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Bombeiros / Socorristas

Com base nos dados

Por Jesse Roman

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Á medida que o volume de dados produzidos cresce de forma exponencial, os bombeiros estudam formas inovadoras de aproveitar o poder da informação para ajudar a salvar vidas, reduzir a perda de bens e proteger os bombeiros – um admirável mundo novo de “combate a incêndio inteligente”. 

O posto de Bombeiros Engine 308, em South Queens, é o tipo de lugar onde os visitantes são recebidos com um aperto de mão firme e um café forte. No andar superior, o escritório de Eugene Ditaranto é também à moda antiga. As paredes são cobertas de painéis de madeira dos anos 1970 e Ditaranto, chefe do Batalhão 51 do Corpo de Bombeiros da Cidade de Nova Iorque (FDNY, da sigla em inglês) pregou na parede pranchetas e mapas do distrito. Duas dúzias de pastas estão guardadas num estante contra a parede oposta e pilhas de papeis ordenados, envelopes e notas em post-it ocupam o simples escritório de madeira do chefe. Em intervalos de poucos minutos o som do telefone de linha cobre o zunido de dois aparelhos de ar condicionado instalados na janela.

Mesmo nesse espaço modesto, o Chefe Ditaranto se encontra a poucos cliques de distância duma das ferramentas tecnológicas mais sofisticadas já desenvolvidas pelos bombeiros. Ele liga seu computador Dell e em instantes aparece na tela o sonho de todos os chefes: uma lista dos edifícios do Distrito que correm o maior risco de incêndio naquele dia. O programa chama-se Sistema de Inspeção Baseado no Risco, ou RBIS, e seu coração é um algoritmo inovador de análise de dados chamado FireCast.

Por mais de um ano, o FDNY utilizou FireCast 2.0, que classifica dados provenientes de cinco agências da cidade em até 60 fatores de risco, que por sua vez são utilizados para criar listas priorizadas de todos os edifícios inspecionados pelo FDNY. Os funcionários do corpo de bombeiros atribuem à tecnologia o mérito da diminuição da carga de trabalho, da simplificação duma tarefa incrivelmente complexa e, mais importante, do acesso dos bombeiros de Nova Iorque a alguns dos edifícios da cidade mais expostos ao risco de incêndio, alguns dos quais não foram inspecionados por anos.

“No final de contas, a prevenção de incêndios salva um grande número de vidas que não podemos quantificar”, disse Ditaranto, que ajudou a desenvolver e supervisiona o sistema RBIS. “Se vamos a um edifício, vemos um problema e o corrigimos, não podemos saber se estamos evitando um incêndio três semanas mais tarde – não há formas de predizê-lo. Mas penso que existem provavelmente muitos casos onde nossa ação ajudou de fato a prevenir um incêndio.”

A ferramenta RBIS está a ponto de se tornar muito mais poderosa. No início do próximo ano, o FDNY lançará o algoritmo FireCast 3.0, que classificará dados coletados por 17 agências da cidade e pelo sistema telefônico municipal de chamadas sem caráter de emergência (311), em mais de 7500 fatores de risco diferentes e ponderados – tudo desde as especificações do edifício e das ocupações até infrações passadas referentes ao lixo e queixas sobre ruídos.

Todas as noites, na moderna e elegante sede do FDNY, no centro do Brooklyn, computadores potentes utilizarão o algoritmo FireCast 3.0 para analisar três anos de dados relativos à cada edifício da cidade. Utilizando as variáveis e a história única de incêndios de cada bairro, FireCast 3.0 realizará uma análise estatística complexa e atribuirá a cada edifício que o FDNY inspeciona uma pontuação de risco de incêndio. Os prédios com a pontuação mais alta serão colocados perto do topo da lista de inspeções programadas, atribuídas todos os dias a cada uma das 341 companhias de bombeiros de Nova Iorque. FireCast considera também os edifícios que os bombeiros devem inspecionar por lei de acordo com um programa preestabelecido – escolas, prédios em construção e edifícios condenados, por exemplo – e os acrescenta no topo da lista. O processo informático completo levará aproximadamente 90 minutos.

