Protegendo São Patrício
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Ocupações Institucionais/Culturais

Protegendo São Patrício

Por Jesse Roman

sistema de nieblaPor que uma catedral emblemática da cidade de Nova Iorque decidiu incluir um sistema de água nebulizada num amplo projeto de restauro

 

U m trabalhador da construção acena para mim. Ele pergunta: “Quer ver algo incrível?”.

Considerando o local onde estamos – a torre norte da Catedral de São Patrício, 10 pisos acima da agitada 5ª avenida – estou preparado para qualquer coisa. Ele me convida a segui-lo por uma estreita passagem e subir por uma curta rampa. Chega ao pé duma grande abertura retangular na parede de pedra da catedral e olha para fora. Logo atrás da abertura uma estreita tábua de madeira está pendurada fora da torre.

Ele me conta que senta aqui muitas vezes durante suas pausas, empoleirado entre os florões de pedra da catedral, com Manhattan que se estende a seus pés. “É o melhor lugar do mundo para almoçar”, diz ele, um sorriso na sua cara roliça debaixo do capacete colocado no topo da cabeça.

 

Mas eu não estou aqui para ver a sala de jantar com vista, nem o novo mármore cintilante da catedral ou os vitrais luminosos – estou aqui para ver o sótão poeirento.

Aproximadamente a 50 pés da sala de jantar empoleirada do meu novo amigo, nessa torre outrora oca, se encontra a nova sala de máquinas do moderno sistema de proteção contra incêndio por água nebulizada da catedral. A sala – basicamente uma caixa de 170 pés quadrados – abriga 24 tubos vermelhos de gás de nitrogênio de aproximadamente cinco pés de altura; um tanque de água metálico de 1000 galões e uma floresta reluzente de tubos, válvulas e alavancas. Daqui, as tubulações de aço inoxidável atravessam os seis pés de espessura da parede de tijolos da torre e se distribuem no sótão de 33,000 pés quadrados que cobre quase toda a base da estrutura histórica.

A instalação do sistema de água nebulizada faz parte dum projeto de restauro monumental de 177 milhões de dólares, o maior nos 135 anos de história da catedral. Durante os últimos dois anos, até 200 trabalhadores por dia invadem os cantos mais remotos da catedral, dentro e fora, erguendo andaimes, limpando a pedra, restaurando as portas de bronze e os vitrais, instalando novos sistemas de aquecimento e resfriamento, entre outros. Os trabalhadores começaram a instalar o sistema de água nebulizada em março de 2013, utilizando a NFPA 750,Norma para Sistemas Proteção Contra Incêndios de Névoa D’Água e apoiando-se em grande parte nas orientações fornecidas pelo fabricante, a Marioff Corporation. O sistema recebeu a aprovação mecânica do corpo de Bombeiros da Cidade de Nova Iorque (FDNY, da sigla em inglês) em novembro de 2013.

“A NFPA 750 diz que você deve viver e morrer pelo manual DIOM (projeto, instalação, operação e manutenção), diz Tom Newbald, diretor no Landmark Facilities Group, os consultores de engenharia que ajudaram a projetar o sistema de névoa d’água da catedral. “Contamos com a NFPA 750 e a NFPA 13, Norma para a Instalação de Sistemas de Sprinklers, também deu sua contribuição E também o Manual DIOM da Mariott.”

O sistema de água nebulizada custou aproximadamente 1,1 milhão de dólares, excedendo em quase 350,000 dólares o custo dum sistema tradicional de sprinklers, de acordo com a Structure Tone, Inc., a empresa encarregada da direção de obra do restauro. De acordo com Newbold, só existe um outro sistema de supressão na catedral, localizado numa pequena área do porão protegida por sprinklers. Uma paróquia contígua, fisicamente conectada, mas tecnicamente separada da catedral, tem um sistema completo de sprinklers de tubulação úmida que foi acrescentado quando a estrutura foi reformada há aproximadamente quatro anos atrás. Os responsáveis da catedral dizem que desde que abriu as portas até hoje, São Patrício não sofreu nenhum incêndio significativo.

