástico celular ou expandido se tornou o tópico quente para os acabamentos internos. A combustibilidade desses materiais assumiu uma importância tão grande que o governo federal se envolveu e a indústria dos plásticos assinou um compromisso de cessação com a Comissão Federal de Comercio sobre a promoção desse tipo de produtos. Os incêndios do The Station e da boate Kiss nos lembraram de que os produtos de plástico celular ou expandido ainda estão sendo usados de forma indevida e que podem contribuir a incêndios resultando num grande número de mortes.

Entretanto, outros materiais potencialmente problemáticos emergiram e são amplamente utilizados numa variedade de edifícios, incluindo locais de reunião de público. Novos produtos como o polipropileno (PP) e os polietilenos de alta densidade (PEAD) são cada vez mais populares, mas se não forem tratados podem apresentar sérios desafios de segurança em caso de incêndio. Os códigos lidam com esses assuntos emergentes, mas só veremos uma aplicação adequada dos códigos quando as pessoas tiverem consciência da ameaça e dos requisitos concebidos para lidar com ela e quando as jurisdições utilizarem as edições mais atualizadas dos códigos.

Testando a evolução
A NFPA tem três documentos principais que lidam com os acabamentos internos, incluindo o NFPA 101®, Código de Proteção da Vida, o NFPA 1, Código de Incêndios e o NFPA 5000®, Código de Construção e Segurança das Edificações. As exigências sobre acabamentos internos do NFPA 1 foram extraídos do NFPA 101, e as provisões do NFPA 5000 são as mesmas que as provisões do NFPA 101 para as novas construções. Sendo assim, tem sentido concentrar-se no NFPA 101. Embora o Código Internacional de Construção (IBC) e o Código Internacional de Incêndio (IFC) do Conselho Internacional de Códigos (ICC) abordem o tema de forma diferente, as exigências acabam sendo parecidas e, em muitos casos, idênticas. As edições atuais desses códigos lidam todas com questões de acabamentos internos e incluem novos requisitos para o PP e o PEAD.

Os acabamentos internos são definidos no NFPA 101 como as superfícies expostas das paredes, dos tetos e dos pisos no interior dos edifícios. (Contudo, os pisos não estão incluídos nesta discussão: tiveram sua regulamentação própria desde 1981 e não são sujeitos aos testes realizados sobre os acabamentos internos de paredes e tetos.) Os acabamentos internos de paredes e tetos são definidos como paredes e divisórias fixas ou moveis, painéis e acabamentos acolchoados aplicados estruturalmente ou para decoração, correção acústica, isolamento de superfície ou outros fins. Armários combustíveis que não sejam de madeira são também tratados como acabamentos internos. O anexo do NFPA 101 esclarece que as divisórias de lavatórios e banheiros devem ser também tratadas como acabamentos internos.

O NFPA 101 estabeleceu as regras para os acabamentos internos desde os anos 20, quando era conhecido como Código de Saída dos Edifícios, e lidou com problemas específicos de plásticos celulares ou expandidos desde 1976. Os plásticos celulares ou expandidos contribuíram para uma série de grandes incêndios em diferentes ocupações, incluindo clubes noturnos e outros locais de reunião de público. Por causa da combustibilidade potencial dos plásticos celulares ou expandidos, o código inclui requisitos estritos quando esses materiais ficam expostos como acabamentos internos.

De acordo com o NFPA 101, a única opção é avaliar esses produtos em testes de grande escala que meçam as características de combustibilidade e de emissão de calor para o uso pretendido em condições reais de incêndio. O teste deve ser executado com o plástico expandido instalado com a configuração real de utilização. Uma forma de avaliação é o teste descrito na NFPA 286, Métodos Padrão para Testes de Fogo para Avaliar a Contribuição dos Acabamentos Internos de Paredes e Tetos para o Crescimento do Fogo numa Sala. Os testes desenvolvidos pelo Underwriters Laboratories e a FM Global também são aceitáveis. Quando um teste não avalia a emissão de fumaça, o material deverá ser submetido a testes adicionais de acordo com a NFPA 286 para obter os dados necessários sobre a emissão de fumaça.