O sistema RIBS pode ser o melhor exemplo daquilo que se conhece como “combate a incêndio inteligente” – utilizando dados para informar e agilizar os procedimentos que os bombeiros seguem quando respondem a um incêndio ou outra emergência. Num mundo cada vez mais saturado de informação – onde aparentemente tudo é “inteligente”, desde os telefones até a rede elétrica – os bombeiros também começam a aproveitar o grande volume de dados e os dispositivos eletrônicos que estão agora disponíveis para ajudar a salvar vidas, proteger os bombeiros e reduzir a perda de bens.

Aparentemente o conceito está prestes a decolar. A Fundação de Pesquisa para Proteção contra Incêndio, em parceria com o Instituto Nacional de Normas e Tecnologia (NIST, da sigla em inglês), iniciou um ambicioso projeto de pesquisa de 18 meses com o objetivo de identificar oportunidades de criar e desenvolver novas ferramentas inteligentes de combate a incêndio. Como parte do projeto, equipes de peritos de incêndio, cientistas e peritos de dados e tecnologia estão criando um “roteiro” abrangente para o futuro estudo sobre o combate a incêndio inteligente, abrangendo tópicos desde a análise de dados e sensores até as aplicações móveis e a interoperabilidade. O projeto de “roteiro” deveria ser completado até a primavera de 2015.

“O mundo está mudando muito rapidamente e os serviços de combate a incêndio também” disse Edward Baggott, chefe adjunto de operações do FDNY e um dos criadores do FireCast e do Sistema de Inspeção Baseado no Risco. “O RBIS está ajudando os cidadãos de Nova Iorque, mas beneficia também os bombeiros porque estamos aprendendo algumas coisas essenciais no terreno – é uma situação de ganho mútuo. Acredito que este seja apenas o começo do sistema.”

Lidando com as deficiências
Para ver até que ponto chegou o FDNY, só precisamos ver onde estavam a sete anos atrás.

Em 19 de agosto de 2007, mergulhados numa nuvem turva de espessa fumaça, os bombeiros de Nova Iorque Robert Beddia, Joseph Graffagnino e James Martin sobem as escadas do edifício condenado do Deutsche Bank no centro de Manhattan, tentando alcançar os bombeiros que pensavam estarem aprisionados no 15º andar. O edifício alto de escritórios, situado a poucos passos do Ground Zero, tinha sofrido danos graves nos ataques terroristas de 11 de setembro e estava no processo de desmantelamento e demolição. Um incêndio se declarou minutos antes das 16h no 17º andar  quando um trabalhador jogou fora um cigarro sem os devidos cuidados.

Quando os bombeiros chegaram, descobriram que as equipes de construção, em sua pressa para demolir o edifício, tinham cortado, meses antes, uma seção de 42 pés de tubulação que devia alimentar de água os andares superiores em caso de incêndio. Por isso, os bombeiros lutaram para levantar mangueiras desde o térreo. O Bombeiro Martin testemunhou mais tarde, num processo criminal contra três supervisores de construção, dizendo que ele, Beddia e Graffagnino tinham esperado 40 minutos pela chegada da água, com seus tanques de oxigênio esgotando-se rapidamente.

Entre o 14º e o 15º andar, Graffagnino e Beddia estavam ficando sem ar, mas a fuga era difícil, em parte porque secções das escadas tinham sido serradas indevidamente como parte do trabalho de desmantelamento do edifício, como o demonstrou uma investigação da cidade. Martin, o ultimo dos três que entraram no edifício, ainda tinha oxigênio e tentou ajudar os outros dois antes de tomar a decisão difícil de deixá-los para conseguir ajuda. Graffagnino e Beddia morreram mais tarde devido à inalação de fumaça.

Os registros mostraram que os bombeiros não tinham inspecionado o edifício nos últimos cinco meses, apesar de os regulamentos da cidade exigirem uma inspeção visual dos hidrantes dum prédio em demolição a cada 15 dias. Entretanto, o Departamento de Edificações da cidade tinha realizado inspeções, mas não descobriu os hidrantes estragados nem compartilhado a informação de sua inspeção com o FDNY. “Lamentamos vivamente as falhas de nossas agências na inspeção e detecção das condições que contribuíram para as mortes dos bombeiros Beddia e Graffagnino,” reconheceu a cidade numa declaração após o incêndio. Os três supervisores de construção foram acusados de homicídio culposo, mas foram absolvidos.  “Após o 9/11, o enfoque foi colocado na reconstrução do Departamento e na preparação para o terrorismo – as inspeções de edifícios não eram uma de nossas primeiras prioridades,” disse Baggott numa entrevista recente na sede de Brooklyn do FDNY. “O Deutsche Bank mostrou-nos claramente nossas deficiências.”