Por décadas, os responsáveis da catedral resistiram à instalação de sistemas de supressão de incêndio no sótão, por medo dos efeitos que a água poderia ter sobre a estrutura histórica – embora, como o alertam os bombeiros, o impacto dum sistema de sprinklers na catedral seria significativamente menor do que os efeitos dum incêndio ou da quantidade de água utilizada durante as operações de combate ao incêndio. Trabalhando com o FDNY, junto com os projetistas e instaladores dos sprinklers, os responsáveis da catedral adotaram uma solução que constitui para eles um nível aceitável de proteção contra incêndio acomodando ao mesmo tempo os requisitos estruturais únicos dum ícone cultural venerável.

“Houve muitos desafios de engenharia, não só do ponto de vista mecânico, mas também no aspeto estrutural,” diz Ron Pennella da Structure Tone, diretor de projeto e um de meus guias na visita detalhada ao sistema. “Não existe um sistema igual a este no país.”

SanPatDiagrama 200x392“Uma caixa de gravetos”
Ocupando um quarteirão inteiro no centro de Manhattan, São Patrício é a maior catedral católica romana de estilo neogótico nos Estados Unidos, com torres que se elevam a 330 pés acima da rua e bancos que podem receber até 2400 fiéis. A construção começou em 1858 e a catedral abriu as portas em 1879. Ela recebeu um papa, foi o local de serviços memoriais e funerais destacados – desde Babe Ruth e Vince Lombardi a Robert F. Kennedy e Andy Warhol, entre outros – e tem sido um lugar preferido de casamento da elite social de Nova Iorque. É um ícone emblemático para os turistas, atraindo mais de 5.5 milhões de visitantes a cada ano, de acordo com o site stpatrickscathedral.org.

Em 2012, a catedral anunciou o lançamento dum ambicioso projeto de restauro de três anos, que incluía o reparo e a limpeza do mármore exterior, a limpeza de suas janelas de vitrais, aprimoramento de sistemas e outros.

Quando chego à catedral uma segunda-feira de manhã do mês de julho, a extensão do trabalho é evidente: os andaimes cobrem grande parte do exterior da catedral. No interior, o contraste entre as colunas góticas altas e elegantes e a gaiola industrial de andaimes que as envolve é surrealista. Trabalhadores protegidos por capacetes, coletes de segurança e botas arrastram cordas pesadas ao lado de crentes absortos na oração. Outros trabalhadores trepam nos andaimes enquanto a voz estentórea do sacerdote dá as boas vindas à missa aos visitantes.

Junto com Pennella, meus guias da visita do novo sistema de água nebulizada são Newbold e Kate Monaghan, assistente de direção de comunicações da Arquidiocese de Nova Iorque. Juntamo-nos na entrada da catedral na 5ª Avenida e Pennella nos guia através duma porta indistinta para dar início a uma subida vertiginosa por uma série de escadas em caracol. Finalmente chegamos a um pequeno patamar rodeado de janelas na metade do caminho do topo da torre sul da catedral. Gerações de bombeiros da Cidade de Nova Iorque se juntaram aqui para treinar para um eventual incêndio no sótão ultra seco. Vemos as provas da sua presença nas janelas estreitas e altas que rodeiam o patamar. Dúzias de nomes e datas foram traçados com a ponta do dedo na poeira e fixados permanentemente pelo sol. Alguns nomes datam do século 19, imediatamente depois da abertura da catedral e quatro pertencem a bombeiros que morreram nos ataques terroristas de 9/11.

O patamar se encontra na mesma altura do teto da catedral e é o ponto onde a torre se eleva para o céu atrás do edifício principal. Deixamos as escadas em caracol que continuam até o topo da torre e descemos por uma curta passagem onde uma escada nos leva até o sótão. O espaço cavernoso que cheira a madeira bolorenta e mofo está situado exatamente por cima do famoso teto decorado da catedral. Paradoxalmente, entre a pouca luz, o capacete de Pennella e o sistema de carrinho de alumino que foi construído para ajudar a instalar o sistema de água nebulizada, parece-me ter entrado num antigo poço de mina, não no sótão duma catedral a 110 pés acima da rua.

Olhando para cima desde o santuário, o teto parece ser construído com o mármore claro de Tuckahoe utilizado em outros lugares na catedral. Mas a passarela no sótão oferece um ponto de vista diferente; o teto não e de mármore. “São Patrício foi construída durante a Guerra Civil que, como podem imaginar, não foi o melhor momento para construir uma catedral,” diz Monaghan. “Para poupar dinheiro, o teto foi construído usando uma estrutura de madeira coberta de arame e gesso. O gesso foi pintado para ter o aspeto do mármore.”

