Sono Profundo
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Alarme, Detecção, Notificação & Señalización

Sono Profundo

Por Shelley Reese

Pesquisas são necessárias para determinar porque os alarmes de fumaça não despertam as crianças

Marci Douglas ainda chora quando assiste ao vídeo.

"Não consigo evitar," diz ela. "É tão forte. Se tivesse sido um incêndio de verdade." Sua voz vai sumindo. Quando pensa sobre o "se", ela começa a chorar de novo. Se o incêndio tivesse sido real, seu filho estaria morto.

O vídeo ao qual Douglas se refere é parte de uma reportagem mostrando como algumas crianças reagem, enquanto dormem, a alarmes de fumaça. A reportagem foi apresentada pela WCCO-TV de Minneapolis e produzida com a ajuda do Corpo de Bombeiros de Bloomington, Minnesota. O filho de Marci, Mitchell, então com 10 anos, foi uma das quatro crianças testadas para verificar como reagiriam a um alarme noturno contra fumaça.

A reação foi assustadora. Um menino saiu correndo por uma saída cheia de fumaça, em vez de procurar uma segunda saída. Uma menina acordou mas não reconheceu o som do alarme. Uma terceira não acordou, e quando sua mãe a acordou, ela simplesmente ficou petrificada no lugar.

Mas assistir Mitchell é o que traz lágrimas aos olhos da mãe.

"Eu nunca dei muita importância a isso antes do teste," diz Douglas. "Mitchell é um menino esperto. Pensei que ele pularia da cama na hora. Eu pensei que talvez ele tentasse fugir pela porta que estava cheia de fumaça, mas eu nunca pensei que ele não acordaria."

Ele não acordou. Por quase 15 minutos.

Desde que o canal WCCO fez essa reportagem, muitas outras foram feitas nos EUA, em lugares como Columbus, Ohio, Des Moines, Iowa, Milwaukee, Wisconsin e Jackson, Mississippi. Mesmo sabendo que essas matérias não têm os controles e as especificações de uma pesquisa de verdade, deixaram claro um ponto: algumas crianças continuam dormindo enquanto soa o alarme contra fumaça.

De acordo com relatórios publicados, pesquisadores sabem há muito tempo que as crianças dormem de modo diferente dos adultos, e que o sono infantil é especialmente pesado nas horas logo após pegarem no sono. Quanto mais nova a criança, maior é a probabilidade de que a fase de sono profundo seja mais longa.

A maneira como isso se relaciona à eficiência do alarme de incêndio em despertar crianças só agora passou a ser largamente reconhecida. Entretanto, as muitas reportagens na televisão aumentaram o interesse nos estudos formais existentes. Devido ao fato de as crianças com menos de 5 anos e os adultos com mais de 65-para quem a eficiência dos alarmes de fumaça pode também ser um problema-terem duas vezes mais chance do que o restante da população de morrer em um incêndio residencial, a pesquisa atraiu a atenção de todos os interessados em segurança contra incêndios residenciais.

 

Estudos lançados
Em janeiro passado, a Comissão Americana de Segurança de Produtos para o Consumidor iniciou um estudo de dois anos para investigar a eficácia de alarmes de fumaça para despertar crianças e idosos, e a Fundação de Pesquisa em Proteção contra Incêndio está seriamente avaliando a realização um estudo sobre crianças que não conseguem acordar com o alarme, de acordo com o presidente da Fundação, Rick Mulhaupt. Para atualizar os associados da NFPA sobre esse tema, a NFPA convidou a Dra. Dorothy Bruck, da Austrália, reconhecidamente uma líder nas pesquisas sobre este tema, para falar durante a Feira e Congresso Mundial de SegurançaT em Dallas em maio passado.

Além disso, o Underwriters Laboratories (UL) fez deste seu assunto principal durante a reunião de 7 de março de 2003 do Painel Técnico sobre Alarmes de Fumaça, realizado em Northbrook, Illinois, estabelecendo dois grupos de trabalho para estudar o assunto detalhadamente.