O FDNY é responsável pela inspeção de 330 000 edifícios da cidade, abrangendo todos os edifícios comerciais e outros edifícios com áreas comuns, como conjuntos de apartamentos. (O Empire State Building, com seus 2,7 milhões de pés quadrados, é contabilizado como um único edifício.) Durante anos, o departamento contou com um sistema antiquado de ficheiros para manter o registro das inspeções. Abria-se uma ficha para cada edifício, com informação básica como ocupação, área, materiais de construção e ano de construção. O comandante da companhia era responsável de manter o ficheiro e atribuir uma letra a cada uma, de A a E, que determinava a frequência de realização de inspeções do edifício. Nenhum dos registros era digitalizado, e não havia forma de conhecer a informação essencial, ou mesmo a data da última inspeção do edifício, sem ir até o posto de bombeiros local e olhar para o ficheiro.

“Dissemos aos comandantes das companhias que precisavam determinar, entre os milhares de edifícios situados no distrito administrativo da companhia, quais deveriam ser inspecionados a cada ano, a cada dois ou três anos, etc.” disse Ditaranto. “Com todas as outras responsabilidades que têm, era uma tarefa impossível. Havia muitas possibilidades de deixar passar coisas.” A natureza aleatória do sistema, disse Baggott, significava que muitas fichas estavam em falta ou tinham sido destruídas e já não se encontravam no ficheiro.

A tarefa de consertar esse sistema de inspeção quebrado era assustadora. A meta do departamento é completar 10% das inspeções de seus edifícios anualmente, mas com algumas companhias recebendo até 5.000 chamadas por ano para responder a incêndios, até essa meta representava um desafio enorme. “Devíamos perguntar-nos o que poderíamos fazer para aprimorar o sistema de determinação dos edifícios que devemos inspecionar, porque obviamente não podemos ir aos 330 000”, disse Jeff Roth, delegado assistente no FDNY e líder da unidade de análise do FDNY, constituída por quatro pessoas, responsável pelo desenvolvimento e manutenção do algoritmo FireCast. “Mas como podemos chegar a essa determinação?”

Mudanças discutidas há muito tempo pelo conselho municipal foram ativadas na sequencia do incêndio do Deutsche Bank, disse Roth. O Departamento de Edificações e o Departamento de Proteção Ambiental receberam a ordem de começar a compartilhar automaticamente toda a informação sobre novos edifícios e inspeções que recebiam do FDNY. Mais importante, em abril 2013, o então prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, assinou uma ordem executiva criando uma plataforma de partilha de dados de toda a cidade que permitia às agências e ao público em geral ver e manipular o grande volume de dados coletados pelas agências da cidade. A ordem criava também o Gabinete de Análise de Dados do Prefeito, alcunhado “Centro Municipal de Inteligência” de Nova Iorque.

A mudança da cidade rumo a uma utilização inovadora dos dados ocorria ao mesmo tempo em que o FDNY continuava o processo de reforma de suas políticas de inspeção de edifícios. “Era uma progressão natural para nós”, disse Roth sobre a decisão de desenvolver um modelo de inspeção de incêndio baseado nos dados. “Sabíamos que precisávamos de alguma base para priorizar as inspeções e de repente tínhamos todos esses dados não explorados. Então pensamos: ‘Como podemos utilizá-los’”?

O departamento começou modestamente a digitalizar toda a informação contida em seu velho sistema de ficheiro de inspeção de edifícios. Logo, organizou grupos de enfoque com seus oficiais para determinar qual informação essencial contida nas fichas serviria melhor para predizer os incêndios. A partir desse processo lançamos FireCast 1.0 em março de 2013, que Ross descreveu  como um sistema de predição de incêndio “com base em relatos” sem muita base estatística. “Era baseada nos relatos porque nosso acesso aos dados era limitado naquela época,” disse Roth. “Era o melhor que podíamos fazer, mas foi um primeiro passo essencial.”