Como resultado, o sótão é “uma caixa de gravetos”, diz Newbold, que é também bombeiro voluntário em Trumbull, Connecticut. É feito de grandes treliças de madeira maciça e uma tonelada de pequenas peças de madeira que são utilizadas para manter o gesso – para mim são gravetos.

O FDNY tentou durante anos a instalação dum sistema de sprinklers no sótão de São Patrício, mas a catedral resistiu. A ativação dum único sprinkler pode descarregar de 15 a 20 galões de água por minuto e os responsáveis da catedral receavam que o peso da água acumulada, aproximadamente 8.3 libras por galão, fosse demasiado para o teto frágil.

“O teto poderia ruir”, diz Monaghan. “Esse foi sempre um desafio singular em São Patrício e é a razão principal pela qual escolhemos o sistema de água nebulizada”. Com muitas reformas de grande envergadura programadas e uma campanha de arrecadação de fundos em curso, os responsáveis da catedral decidiram que já tinha chegado o momento de lidar com a ameaça de incêndio potencialmente catastrófica no sótão.

Newbold e sua equipe projetaram um sistema de 246 bicos de água nebulizada distribuídos em oito zonas e três níveis de altura para cobrir o espaço do sótão desde as abas do telhado até ao piso. As tubulações de aço inoxidável emergem da sala de máquinas na torre norte e se estendem em linhas precisas em cada direção. Dos nodos saem ramais que terminam em bicos compactos apenas perceptíveis entre as enormes vigas e apoios do sótão.

Em caso de incêndio, os bicos mais próximos das chamas se ativariam, descarregando o ar comprimido das tubulações de aço. Uma mistura de água e nitrogênio, proveniente da sala de máquinas, seria lançada nas tubulações com uma pressão de mais de 1000 psi – mais de 10 vezes a pressão dum sistema de sprinklers convencional – e sairia pelos pequenos orifícios dos bicos de água nebulizada. O resultado seria uma densa nevoa cuja função é extinguir o fogo extraindo o calor, removendo o oxigênio que o alimenta e bloqueando o calor radiante. De acordo com Marioff, o fabricante do sistema, a névoa da catedral utiliza 3.3 galões de água por bico por minuto e as minúsculas gotas de água se evaporam ou se dispersam em lugar de juntar-se. A sala das máquinas contém gás e água em quantidade suficiente para que todos os bicos numa zona funcionem durante 30 minutos.

Para garantir a confiabilidade, o manual de instalação da Marioff impõe que os tanques de água e gás que alimentam o sistema estejam praticamente na mesma altura dos bicos de água nebulizada – por isso a sala de máquinas foi construída especialmente na torre norte. Mas localizar essa sala a 115 pés de altura acima do chão apresentou numerosos desafios, incluindo encontrar uma forma viável de trocar os tanques de nitrogênio ou outro equipamento. Para ajudara a resolver esse problema, os engenheiros utilizaram um elevador existente que percorre 35 pés desde o andar térreo até a galeria do coro. Para levar o equipamento pelo resto do caminho, os trabalhadores instalaram um sistema de içamento elétrico, que sobe 80 pés até a sala de máquinas.  

Outro acréscimo destinado a diminuir o impacto da altura da sala foi a utilização inovadora do sistema de câmaras de segurança da catedral. “Parte da NFPA 750 diz que é preciso um sistema de monitoramento para verificar regularmente os tanques e o nível de água,” diz Newbold. “A catedral já tem um sistema de circuito fechado, então colocamos as câmaras na sala de máquinas apontando para objetos diferentes, de forma que o pessoal de segurança possa verificar visualmente o sistema sem ter de deixar seu escritório.”

Enquanto percorremos a passarela do sótão, Pennella e Newbold indicam alguns dos desafios adicionais que enfrentaram para ajustar o sistema de água nebulizada a um espaço do século 19. Os engenheiros precisavam de uma forma de chegar às abas do teto e outras áreas remotas do sótão para instalar as tubulações e os bicos de água nebulizada de forma segura e eficiente sem danificar o teto de madeira e gesso abaixo. A solução envolvia a construção dum sistema permanente de carrinhos de alumínio leve por cima das passarelas existentes. O carrinho é operado manualmente; um trabalhador sobe no carrinho e se puxa ao longo do trilho usando o corrimão do sistema. O carrinho foi deixado no lugar para ajudar a manter o sistema de água nebulizada.

