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Bombeiros / Socorristas

Nova fronteira

Por Ashley Smith

Enquanto os novos métodos de extração de petróleo e gás se estendem rapidamente pelo país, os corpos de bombeiros rurais – pequenos, voluntários e treinados principalmente em incêndios estruturais – enfrentam sérios riscos industriais quando as coisas correm mal


Pouco depois da meia noite de quatro de março de 2014, uma explosão seguida de incêndio ocorreu num local de extração de petróleo e gás perto de Greeley, Colorado, situado a uma hora aproximadamente ao norte de Denver. A explosão sacudiu as casas vizinhas, sacando os residentes de suas camas. As chamas eram visíveis a milhas de distância.

O incêndio foi causado por água de refluxo, uma mistura de água, detritos e substâncias inflamáveis que chegam à superfície dum poço de petróleo no processo de bombeamento. Um dos trabalhadores do sítio tinha estacionado um caminhão muito perto do poço e uma chispa do conversor catalítico do veículo acendeu a mistura, de acordo com Dale Lyman, inspetor de incêndio do Corpo de Bombeiros de Greeley, um dos vários corpos de bombeiros que responderam. Dois trabalhadores ficaram feridos.

A explosão apresentou um desafio aos bombeiros, disse Lyman. Os bombeiros precisavam tanto de água como de espuma para a supressão do incêndio, mas não tinham nenhuma das duas coisas no local; as equipes de emergência tiveram de esperar a chegada dos tanques de água e dum contêiner de espuma. Para um corpo de bombeiros mais acostumado a combater incêndios estruturais, esse incidente exigia não só os agentes de supressão adequados, como também o treinamento, o equipamento e a abordagem táticos adequados para lidar com o incêndio de forma segura e efetiva.

O risco de incêndio é alto nos locais onde se pratica a perfuração para extração de petróleo ou gás natural e o incêndio do líquido de refluxo foi apenas o último duma série de incêndios similares associados ao boom de perfurações na região. Greeley está situado no Condado de Weld, no Colorado, acima do rico jazigo de petróleo Niobrara Shale; existem 1600 poços ativos no condado, dos quais 400 em Greeley. De acordo com Lyman, durante os últimos cinco anos, aproximadamente doze incêndios ocorreram nesses locais. O corpo de bombeiros de 110 pessoas de Greeley não estava inicialmente preparado para enfrentar esse tipo de incêndios porque o boom das perfurações ocorreu rapidamente, ele disse.

O Condado de Weld não é o único. Os avanços nas técnicas de perfuração e exploração de petróleo e gás, como a quebra hidráulica (fracking) e a perfuração direcional produziram um aumento drástico das atividades de extração de petróleo e gás em muitas partes dos Estados Unidos, desde a Pensilvânia até o Montana e além, trazendo atividades e processos que podem não ser conhecidos pelas agências locais de combate a incêndio, muitas das quais têm pessoal voluntario treinado principalmente para combater incêndios estruturais. Muitas vezes os bombeiros não dispõem de água, equipamento, bombeiros, treinamento ou domínio suficiente para lidar com incêndios com uma quantidade tão grande de material inflamável concentrado numa única área.

Neal Nanna, chefe do Corpo de Bombeiros voluntários de Harmony, no oeste da Pensilvânia, onde as perfurações de poços de gás natural na formação Marcellus Shale aumentaram de forma significativa nos últimos cinco anos, disse que os bombeiros devem-se adaptar a um tipo completamente diferente de combate a incêndio. “O combate a incêndio normal e o industrial são duas coisas diferentes e nunca se misturaram realmente – mas agora estamos obrigados a fazer isso”, ele disse. “Você não pode enfrentar esses incêndios sem preparação - deve estar treinado”. E ainda não há muita formação disponível porque é uma coisa muito nova.

Regulamentar os locais de perfuração de petróleo e gás
Como parte do esforço para aumentar a produção de energia doméstica e reduzir a dependência do país do fornecimento externo, a produção de petróleo nos Estados Unidos vem aumentando desde 2008 e está prestes a atingir um recorde máximo, de acordo com dados da Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos. A produção total de petróleo se situava numa média de 9,2 milhões de barris por dia em dezembro 2014 e projetava-se alcançar os 9,3 milhões de barris por dia em 2015. Esta seria a segunda média anual mais alta registrada, superada apenas pelos 9,6 milhões de barris produzidos por dia em 1970. Para por a produção atual de petróleo em perspectiva, os Estados Unidos estão agora produzindo quase a mesma quantidade de petróleo que a Arábia Saudita, o líder mundial.