Ciente das limitações de seu esforço inicial, o FDNY contatou o novo gabinete de análise de dados da cidade e conseguiu sua ajuda para desenvolver um novo modelo mais centrado nos dados. Em junho de 2103, a equipe de análise de dados do prefeito entregou o projeto a uma nova Unidade de Análise de Dados do FDNY que completou e lançou FireCast 2.0 – “o primeiro passo rumo a um verdadeiro modelo estatístico,” de acordo com Ryan Zirngibl, perito principal de análise da dados do sistema FireCast e um dos quatro membros originais da Unidade de Análise do FDNY.

Afinando a máquina
De acordo com Zirngibl, o conceito central do algoritmo FireCast é encontrar as características dos edifícios que sofreram diferentes incêndios e compará-las com as características de edifícios onde não ocorreu nenhum incêndio. “Qual é a diferença entre dois prédios que parecem exatamente iguais, exceto que um dos dois sofreu um incêndio? O que é que nos escapa nesses edifícios?” disse Zirngibl. “Queremos encontrar os detalhes que existem num desses dois mundos e não existem no outro e dispomos de diferentes testes estatísticos que utilizamos para ajudar a  determinar quais são os fatores que nos interessam.”

Depois de ter encontrado quais são os fatores relacionados ao incêndio, e em que grau, o algoritmo FireCast avalia o grande volume de dados armazenados na nova plataforma de partilha de dados da cidade de Nova Iorque para determinar quais são os edifícios com características de predição de incêndios e atribui a cada edifício uma pontuação de risco de incêndio. “Fire Cast emula a intuição dum oficial de bombeiros muito experiente, alguém que esteve no bairro durante anos e conhece realmente os prédios,” explicou Roth. “Fiquei bastante impressionado porque muitos dos veteranos com quem falei não ficaram realmente surpreendidos por algumas das descobertas de FireCast que me surpreendem.”

FireCast 2.0 representou um salto para frente, mas os programadores dizem que FireCast 3.0 será melhor em todos os aspetos possíveis. Além do grande volume de dados que o novo modelo pode manipular e o aumento de 60 a 7500 fatores de risco para prever incêndios, a versão 3.0 é também uma máquina muito mais afinada. Onde as duas primeiras versões do FireCast juntavam toda a cidade num único conjunto de dados, a versão 3.0 analisa por separado cada um dos 49 distritos dos batalhões, criando pontuações de riscos de incêndio para os edifícios com base na história e nas características de incêndio específicas de cada bairro.

Os oficiais de incêndio esperam que essa qualidade dinâmica resulte numa ferramenta de inspeção mais sensível – e mais efetiva. Por exemplo, se o algoritmo determina que uma infração referente ao lixo é um indicador de incêndio no 3º Distrito de Batalhão no Bronx, um edifício que recebeu uma notificação de infração referente ao lixo naquele bairro na terça feira, terá uma pontuação de risco de incêndio mais alta na quarta feira.

Contudo, no Batalhão 51 em Queens, uma infração referente ao lixo pode não ser um indicador de incêndio com base na história local de incêndios, então uma infração naquele bairro não teria um impacto na pontuação de risco do edifício - mas isso poderia mudar. Se no dia seguinte um prédio com uma historia de infrações referentes ao lixo sofre um incêndio em Queens, o algoritmo voltará automaticamente a examinar os dados e poderá determinar que agora as infrações referentes ao lixo são estatisticamente significativas e as incluirá no modelo de risco de incêndio do dia seguinte.

Para captar o papel do comportamento humano na avaliação de riscos de incêndios, FireCast 3.0 inclui também dados do vasto sistema telefônico municipal de chamadas sem caráter de emergência (311). Dos 2,6 milhões de queixas processados anualmente pelo 311, 1,4 milhão dizem respeito a edifícios. A maioria das queixas – categorizadas em mais de 6000 tipos diferentes – dizem respeito a prédios que o FDNY inspeciona. Isso proporciona ao FireCast 3.0 um fluxo constantemente atualizado de dados frescos para processar todas as noites.