Quanto ao trabalho de instalação das tubulações, Pennella compara o processo com o ato de “forçar o pé num sapato muito apertado.” Os carpinteiros do século 19 construíram uma passarela de madeira para que os trabalhadores pudessem circular no sótão sem pisar o teto delicado abaixo. Os vários apoios das passarelas, contudo, não estão localizados com precisão, diz Pennella, o que dificulta o cumprimento dos requisitos da Marioff, que impõem uma instalação perfeitamente regular dos bicos de forma a ficarem eficazes e livres de obstruções. Como resultado, os instaladores tiveram de se adaptar a cada situação quando os desenhos não correspondiam com a realidade do edifício.

“Tomamos algumas iniciativas para ajustar o projeto de instalação ao local, porque os planos eram maiores do que o espaço realmente disponível” diz Pennella.

Instalar um sistema de água nebulizada pode também empregar mais mão-de-obra que o sistema tradicional de sprinklers, um factor importante no custo mais elevado dos sistemas de água nebulizada, de acordo com os empreiteiros. Tudo é mecânico, nada é soldado – é tudo apertado a mão, diz Newbold, mostrando uma linha de parafusos grossos. “Todos os acessórios, já que operam a 1000 psi, devem ser de compressão, o que requer uma enorme quantidade de trabalho de montagem,” ele diz. “Você deve ter certeza que tudo está bem apertado. Todas as curvas devem ser exatas.”

“O resultado é lindo – é como uma obra de arte,” diz Newbold. “É uma pena que esteja no sótão onde ninguém o pode ver.”

Trabalhar com os bombeiros
Para o FDNY, contudo, saber que o sistema está instalado já representa um passo significativo.

Anos atrás foram instalados hidrantes secos ao nível do sótão, que constituíam teoricamente uma fonte de água para os bombeiros. Mas, de acordo com os bombeiros, até conseguirem arrastrar as mangueiras e o equipamento pela escada em caracol durante um incêndio, seria provavelmente demasiado tarde para lançar um ataque efetivo ao incêndio no sótão. “Nossa melhor estimativa é que levaria provavelmente entre 20 e 30 minutos até poder jogar água no fogo nessa área,” diz Michael Myers, chefe do Batalhão 9 do FDNY.

Por outro lado, seria difícil acessar o edifício com escadas desde a rua, de acordo com Pennella, que trabalhou em estreita ligação com o FDNY na instalação do sistema de água nebulizada. “A cumeeira do telhado está a aproximadamente 140 pés de altura e apresenta um recuo em relação à rua”, ele diz. “Nessas condições os bombeiros não têm nenhum equipamento que possa entrar fisicamente no sótão e extinguir o fogo. Por isso eles aplicariam a técnica chamada ‘circundar e submergir’. Eles tentariam projetar água em arco para dentro do edifício.”

Defrontando-se com opções menos que ideais para combater um incêndio na catedral, o FDNY pediu por anos a instalação de algum tipo de sistema de supressão de incêndio no sótão da catedral – “acredito que eu e meus predecessores aproveitamos todas as oportunidades nos últimos 100 anos,” diz Myers. “Todos falamos com São Patrício sobre esse tema e defendemos a importância dum sistema de supressão de incêndio. Mas devido à obra de arte e a tudo o que se encontra ali, eles eram muito seletivos quanto ao sistema que iriam escolher. Mas sim, foi uma grande preocupação para nosso departamento durante muito tempo”.

Apesar de estar muito satisfeito por ter algum tipo de sistema de supressão de incêndio no sótão de São Patrício, fica claro que ele reserva seu parecer sobre o sistema de água nebulizada. Ele admite que até agora nem ele nem muitos colegas do FDNY encontraram um sistema desse tipo num edifício.

“No papel parece funcionar, mas ninguém sabe exatamente como reagiria [num incêndio],” ele diz. “Podemos olhar os testes, podemos ver aquilo que Marioff nos apresentou sobre seus testes e o trabalho que fizeram, mas até combater um incêndio real por meio dum desses sistemas é difícil dizer exatamente o que poderá acontecer.”

O FDNY esteve ativamente envolvido no processo de projeto e instalação em São Patrício. As equipes de projeto e os representantes da Marioff se reuniram muitas vezes com a equipe de Direção Técnica do FDNY e realizaram também várias caminhadas pelo sistema com funcionários ligados ao combate a incêndio. A Marioff se encontra também na primeira fase de produção dum video específico de treinamento sobre São Patrício, destinado ao FDNY, para que as companhias que respondam a um incêndio tenham algum conhecimento do sistema e como opera.