Esse aumento é devido à combinação de duas técnicas de perfuração avançadas utilizadas para estimular a produção de poços de petróleo e gás: o fracking e a perfuração direcional. O fracking utiliza uma mistura pressurizada de água, areia e químicos para quebrar formações rochosas e extrair o petróleo e o gás, enquanto a perfuração horizontal estende poços horizontalmente para extrair petróleo e gás duma área maior. As duas técnicas são, frequentemente, combinadas para aumentar a rentabilidade dos poços ou para extrair petróleo e gás de reservas que antes não eram accessíveis. As técnicas de extração avançadas não são inerentemente mais perigosas que as técnicas de extração mais antigas, diz Lyman, mas com a proliferação das perfurações, o número de acidentes aumentou.

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Não existem dados sobre o número de incêndios e explosões nos últimos anos nesses novos locais. Contudo, de acordo com uma análise da publicação EnergyWire sobre estatísticas federais do trabalho, a indústria de petróleo e gás, no seu conjunto, causa mais mortes em incêndios e explosões que qualquer outra indústria privada. É responsável de 10% das mortes em incêndios e explosões em locais de trabalho – 13 mortes em 2013, o último ano com dados disponíveis – apesar de empregar menos de um por cento da força de trabalho total, de acordo com EnergyWire.

O ambiente regulatório para a perfuração de poços de petróleo e gás é complexo. A agência que lidera o desenvolvimento de normas para esses processos é o American Petroleum Institute (API), um grupo industrial baseado em Washington, DC. O API estabelece normas de segurança que a maioria, senão todos os estados e muitas agências federais adotaram como regulamentos, de acordo com David Miller, diretor do programa de normas da organização. O API desenvolveu recentemente um conjunto de orientações e práticas recomendadas que tratam, entre outros tópicos, com a forma como as empresas de perfuração deveriam interagir com as comunidades e os socorristas e proporcionar-lhes informação, embora esses documentos não tenham sido ainda adotados formalmente pelos estados e agências federais, disse Miller. Contudo, muitos estados e varias agências federais têm também regulamentos diferentes. A Administração de Segurança e Saúde Ocupacional (OSHA, da sigla em inglês) do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, apesar de não ter um conjunto de normas específicas para a indústria do petróleo e gás, regula os sítios de perfuração por meio de sua General Duty Clause, que se aplica a muitas indústrias.

Dennis Schmitz, presidente do MonDaks Safety Network, uma organização sem fins lucrativos que promove a segurança nos sítios de perfuração dos campos petrolíferos da região da Formaçao Bakken, no Dakota do Norte e Montana, estima que de 20 a 30 por cento de todos os acidentes nos locais de perfuração são incêndios ou explosões em nuvem. Schmitz, com quinze anos de experiência de campo na indústria do petróleo e gás, incluindo o trabalho em oleodutos e inspeção de cargas, diz que, em sua opinião, a regulamentação poderia ainda ser aprimorada.

“Faz muito tempo que a OSHA fala na produção duma norma sobre a indústria de petróleo e gás, mas ainda não a vimos,” ele disse. Num mundo ideal, a OSHA e a indústria deveriam juntar-se e produzir uma norma mutuamente aceita que protegeria as pessoas sem prejudicar a indústria.

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O desafio para os bombeiros
A OSHA tem atualmente normas que procuram prevenir incêndios em sítios de perfurações e os ferimentos causados pelos incêndios. As normas requerem que as empresas de perfuração criem caminhos de saída, planos de ação de emergência e planos de prevenção de incêndios. Também exigem que os trabalhadores tenham acesso a roupas resistentes a chamas e dizem como os líquidos inflamáveis e combustíveis devem ser armazenados. O API também tem varias normas concebidas para prevenir incêndios e explosões. Contudo, não existem diretrizes sobre como a indústria deve responder a um incêndio. Algumas empresas de perfuração têm equipamento de combate a incêndio e pessoal no local, mas mesmo neste caso, os departamentos de bombeiros locais são responsáveis em caso de emergência.

Para Nanna, chefe dum corpo de bombeiros voluntários na Pensilvânia, o boom das perfurações alterou sem dúvida o curso de seu trabalho no dia a dia. Existem 46 poços ativos nas 46 milhas quadradas cobertas pelo seu departamento, junto com duas estações de compressão e uma planta de processamento.

Ninguém deixou um manual na mesa de Nanna para prepará-lo para incêndios em locais de perfurações, então quando a atividade começou a crescer, Nanna entendeu que teria de fazer sua própria pesquisa para ver como preparar-se para o combate a incêndio nesses locais. Seu primeiro passo foi contatar as empresas de perfuração para procurar informação sobre seus locais.  Ele queria conhecer exatamente o tipo de riscos presentes nesses locais e o quê que seria necessário para extinguir um possível incêndio. Nanna disse que sua intenção era também estabelecer uma relação com as empresas de perfuração para facilitar o trabalho conjunto.