Dessa forma o programa está constantemente refinando o processo para “detectar tendências antes que sejam visíveis,” diz Zirngibl. “O sistema faz isso porque a atualização dos dados é dinâmica.”

Os resultados sugerem que o sistema está dando a prioridade aos edifícios certos. Nos 30 dias que seguiram o lançamento do FireCast 2.0 o número médio de infrações nos edifícios da cidade subiu em 19%. Após os primeiros 60 dias, o número de infrações ainda tinha subido em 10%.

Ir aos edifícios certos significa também ter uma melhor preparação em caso de incêndio numa das estruturas. Desde o desenvolvimento da versão 2.0, 16,5% dos incêndios estruturais na cidade ocorreram em edifícios que o FDNY tinha inspecionado 90 dias antes do incidente. Isso significa que, embora as inspeções não tenham evitado os incêndios, os bombeiros tinham informação atualizada sobre o layout do edifício, a localização da rede de água, dos painéis de alarme, dos hidrantes e outra informação essencial. Isso também mostrou que o FireCast predizia corretamente quais eram os edifícios com probabilidade de sofrer um incêndio. Em comparação com a versão 1.0 apenas 1,9% dos edifícios com incêndios estruturais tinham sido inspecionados nos últimos 90 dias. Os oficiais do FDNY preveem que, com o FireCast 3.0, 25% dos incêndios estruturais na cidade de Nova Iorque vão ocorrer em edifícios inspecionados pelo FDNY nos últimos 90 dias, reduzindo bastante as possibilidades de ocorrência dum novo incidente como o do Deutsche Bank.

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Ditaranto disse que a efetividade e o potencial do RBIS se devem ao fato que foi criado por bombeiros e não por engenheiros, tecnólogos ou outros. “Os bombeiros têm a perspectiva singular e o conhecimento prático que outros profissionais não têm,” ele disse, citando os esforços dos oficiais como o Capitão Thomas Gale, chefe de operações de Ditaranto no projeto RBIS, necessários para conceber um sistema que leve em consideração a segurança dos civis assim como a dos bombeiros. “Entendemos melhor o risco, porque somos nós que estamos no campo de batalha enfrentando todos os níveis de riscos em todos os momentos.”

Mais indícios casuais do bom funcionamento do  FireCast provêm da quantidade de chamadas do Programa de Segurança de Inspeção de Edifícios do FDNY (BISP, da sigla em inglês) – uma linha direta para os inspetores no terreno que têm perguntas sobre o código de incêndio da cidade, ou que encontram situações desafiadoras ou únicas que ultrapassam seu nível de conhecimento. Á medida que os inspetores eram enviados a prédios mais expostos ao risco, o número de chamadas procurando ajuda aumentava. “Desde que as inspeções se realizam com base na pontuação de risco, apresentaram-se questões de todo tipo: produtos perigosos, problemas de saídas, é só dizer,” disse o Capitão Michael Scheibe, um dos lideres do BISP. “Como resultado, o nível de educação [dos inspetores no terreno] cresceu enormemente. Eles têm um domínio muito melhor do que fazer em situações que encontram no terreno”.

À medida que o sistema se desenvolve, os lideres do FDNY sentem que o sistema pode fazer muito mais que levar os bombeiros até os edifícios mais expostos ao risco – poderia também fornecer novas respostas às causas e formas de início dos incêndios na cidade de Nova Iorque. “Esses dados poderiam ter o potencial de mudar leis e regulamentos – se vermos uma tendência, talvez possamos corrigir os regulamentos antes que se produzam incidentes mais graves,” diz Baggott, chefe adjunto de operações do FDNY. “O pessoal de operações de combate a incêndio olha para alguns dos dados e diz: ‘É verdade? Isso é uma causa de incêndio?’. Mas temos que seguir os números. Se é ali que os dados nos levam, é ali.”