Ultimamente, os códigos da NFPA determinaram que o PP e o PEAD exigem uma consideração especial quando utilizados em acabamentos internos. As divisórias de banheiros, os armários em escolas e locais de trabalho e aquilo que se conhece como paredes divisórias – por exemplo, paredes compartilhadas como as que dividem espaços de usos diferentes para separar as atividades – são amostras comuns de produtos ou elementos de construção que podem ser feitos desse tipo de material. Tanto os códigos da NFPA como o do ICC foram revistos para esclarecer que esses tipos de produtos são considerados como acabamentos internos.

O PP e o PEAD são tipos de plásticos e, se forem expostos ao fogo sem ter sido tratados, podem queimar, derreter e pingar, resultando naquilo que se pode descrever como um incêndio de líquido inflamável no piso. O fogo não só produz um calor significativo como também abundante fumaça. Testes recentes do tipo room-corner (canto de sala) demonstram que as divisórias de PEAD não tratado podem causar uma combustão súbita generalizada num quarto em menos de 10 minutos. Embora esse tempo possa parecer muito comparado com alguns produtos, o incêndio resultante, que imita um incêndio líquido inflamável, assim como a produção de calor e fumaça, demonstra a existência dum sério problema. Alguns fabricantes acrescentam retardantes de chamas durante o processo de fabricação, para reduzir o risco de incêndio apresentado por esses materiais.

O teste tradicional do “túnel” utilizado em todos os acabamentos internos (ASTM E84, Método Padrão para Teste de Características de Combustão da Superfície de Materiais de Construção) avalia os materiais sem considerar se estão destinados a paredes, tetos, ou pisos – todos os materiais são testados no teto do túnel. A conclusão foi que, por causa da natureza do PP e do PAED, o teste ASTM E84 era inadequado e que os testes descritos na NFPA 286 são a forma adequada de regulamentação para esses materiais. (Ver “teste antigo, novo teste”.) Isso é parecido com aquilo que aconteceu com os plásticos expandidos nos anos 60, quando se determinou que o teste do túnel não era adequado para um produto específico e que eram precisos testes em escala real.

Todos os principais códigos modelo dos Estados Unidos requerem agora que os acabamentos internos utilizando PP ou PEAD sejam testados de acordo com a NFPA 286. Esse teste em escala real é muito melhor para determinar o risco apresentado pelo acabamento interno, especialmente com certos plásticos que podem gotejar ou derreter e pingar no chão. O Capítulo 10 da edição 2012 do NFPA 101 estabelece que os materiais de PP e PEAD não podem ser utilizados se não forem testados de acordo com a NFPA 286 e que os testes devem ser realizados num conjunto terminado com a espessura máxima prevista para o uso.

Os critérios aprovado/reprovado para um produto aplicando a NFPA 286 não estão incluídos na norma sobre método de teste, uma prática cada vez mais comum nos métodos de teste tanto da NFPA como da ASTM. A prática aceita é incluir os critérios aprovado/reprovado nos vários códigos de construção, de incêndio e de segurança humana. Os critérios aprovado/reprovado do NFPA 101, por exemplo, estabelecem que numa exposição de 40 kW (os primeiros cinco minutos) as chamas não se propagarão ao teto; numa exposição de 160 kW (os 10 minutos seguintes) as chamas não se propagarão à extremidade externa da amostra em qualquer parede ou teto; a combustão súbita generalizada, como descrita na NFPA 286, não deverá ocorrer; a taxa máxima de desenvolvimento de calor durante todo o teste não deverá exceder 800 kW; para as novas instalações, existem limites para a quantidade total de fumaça que pode ser produzida durante todo o teste.

Mesmo se muitas jurisdições fazem referência a edições mais antigas de códigos e normas, o PP e o PEAD deveriam ser testados de acordo com a NFPA 286 e cumprir os critérios aprovado/reprovado das edições mais recentes dos códigos modelo. Qualquer arquiteto, projetista de interiores, especificador ou empreiteiro que prevê a utilização de PP ou PEAD como acabamento interno deveria requerer relatórios de testes dum laboratório independente acreditado mostrando que o material cumpre esses requisitos. 

James K. Lathrop é vice-presidente da Koffel Associates, Inc., e ex-engenheiro chefe de segurança humana na NFPA. 