O primeiro grupo, composto de pediatras especialistas em sono, engenheiros de segurança, autoridades governamentais e fabricantes, recebeu a incumbência de coletar informações e propor pesquisas que permitam melhor entender os aspectos fisiológicos e técnicos da questão. Essas pesquisas podem levar a mudanças na maneira como os alarmes de fumaça funcionam e como são instalados e usados. O segundo grupo, composto por funcionários da UL, educadores, especialistas em proteção contra incêndio e fabricantes, está desenvolvendo informações para informar efetivamente o público sobre questões referentes a alarmes de fumaça e proteção contra incêndio.

Essas pesquisa e discussões são muito bem vindas, diz a Dra. Rita Fahy, gerente da NFPA para sistemas de bancos de dados sobre incêndios, que falou sobre o assunto no Simpósio de Pesquisa Aplicada sobre Detecção e Extinção de Incêndios, em Orlando, Florida, em janeiro passado, porque os dados disponíveis hoje em dia levantam mais perguntas do que respostas".

Estudo levanta preocupações
Apesar de serem menos emotivos do que cenas de televisão mostrando crianças dormindo enquanto soa o alarme, os estudos científicos publicados sobre o assunto são talvez mais preocupantes porque confirmam que esse problema existe e não é causado por condições de teste pouco realistas.

Bruck, uma psicóloga na Victoria University, na Austrália, foi a primeira a identificar o problema. Em seu estudo de 1999 publicado no Fire Safety Journal, Bruck testou 20 crianças na Austrália com idades entre 6 e 17 anos, para determinar como responderiam a alarmes soando a 60 decibéis, no nível do travesseiro. Ela realizou o teste duas vezes, e verificou que 17 crianças continuaram dormindo durante um ou dois testes. Duas ou três das que despertaram tinham 16 e 17 anos, entre as crianças mais velhas do grupo. De fato, para as crianças com 15 anos ou menos, a taxa confiável de despertar foi somente 5,6 por cento. Em contraste, Bruck verificou que todos os pais despertaram quando o alarme soou.

Em pesquisas subseqüentes, Bruck verificou que o aumento do volume de som próximo à cabeça das crianças fez somente pequena diferença. Em uma apresentação durante o quarto Simpósio de Ciência e Tecnologia de Incêndio da Ásia-Oceania em 2000, Bruck e a pesquisadora Angela Bliss relataram os resultados de um estudo com 28 crianças entre as idades de 6 e 15 anos. Em dois testes, as crianças foram expostas a um alarme de 89 decibéis; metade delas permaneceu dormindo em um ou nos dois testes. Entre as crianças de 6 a 10 anos, a taxa subiu para 71 por cento. Quando as crianças despertaram, permaneceram grogues por vários minutos, algo que poderia impedir sua capacidade de tomar decisões de durante uma emergência real. Colocado em termos mais simples, alarmes mais altos e mais próximos provavelmente não resolverão o problema.

Enquanto adultos e alguns especialistas em proteção contra incêndios se surpreendem com esses números, as crianças não se surpreendem muito.

Derrick Ethridge, oficial de prevenção de incêndios do Corpo de Bombeiros de Loyalist em Ontário, no Canadá, decidiu estudar o assunto quando várias crianças em escolas visitadas por ele disseram que achavam que não ouviriam o alarme quando este tocasse.

"Eles sempre diziam, 'Eu acho que não ouviria,' ou 'Eu durmo com minha porta fechada,' ou 'Eu acho que não acordaria,' " ele se recorda. "Eu achei que havia um problema só por conta do que as crianças me diziam, e eu queria saber se isso era verdade."

Com a ajuda do Professor Alistair MacLean do Laboratório do Sono da Queens University, da Sociedade Canadense de Audição, dos conselhos escolares de Limestone e Algonquin, e dos pais de 222 alunos da sexta série de Loyalist, Ethridge decidiu realizar um teste. Pediu aos pais que ativassem os alarmes de fumaça do lado de fora do quarto das crianças entre 9 e 11 horas da noite, em duas noites diferentes, em abril de 2002, e que medissem o tempo necessário para acordar as crianças. Os testes foram feitos uma vez com a porta fechada e outra com a porta aberta. As crianças sabiam do teste, mas não sabiam quando seria feito.