Um roteiro para o combate a incêndio inteligente
FireCast pode ser a ponta de lança do combate a incêndio inteligente, mas é apenas o começo. Em março passado, um grupo improvável de 80 pessoas se reuniu em Arlington, Virginia, para discutir o futuro do combate a incêndio inteligente. Aproximadamente a metade eram bombeiros profissionais, enquanto a outra metade eram programadores com experiência em lugares como Google e varias agências do governo federal. O seminário, organizado pela Fundação de Pesquisa para Proteção contra Incêndios, realizou-se para estabelecer um dialogo entre os grupos como um primeiro passo para lidar com um projeto complexo, chamado “Combate a Incêndio Inteligente: onde Big Data e Serviços de Bombeiros se unem” (nfpa.org/smartfirefighting), destinado a promover o futuro do combate a incêndio inteligente.

“Somos inundados por volumes incríveis de dados – estão colocando sensores em tudo que você pode imaginar,” disse Casey Grant, diretor de pesquisa da Fundação, que está supervisando o projeto. “Ao mesmo tempo, nossas capacidades de processamento e armazenagem de dados cresceram drasticamente. A pergunta é: o que fazer com isso”? 

Nos meses que seguiram a reunião inicial, 11 pares de peritos de incêndio e dados e peritos de tecnologia se juntaram para lidar com essa questão. Cada par de peritos escreveu um capítulo sobre temas abrangendo desde a tecnologia de comunicação e os métodos de entrega aos sensores, à coleta de dados, a interoperabilidade hardware/software, a análise de dados, entre outros. No início de 2015, o grupo terá produzido um documento exaustivo que identificará as oportunidades de aprimoramento dos serviços dos bombeiros através da tecnologia de dados e priorizará as áreas para futura pesquisa. “O roteiro mostrará o caminho a seguir”. Disse Anthony Hamins, chefe da divisão de pesquisa de incêndio nos laboratórios de engenharia do NIST, que financia o projeto.

Através do NIST, o governo federal está gastando milhões de dólares em pesquisa sobre os chamados sistemas ciberfísicos, ou CPS (da sigla em inglês) – os sistemas integrados de redes, computadores e sensores que trabalham em conjunto com o mundo físico para criar sistemas inteligentes. O trabalho do NIST para aperfeiçoar os sistemas inteligentes está em curso num conjunto de setores, incluindo a indústria, os transportes, a energia entre outros. “Os sistemas ciberfísicos são uma área chave do NIST – muita gente está trabalhando em assuntos relacionados aos CPS,” disse Hamins. “Pensamos que o aproveitamento dessa tecnologia emergente é muito importante para garantir a segurança e a efetividade dos bombeiros”.

O combate a incêndio apresenta desafios e oportunidades particulares para essa tecnologia; como o demonstra o algoritmo FireCast do FDNY, o leque de dados aplicáveis é quase ilimitado. Por exemplo, imagine que um bombeiro possa dar um comando verbal que faça aparecer um plano detalhado do edifício em seu visor. Imagine que os comandantes do incidente possam ver em tempo real as simulações de incêndios baseadas nas condições reais registradas pelos sensores dentro e fora do edifício.

Grant, que descreve o projeto como um dos mais desafiantes nos quais tenha trabalhado, acredita que as implicações para os bombeiros são enormes. “Algumas pessoas olham para isso e dizem que estamos entrando numa nova era, e concordo com eles,” ele disse. “Isso vai tão rápido e muda tão rápido. Estamos tentando adiantar e imaginar o passo a seguir.” Grant disse que o projeto de combate a incêndio inteligente poderia produzir informação para novos códigos e normas, como a NFPA 950 Desenvolvimento e Intercâmbio de Dados para os Bombeiros, escrita como uma norma e a NFPA 951, Guia para Construir e Utilizar Informação Digital,que poderiam por sua vez tornar-se ferramentas importantes para navegar na paisagem emergente rica em dados. [Ver Temos uma Norma para Isso]

Apesar de reconhecer o potencial, Hamins minimiza a noção que os bombeiros estejam á beira duma transformação repentina – pelo menos ainda não. “É difícil predizer quando isso será generalizado, porque existem tantos desafios técnicos,” ele disse. “Existem oportunidades e possibilidades maravilhosas, e há muito por fazer. Mas FireCast é um excelente exemplo de aonde podemos ir.”