Teste antigo, Teste Novo
Porque a NFPA 286 foi escolhida para testar os plásticos que derretem e pingam

Todos os principais códigos nos Estados Unidos requerem agora que os acabamentos internos utilizando polipropileno ou polietileno de alta densidade sejam testados de acordo com a NFPA 286, Métodos Padrão para Testes de Fogo para Avaliar a Contribuição dos Acabamentos Internos de Paredes e Tetos para o Crescimento do Fogo numa Sala. Esse teste em escala real é melhor para determinar o risco apresentado por um acabamento interno – especialmente com alguns plásticos que podem gotejar ou se derreter e cair no piso – do que seu predecessor, o ASTM E84, Método Padrão para Teste de Características de Combustão da Superfície de Materiais de Construção, conhecido também como “teste do túnel”.

Apesar de já terem sido estabelecidas em1924 no Código de Saída dos Edifícios da NFPA, as provisões para os acabamentos internos foram refinadas no NFPA 101 nos anos 50, quando todos os acabamentos internos eram avaliados utilizando o teste do túnel, desenvolvido nos anos 40 pelo Underwriters Laboratories e chamado assim pela forma de túnel do aparelho de teste. Nesse método de teste todos os acabamentos internos, independentemente de seu uso pretendido no mundo real – paredes, tetos ou pisos – eram testados no “teto” do aparelho (A ASTM está atualmente desenvolvendo um teste que inclui amostras montadas no chão.) O queimador a gás era colocado numa extremidade, uma corrente de ar era induzida no túnel e o operador do teste seguia a frente da chama utilizando painéis de observação colocados no lado do túnel. O teste produzia a propagação da chama utilizando uma escala relativa, onde a chapa de fibrocimento tinha um valor 0. Esse índice era traduzido nos códigos numa classificação de “A”, “B” ou “C”, com “C” indicando o nível mais alto de propagação de chamas permitido. Uma propagação de chama com um índice entre 0 e 25, como determinado no teste ASTM E84, pertence a classe A; uma propagação de chama de 26-75 é de classe B e 76-200 é de classe C. Determina-se também um índice de desenvolvimento de fumaça para descrever quão densa, ou preta, é a fumaça; a toxicidade e outros dados importantes não são medidos, registrados ou reportados. Os projetistas, especificadores e outros intervenientes deveriam desconfiar dos fabricantes que oferecem apenas um índice de propagação da chama, mas não proporcionam informação sobre o índice de desenvolvimento da fumaça.

Nos anos 60, determinou-se que o teste do túnel não era adequado para materiais que se derretem e gotejam a partir da superfície inferior do teto, como plásticos celulares ou expandidos expostos e que um teste em escala real seria mais exato para determinar o desempenho desses materiais nos incêndios.  Ao longo do tempo a NFPA 286 foi desenvolvida como teste room-corner em escala real, onde o quarto de teste tem 8 pés de largura, 12 pés de cumprimento e 8 pés de altura. O teste tem muitas vantagens sobre o teste do túnel, começando pelo fato que o produto testado é instalado como o seria no mundo real: os materiais de parede na parede, os materiais de teto no teto. É preferível testar os materiais de parede numa orientação vertical, especialmente para os plásticos, porque vão gotejar ou fluir como o fariam em incêndios reais.

O teste da NFPA 286 cria também uma queima realista, utilizando um fogo de difusão de gás de 40 kW nos primeiros 5 minutos, parecido à queima dum cesto de lixo, seguido dum fogo de difusão de gás de 160 kW nos 10 minutos seguintes, parecido à queima duma grande bolsa de resíduos cheia de toalhas de papel. Além disso, o teste fornece dados obtidos em situação real em lugar de aplicar uma escala arbitrária. Dados como as taxas de emissão de calor, o calor total produzido, o consumo de oxigênio, o monóxido de carbono e a fumaça total produzida são também medidos e fornecidos como parte da informação do produto. Obtém-se também informação sobre outros gases, como o cianeto de hidrogênio ou o cloreto de hidrogênio. Os testes em escala real fornecem dados melhores para alguns materiais, mas são também mais caros; um teste de túnel pode ser executado por menos de 1000 dólares, enquanto um teste room-corner custa aproximadamente 5000 dólares, mais o custo adicional do material para o teste.

O capítulo 10 da edição 2012 do NFPA 101 estabelece que os materiais de PP e PEAD não são permitidos como acabamentos internos de paredes e tetos, a não ser que tenham sido testados de acordo com a NFPA 286 e que os testes sejam realizados num conjunto terminado com a espessura máxima prevista para o uso. Para mais informação, visite nfpa.org/286.

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