O combate ao incêndio nos locais de perfuração é complexo por uma série de motivos. O fraking e a perfuração direcional aumentaram os riscos de incêndio, em parte porque pode haver muito mais tanques de armazenagem e cabeças de poço num único local. No passado, os locais de perfuração usualmente tinham apenas um poço e dois tanques, agora pode haver até dez poços conectados a uma única cabeça. Nos sítios de perfuração se encontram líquidos inflamáveis como biocidas e ácidos, alguns em forma concentrada. O próprio fluido de fraking é altamente inflamável e os veículos e máquinas espalhados no terreno podem atuar como fontes de ignição. Os locais podem também estar congestionados pelo equipamento e apresentar dificuldades de acesso.

Os esforços dos bombeiros são ainda mais complicados pelo fato que muitos estados permitem a perfuração ao lado de estruturas existentes, como casas e escolas. Lyman disse que ele respondeu a incêndios em poços onde as casas estavam a menos de 200 pés de distância. O Colorado adotou uma lei que estende a distância requerida a 500 pés, mas em 2014 houve uma nova iniciativa infrutífera para quadruplicar essa distância que deu lugar a uma batalha polêmica. Muitos estados onde a perfuração é comum, têm requisitos de distâncias mínimas menos exigentes, ou nenhum requisito.

Quando compreendeu a situação que enfrentava, Nanna pediu às empresas de perfuração que fornecessem os recursos adicionais de que ele precisava – e elas aceitaram. Num local de perfuração, Nanna calculou que, em caso de incêndio catastrófico, seriam necessários dois milhões de galões de água – muito além das capacidades de seu departamento. A empresa de perfuração aceitou trazer um tanque de água com essa capacidade e mantê-lo no local. Nanna pediu também às empresas que pagassem o treinamento do corpo de bombeiros e elas o fizeram, por um custo de 30.000 dólares por fim de semana de curso. Mesmo agora, Nanna diz que está em contacto com as empresas de perfuração todos os dias.

“Eu tinha a certeza que meu corpo de bombeiros era um dos mais bem treinados do estado de Pensilvânia, simplesmente porque essa situação se deu no nosso quintal,” ele disse. “Sentimos que queríamos ser proativos e não reativos. Vejam a explosão da West Fertilizer, no Texas em 2013 – o corpo de bombeiros não tinha toda a informação que deveria, e isso custou vidas humanas. Não queremos isso.” Houve “dois ou três” incêndios em poços na área de cobertura de Nanna desde que o boom da perfuração começou, ele disse, mas não houve mortes nem ferimentos graves.

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Ferramentas de Perfuração
Lista da OSHA dos códigos e normas da NFPA que se aplicam aos sítios de perfuração de poços de petróleo e gás.

NFPA 1, Código de Prevenção de Incêndios

NFPA 10, Extintores de Incêndios Portáteis

NFPA 30, Códigos de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis

NFPA 37, Instalação e Utilização de Motores de Combustão Estacionários e Turbinas a Gás

NFPA 70®, Código Elétrico Nacional

NFPA 101®, Código de Proteção da Vida

NFPA 326, Segurança dos Tanques e Contêineres para Acesso, Limpeza ou Reparos

NFPA 400, Código de Produtos Perigosos

NFPA 2112, Roupa Resistente às Chamas para Proteção dos Trabalhadores da Indústria Contra os Incêndios em Nuvens

NFPA 2113, Seleção, Cuidados, Uso e Manutenção de Roupa Resistente à Chama para Proteção dos Trabalhadores da Indústria Contra os Incêndios em Nuvem

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Códigos e Normas da NFPA
Embora a NFPA não tenha códigos que lidem especificamente com a perfuração de petróleo e gás, uma série de documentos contém provisões que podem ser aplicadas aos locais de perfuração. Por exemplo, a NFPA 30, Código de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis, descreve como os tanques de armazenagem de combustíveis devem ser construídos e a que distância podem ficar de edifícios e estradas, de acordo com Bob Benedetti, pessoa de contato para o código. A OSHA mantém uma lista de normas da NFPA aplicáveis à indústria do gás e do petróleo, que inclui a NFPA 30 e nove outras normas e códigos, entre eles o NFPA 1, Código de Prevenção de Incêndios, o NFPA 101®, Código de Proteção da Vida, o NFPA 400, Código de Produtos Perigosos e a NFPA 2113, Seleção, Cuidados, Uso e Manutenção de Roupa Resistente à Chama para Proteção dos Trabalhadores da Indústria contra os Incêndios em Nuvem [ver “ferramentas de perfuração,”]. Existem outros códigos que não estão na lista da OSHA, como a NFPA 11, Espuma de Baixa, Média e Alta Expansão, que se aplicariam também aos incêndios em poços.