Jesse Roman é redator permanente do NFPA Journal.


smartandsmarter hedInteligente+Mais inteligente

Novas formas de utilização da tecnologia baseada em dados pelo pessoal de emergência

Resposta de emergência em escolas
Programa SAFER
Frisco, Texas

Em 2009, a cidade de Frisco, Texas, desenvolveu um sistema inovador chamado Situational Awareness for Emergency Response, ou SAFER, que permite o acesso imediato dos socorristas à informação essencial sobre cada uma das 46 escolas do distrito durante uma emergência. O SAFER, desenvolvido pelo Departamento de Serviços de Tecnologia de Informação da Cidade, integra a informação de seis bases de dados e sinais de vídeo provenientes de câmaras situadas em locais estratégicos dentro de cada escola para formar uma interface única de fácil utilização. O resultado é que os socorristas de Frisco – no local do incidente, em seus veículos ou na estação – podem ver vídeos em tempo real, plantas baixas, fotos aéreas, listas de químicos perigosos armazenados no local, informações de contato dos administradores da escola, fontes de água e outras peças de informação essencial.

“É a ferramenta mais avançada que conheço,” disse Marck Borchardt, chefe do Departamento de Bombeiros de Frisco, num artigo publicado em ci.frisco.tx.us. “O sistema nos dá uma quantidade incrível de informação instantaneamente e [os bombeiros e agentes de policia] têm a mesma visão. No caso do vídeo, uma imagem vale mil palavras.”

Interface urbano/florestal
FireWatch, Texas
College Station e Travis County, Texas

Mais de 1000 milhas quadradas de floresta perto de College Station, Texas, estão sendo monitoradas por um novo sistema de vídeo para aviso precoce de incêndio. A tecnologia, produzida por uma companhia alemã, é vendida nos Estados Unidos com o nome FireWatch America. As câmaras, montadas em torres acima da linha das árvores, podem ver penachos de fumaça de 10 metros por 10 metros, a distâncias de 10 milhas ou mais, de acordo com a informação da companhia. Os sensores giram a intervalos de 10 graus, completando uma cobertura a 360 graus da área a cada 12 minutos. Durante cada rotação, os sensores nas câmaras capturam e analisam imagens, as transmitem para a estação de comando central e alertam as autoridades caso se detectem possíveis incêndios, de acordo com firewatchamerica.com. O sistema utiliza a triangulação para fornecer aos bombeiros a localização exata do incêndio.

Em junho, o conselho municipal de Austin, Texas, aprovou por unanimidade um programa piloto para instalar três câmaras de alta tecnologia em torres no Condado de Travis. Cada câmara custa 175 000 dólares americanos, mais 200.000 dólares de manutenção anual, de acordo com relatórios publicados. Ao que consta, o Texas é o primeiro estado dos Estados Unidos que utiliza as câmaras, que estão em uso em 13 países.

Ferramenta de informação para o bombeiro
Projeto Google Glass
Rocky Mount, Carolina do Norte

Patrick Jackson, bombeiro em Rocky Mount, Carolina do Norte, desenhou uma aplicação para Google Glass, a armação de realidade virtual do Google – usado normalmente como um visor ou óculos – que poderia se tornar uma ferramenta “mãos livres” útil para os bombeiros no terreno. A aplicação de Jackson permite aos bombeiros a entrega de comandos verbais ao computador para acessar mapas e informações sobre despacho, que é logo projetada no dispositivo ocular; os bombeiros podem ver a informação essencial no canto superior de seu campo visual. Futuras versões poderiam incluir layouts dos prédios, informação sobre possíveis riscos relacionados á construção e informação de contato entre outros, disse recentemente Jackson á CNN. O dispositivo Google Glass pode também sacar fotos e vídeos, permitindo aos socorristas filmar continuamente sua resposta a um incêndio ou outra emergência, o que poderia ajudar a futura investigação do incidente.

Jackson, um programador autodidata, utilizou uma campanha de coleta de fundos crowd-sourcing para comprar o dispositivo Google Glass e desenvolveu o software em seu tempo livre.

Vídeo sobre o projeto de Jackson


Temos uma norma para isso

HayUnaNormaparaEso

Novos documentos da NFPA tratam assuntos relacionados ao desenvolvimento, armazenamento e intercâmbio de dados.