“Esse é um trabalho destacado,” diz Adam Tracy da Marioff. “Essa tecnologia é nova na cidade e o FDNY mostrou muito interesse em compreender como esse sistema funciona.”

As discussões com o corpo de bombeiros resultaram em pelo menos uma mudança, que Pennella mostra quando chegamos ao patamar da torre sul. A via de acesso mais fácil ao sótão é pelas escadas em caracol na torre sul. Devido ao fato que a sala de máquinas se encontra na torre norte – no outro extremo do sótão e na vizinha torre da fachada imponente da catedral – o corpo de bombeiros requereu a instalação dum interruptor remoto no patamar da torre sul; caso estiver bloqueado o acesso à sala de máquinas da torre norte, os bombeiros ainda poderiam desligar o sistema se for necessário. A opção de interruptor remoto, contudo, não estava no projeto da Marioff, nem nas orientações de instalação ou no manual de operações, por isso os projetistas tiveram de enviar o sistema para ser testado e aprovado, com um custo de 20000 dólares, antes de poder instalá-lo, diz Pennella.

“Houve custos adicionais para dar ao corpo de bombeiros aquilo que queriam, mas ter esses elementos era no melhor interesse dos bombeiros,” diz Pennella.

Essa afirmação poderia ser aplicada a todo o projeto. “Este é um dos edifícios emblemáticos de Nova Iorque, obviamente, e um de nossos edifícios mais famosos,” diz Myers, o chefe do batalhão 9 do FDNY: “Eu penso realmente que este sistema foi bem projetado. É incrível a quantidade de trabalho que foi investido nele.” 

Jesse Roman é redator do NFPA Journal.


Códigos culturais
Essência histórica e mais: um panorama dos códigos sobre ocupações culturais e históricas da NFPA

A NFPA 909, Código para a Proteção de Propriedades Consideradas Recursos Culturais – Museus, Bibliotecas e Locais de Adoração e a NFPA 914, Código para a Proteção Contra Incêndios de Estruturas Históricas, foram concebidas com o objetivo de lidar com o mesmo tipo de desafios que a catedral de São Patrício apresenta. “Cada código foi concebido para avançar na definição do tipo apropriado de medida de proteção para a situação,” diz Gregory Harrington, pessoa de contato do comitê técnico sobre recursos culturais da NFPA, que mantém ambos os códigos.  

O Capítulo 4 da NFPA 914 contém duas metas principais que constituem a base do projeto quando aplicados: a preservação histórica de estrutura e a proteção e segurança humana contra os efeitos dos incêndios. Os aspectos de preservação histórica incluem provisões que minimizam os danos causados pelo fogo e pela sua supressão às estruturas históricas ou materiais históricos; manter e preservar as configurações originais dos espaços dos edifícios históricos e minimizar a alteração, a destruição ou a perda de essência histórica ou desenho, onde “a essência histórica” representa o espírito daquilo que o edifício representa para a sociedade.

Harrington diz que os códigos e o comitê reconhecem a importância de manter a aparência e configuração originais dum edifício histórico. Os proprietários dos edifícios históricos e os conservadores culturais são avessos a instalar sistemas de proteção contra incêndio ou executar outras reformas que poderiam destruir a essência histórica do edifício. A flexibilidade é a chave e tanto a NFPA 909 como a NFPA 914 fornecem opções que combinam requisitos prescritivos, regras de projeto baseado no desempenho e gerenciamento de sistemas operativos para cumprir metas de alto nível. “Não queremos perder os tesouros históricos do mundo nos incêndios – uma vez que se foram embora, é para sempre”, diz Harrington. “Tampouco queremos perder a essência das características históricas do edifício durante as reformas e as atualizações destinadas a cumprir os códigos. A NFPA 909 e a NFPA 914 ajudam os proprietários e os projetistas dos edifícios a proporcionar a proteção necessária sempre mantendo o significado histórico e cultural único do edifício.”


A evolução da água nebulizada
Os códigos não consideram a água nebulizada tão efetiva como os sistemas tradicionais de sprinklers para controlar ou suprimir os incêndios, mas as aplicações alternativas da tecnologia estão aumentando. 