O estabelecimento de normas para a extração de petróleo e gás ficou principalmente a cargo do API porque faz parte da especialidade técnica do grupo, disse Benedetti. “Que eu saiba, ninguém pediu à NFPA que lance um projeto de elaboração de diretrizes para qualquer tipo de operações de perfuração de poços de petróleo, quer por fracking quer por outro método,” ele disse.

Lyman, inspetor de incêndios de Greeley, disse que está pensando propor exatamente isso – que o Conselho de Normas da NFPA considere a criação dum novo comitê para trabalhar sobre uma norma para os sítios de extração de petróleo e gás. Embora a API e varias entidades reguladoras tenham normas, não há um conjunto de normas num lugar único para que os bombeiros possam consultá-las, ele disse.
“Como oficial dos bombeiros e responsável pela aplicação dos códigos, acredito que seria útil juntar à mesa as partes interessadas dos serviços de combate a incêndio e da indústria para criar uma norma uniforme com a colaboração de todas as partes interessadas,” disse Lyman. “De acordo com o que vi pesquisando os códigos, não há um recurso para lidar com esses locais, e tivemos de recorrer a fragmentos de códigos e normas existentes e melhores práticas da indústria”.

Ken Willette, diretor de Divisão de Proteção Pública contra Incêndio da NFPA, disse que uma norma uniforme como a que Lyman descreve está no domínio das possibilidades. Ele disse que normalmente a NFPA não compete com outra organização acreditada de elaboração de normas, como o API, que desenvolveu melhores práticas, mas se os oficiais dos bombeiros pedirem normas adicionais, o Conselho de Normas da NFPA poderia considerar o pedido. Até agora, ele disse, não houve propostas feitas à NFPA por parte de oficiais dos bombeiros.
“Na NFPA não decidimos quais normas devemos criar – normalmente reagimos aos pedidos de membros do público que nos contatam,” disse Willette. “Poderíamos considerar a preparação duma norma sobre formação caso os bombeiros nos contatassem e dissessem, ‘precisamos ajuda para preparar-nos para incêndios em poços.’”

Entre tanto, Lyman acompanha a atividade em sua zona do Colorado da melhor forma possível, poço por poço e perfurador por perfurador. Embora o corpo de bombeiros de Lyman já tivesse conhecimento dos riscos presentes nos sítios de perfuração antes do recente boom da extração – a perfuração ocorre na área desde os anos 80 - ficava claro para ele que o corpo de bombeiros devia ser proativo identificando os riscos e procurando soluções antes de enfrentar um evento catastrófico. Ele contatou companhias de perfuração buscando informação, visitou sítios de perfuração e trabalhou com as empresas que forneceram reboques de espuma no local e outro equipamento de combate a incêndio. Uma empresa doou equipamento para o centro de formação do corpo de bombeiros.

Mesmo assim, ainda houve incidentes. Em 2007, um tanque num local de perfuração de poços de petróleo explodiu e se incendiou, projetando chamas até uma altura de 10 metros. Quatro jurisdições, incluindo Greeley, responderam. Um trabalhador de 31 anos ficou gravemente queimado e morreu mais tarde. A causa do incêndio, como no incêndio de 2014, foram os vapores emitidos pela água de refluxo. O líquido inflamável entrou em contato com uma fonte de ignição – uma bomba portátil operando no local - e causou um incêndio em nuvem. Os bombeiros tiveram de trazer espuma para conter as chamas, e logo deitaram água sobre o tanque durante 20 minutos para esfriá-lo. Embora o incêndio estivesse próximo das casas vizinhas, ficou contido e não causou danos àquelas estruturas.

Esse incêndio foi o primeiro que os bombeiros de Greeley enfrentaram após o inicio do boom da perfuração e serviu de catalisador para avançar com a associação com as empresas de perfuração para coletar informação e compartilhar recursos. Lyman recomenda que outros corpos de bombeiros façam o mesmo – contatar as empresas locais de perfuração, compartilhar informação sobre segurança e organizar visitas para o planejamento pré-incidente dos sítios – para estarem preparados em caso de emergência.
Como disse Lyman, “em nossa jurisdição, fizemos todo o possível para garantir que nossa comunidade esteja preparada para combater um incêndio”.

Ashley Smith é jornalista independente em Boston

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A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.