Enquanto muitas pessoas exaltam o potencial das tecnologias emergentes de combate a incêndio inteligente, ainda há muito trabalho por fazer nos bastidores antes que essas tecnologias se generalizem. “Essa é uma área que a NFPA, como agência que desenvolve códigos e normas, pode apoiar enormemente”, disse Anthony Hamins, chefe da Divisão de Pesquisa de Incêndio do Instituto Nacional de Normas e Tecnologias ou NIST. “A NFPA tem um papel muito importante no desenvolvimento de formatos, protocolos e tipos de dados.”

Esse trabalho já está em curso. Se não houver objeções por parte do Conselho de Normas da NFPA, uma nova norma, a NFPA 950, Desenvolvimento e Intercâmbio de Dados para os Bombeiros, será publicada no início do próximo mês de novembro. Sua companheira, a NFPA 951, Guia para a Construção e Utilização de Informação Digital, será publicada em novembro 2015.

“Acredito que esses documentos da NFPA são muito importantes,” disse Casey Grant, diretor de pesquisa da Fundação de Pesquisa para Proteção contra Incêndio. “Penso que nos próximos anos veremos o arranque desses pequenos documentos adormecidos, porque esse é o rumo do mundo. O comitê técnico da NFPA para as NFPA 950/951 está realmente estabelecendo os indicadores básicos de arranque para toda a área temática.”

Como para qualquer indústria nova e em mudança rápida, a falta de uniformidade pode criar grandes problemas, ou pelo menos demorar os avanços potenciais. Os novos documentos lidarão com essa questão e “fornecerão uma estrutura para normas sobre o desenvolvimento, o gerenciamento e a partilha de dados para as agências e organizações de resposta a todos os riscos,” de acordo com o Capítulo 1 da norma proposta NFPA 950 .

“Alguns fabricantes estão desenvolvendo rádios que fornecem a localização geográfica dos usuários, dispositivos colocados na roupa que podem monitorar os órgãos vitais dos bombeiros, localizadores situados nos edifícios que podem literalmente desenhar o layout do local,” disse Christopher Farrell, pessoa de contato da NFPA para a NFPA 950 e a NFPA 951. “O único aspecto que está retardando o processo é que as diferentes tecnologias estão escritas em linguagens diferentes e em diferentes plataformas.  Alguns dispositivos falam facilmente entre si, alguns não. Poderia ser como a torre de Babel se não resolvermos isso.”

A primeira edição da NFPA 950 consiste de seis capítulos curtos que contêm informação relativamente básica, mas importante. Os tópicos incluem os requisitos para que os departamentos desenvolvam políticas de dados, planos para salvaguardar os dados essenciais e provisões sobre como formatar adequadamente as entradas de dados.

“Começa com assuntos de alto nível – a próxima versão terá material mais concentrado,” disse Farrell. “Estamos construindo uma caixa, e aquilo que vai dentro da caixa ainda deve ser definido. Esse é um bom exemplo de como estamos à frente dos acontecimentos.”

O impulso para desenvolver a NFPA 950 começou em 2008, quando um pedido de novo projeto foi submetido ao Conselho de Normas da NFPA. Após a aprovação, levou um tempo para que Farrell e outros identificassem os membros potenciais dos comitês técnicos, porque a norma “é uma área totalmente nova para a NFPA,” disse Farrell. Ele disse que visitou feiras comerciais para encontrar pessoas que pertencem aos mundos dos bombeiros e da tecnologia, porque de momento “eles não nos conhecem e não os conhecemos.”

Em consequência disso, a maior parte dos mais de 20 membros do comitê – que inclui peritos de tecnologias de combate a incêndio, consultores, professores, profissionais de dados entre outros – nunca participaram de um comitê da NFPA. Farrell acredita, como Grant, que num futuro não muito distante os lugares nos comitês da NFPA 950 e 951 serão cobiçados. “À medida que o mercado evolui e existe mais consciência, teremos um fluxo de pessoas que quererão estar envolvidas, porque haverá um grande potencial comercial nessa área”, prediz Farrell. “Eu garanto que muita gente vai olhar para essa norma e ver seu enorme potencial.” _ J.R.

Um acesso imediato a dados claros e bem organizados é essencial para os comandantes do incidente e os bombeiros no terreno.

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A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.