À SEMELHANÇA DE OUTRAS TEORIAS SOBRE A EVOLUÇÃO, a tecnologia de água nebulizada desenvolveu-se no mar e acabou chegando à terra. As primeiras aplicações de água nebulizada se encontravam em compartimentos fechados a bordo dos navios e mais tarde em navios de cruzeiros, nas áreas comuns como lojas e restaurantes. Devido ao fato que o consumo de água nebulizada é de 90% inferior ao dos sprinklers, a tecnologia permitia que os navios viajassem mais leves, sem embarcar pesadas cargas de água que desestabilizam o navio.

A água nebulizada chegou à terra nos anos 1990, quando os sistemas foram instalados em salas de compressores, compartimentos de turbinas e espaços de usinagem do setor petroleiro no Distrito de North Slope de Alaska, de acordo com Jack Mawhinney, engenheiro sênior na Hughes Associates e especialista de água nebulizada que esteve envolvido na pesquisa e desenvolvimento na indústria desde 1990.

“Aproximadamente na mesma época havia sonhos e visões sobre a utilização da água nebulizada para substituir os sprinklers em outras aplicações em terra,” diz Mawhinney, que foi membro do comitê sobre Sistemas de Supressão de Água Nebulizada e presidente do comitê quando a norma foi desenvolvida por primeira vez. “Mas foi uma evolução longa e difícil para chegar a esse ponto”.

Hoje, a tecnologia de água nebulizada tem quatro aplicações principais em terra: centros de dados, grandes instalações de cozinha comercial, instalações industriais e de geração de energia e propriedades do patrimônio cultural, de acordo com Adam Tracy, gestor de ventas na Marioff, um fabricante de sistemas de supressão a base de água nebulizada.

Já que os sistemas de água nebulizada utilizam muito menos água que os sistemas de sprinklers, são muito úteis em situações onde as fontes de abastecimento de água são pouco confiáveis. A cadeia internacional de Hotéis Marriott, por exemplo, instalou sistemas de água nebulizada em hotéis selecionados em todo o mundo, em lugares onde pode ser difícil conseguir água. Contudo, a aplicação mais comum da indústria de água nebulizada ainda é a dos setores industriais e de energia, seguido pelas propriedades do patrimônio cultural como São Patrício, diz Tracy.

Tendências culturais
Apesar da evolução dos sistemas de água nebulizada e do aumento de sua popularidade, os códigos dos Estados Unidos – incluindo o NFPA 1, Código de Incêndios, a NFPA 13, Norma para a Instalação de Sistemas de Sprinklers, o NFPA 101®, Código de Segurança da Vida, e o NFPA 5000®, Código de Construção e Segurança das Edificações – não consideram os sistemas de água nebulizada como equivalentes aos sistemas tradicionais de sprinklers para controlar e suprimir os incêndios. Os partidários da água nebulizada alegam que a tecnologia funciona de forma equivalente na maioria das áreas, e até melhor nalgumas situações. Outros defendem que a água nebulizada não foi comprovada e precisa de testes mais exaustivos antes de poder ser considerada como alternativa segura e adequada aos sprinklers tradicionais em todas as aplicações. Enquanto a NFPA 909, Código para a Proteção de Propriedades Consideradas Recursos Culturais – Museus, Bibliotecas e Locais de Adoração e a NFPA 914, Código para a Proteção Contra Incêndios de Estruturas Históricas, defendem a instalação de sprinklers, ambos os códigos permitem a água nebulizada como uma alternativa quando aprovada pela autoridade competente.

Nick Artim, diretor no Heritage Portection Group e membro de longa data do Comitê Técnico sobre Recursos Culturais da NFPA, disse que as partes envolvidas – engenheiros, empreiteiros, projetistas, fabricantes e outros – devem apressar-se para educar a comunidade de proteção contra incêndio sobre a água nebulizada. “Para muitas pessoas isso ainda é muito novo e posso perceber sua relutância”, disse Artim, que trabalha exclusivamente em edifícios do patrimônio cultural e fez parte do projeto e instalação de sistemas de supressão de incêndio de água nebulizada em Monticello – a casa de Thomas Jefferson em Charlottesville, Virgínia – e na antiga casa de James Madison. “Quando você diz a um chefe de bombeiros que o sistema opera com uma pressão de 1000 psi, seus olhos revelam um pensamento: ‘não quero isso no edifício’.”

Artim disse que para os edifícios que abrigam coleções importantes – ou, como Monticello ou a catedral de São Patrício, são eles mesmos obras de arte – os sistemas de água nebulizada oferecem um método alternativo de proteção em relação aos sistemas de sprinklers. Sistemas de supressão de incêndio a base de gás Halon 1301 foram utilizados por anos e até recentemente em ocupações como museus e bibliotecas. O Halon 1301 tinha-se tornado popular nesse tipo de aplicações porque podia extinguir o fogo sem danificar de forma irreparável os objetos delicados e muitas vezes insubstituíveis conservados nessas instalações. Porém, a produção de agentes de supressão a base de Halon foi proibida pela Agência de Proteção do Meio Ambiente dos Estados Unidos em 1998, após ter sido demonstrado que destruíam a camada de ozônio. Os gases também atacavam a pintura e resultavam em outros danos, disse Artim. Como alternativa, ele disse, “a água nebulizada se tornou de fato o vínculo entre o gás e os sprinklers tradicionais”.

Instalações de água nebulizada de alto perfil como Monticello e a catedral de São Patrício também ajudaram a acelerar a adoção da tecnologia em outras propriedades culturais, disse Tracy. “Quatro ou cinco anos atrás, você dizia ‘água nebulizada’ e as pessoas não sabiam de que estavam falando”, ele disse. “Agora as pessoas conhecem e etendem isso. Grandes projetos atraem muito mais interesse e abrem os olhos das pessoas para as possíveis aplicações.”

Mawhinney, que chamou a instalação em São Patrício “uma referência” na tecnologia de água nebulizada, concorda em que o melhor ainda está por chegar. “Houve poucas balizas ao longo do caminho e tivemos muito trabalho para tornar os códigos de incêndio e de edificações mais abertos à possibilidade de utilizar a água nebulizada,” ele disse. “Penso que nos próximos cinco anos veremos sem dúvida mais aplicações.”


Incêndios em igrejas
Um relatório recente revela que os sprinklers estão presentes em apenas 12% dos incêndios que envolvem propriedades religiosas. 

Em 1836, cinco anos após a colocação da primeira pedra da catedral de São Patrício na cidade de Nova Iorque, o maior desastre em termos de perda de vidas atingiu outra igreja a mais de 5000 milhas ao sul, em Santiago de Chile.

Milhares de pessoas, a maioria mulheres e crianças, estavam reunidas na igreja de La Compania em 8 de dezembro de 1863 para celebrar a festa da Imaculada Concepção. Para marcar o evento, aproximadamente 20,000 lâmpadas de gás foram acesas em todos os espaços disponíveis da igreja que datava do século 17, de acordo com os relatos publicados. Uma estátua de Virgem Maria se incendiou e o fogo se propagou em minutos. A única porta principal não era suficiente para que todos escapassem e muitos fiéis ficaram presos dentro da igreja. Um artigo do New York Times estimou que 2500 pessoas morreram no incêndio, mas outras estimativas publicadas indicavam números ainda mais altos.

Desde então, os incêndios em edifícios religiosos não atingiram o nível de destruição visto no incêndio de La Compania, mas ainda houve danos recentes significativos. De acordo com o relatório da NFPA “Incêndios Estruturais em Propriedades Religiosas e Funerárias nos Estados Unidos,” publicado no ano passado e disponível online em NFPA.org/research, houve em media 1600 incêndios a cada ano nos Estados Unidos desde 2007 até 2011 em igrejas, mesquitas, sinagogas, templos e capelas. Durante esse período, os incêndios nas estruturas religiosas resultaram numa média anual de danos à propriedade de 105 milhões de dólares e uma média de 16 ferimentos e duas mortes anualmente.

De acordo com o relatório, os sistemas de sprinklers estavam presentes em apenas 12% dos incêndios registrados. Quando havia sistemas de sprinklers de tubulação úmida, a perda média por incêndio foi de 18,000 dólares. Quando não havia sprinklers, a perda média foi de 67,000 dólares por incêndio ou 270% mais.

Aproximadamente um terço dos incêndios foi causado por operações de cozinha, enquanto o equipamento de aquecimento e os incêndios propositais contribuíram cada um como 16% do número total de incêndios. As velas e os raios corresponderam cada um a 4% dos incêndios registrados.

De acordo com o relatório, os incêndios em propriedades religiosas e funerárias diminuíram em 53% nos últimos 30 anos, de 3500 em 1980 a 1660 em 2011.

 

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