A equipe verificou que 31 por cento das crianças não acordaram, e 53 por cento não reagiram durante o primeiro minuto. Ethridge depois fez testes aleatórios em 22 residências. Testando uma vez com a porta do quarto aberta e novamente com a porta fechada, ele verificou que o nível de som em alguns casos caía a até 64 decibéis.

"Alguns pais me escreveram, 'Tirei o alarme de fumaça do teto e pus na cabeça do meu filho, e nem assim ele se mexeu.' Ou então diziam que o alarme tocou até acabarem as baterias, e a criança nunca acordou," diz ele. "Eles estavam definitivamente preocupados."

Apesar dos resultados perturbadores da pesquisa de Bruck e Ethridge, é importante considerar que os alarmes de fumaça têm demonstrado ser um enorme benefício. Desde o início da década de 70, quando alarmes de fumaça começaram a ser instalados em residências nos Estados Unidos, as mortes em incêndios residenciais foram reduzidas à metade. Residências com alarmes de fumaça-independentemente de sabermos se estavam em condições de funcionamento-apresentam um taxa de mortalidade 40 a 50 por cento mais baixa do que as residências sem alarmes, diz a Dra. Fahy.

Atualmente, a vasta maioria das mortes acontece em residências que não têm alarmes de fumaça, ou em residências onde os alarmes estejam quebrados, desmontados ou sem bateria. Metade das pessoas mortas em incêndios residenciais todos os anos morrem nos 5 por cento das casas que não têm alarmes de fumaça. Das mortes que ocorrem em residências que têm alarmes, metade ocorre nas residências onde o alarme de fumaça não funciona, o que representa um terço do total.

É preciso mais pesquisa
O fato de as crianças continuarem dormindo durante um alarme precisa ser estudado, diz Fahy, e a magnitude do problema não pode ser diagnosticada sem pesquisas adicionais.

"De todas as mortes devido a incêndios em residências, estamos falando de um subconjunto de 25 por cento que acontece em casas com alarmes em boas condições de operação," diz ela, "e precisamos saber mais sobre esses casos."

Por exemplo, como são alertadas as pessoas em um incêndio noturno? Os alarmes acordam os pais, que então acordam as crianças e as levam para fora da casa? Se for assim, os alarmes estão cumprindo seu papel ao alertar os pais e permitir que a família execute seu plano de ação?

Enquanto a média centra a atenção nas crianças que continuam a dormir durante um alarme, o que ocorre com moradores mais idosos, que têm maior possibilidade de ter perdas auditivas e maior probabilidade de morarem sozinhos ou com outras pessoas idosas? Que outros tipos de alarmes, tais como voz ou baixa freqüência, poderiam trazer melhores resultados? A interconexão de alarmes, como já exigido em novas residências, de acordo com o NFPA 101, Código de Proteção da Vida, faz realmente diferença?

Sem pelo menos essas informações é impossível tirar conclusões práticas dos estudos, demonstrações e reportagens existentes, diz Fahy.

John Drengenberg, gerente de Assuntos do Consumidor da UL, e moderador do painel de discussões de março sobre o assunto, tem o mesmo sentimento.

"Com base no que ouvimos de pediatras especialistas em sono e bombeiros, talvez não haja só uma resposta para um assunto tão complexo," diz ele.

A prática é a melhor solução
Enquanto são realizados estudos e tenta-se definir a melhor maneira de abordar o assunto, o presidente da NFPA, Jim Shannon, enfatiza que os pais não devem deixar que esta preocupação os desanime quanto à segurança contra incêndio.

"Se os pais concluírem que não precisam de alarmes de fumaça, eles estarão completamente equivocados," diz ele. "O fato é: alarmes de fumaça funcionam mesmo. O que resta saber é se podemos aprimorar a tecnologia e usá-la mais eficientemente."

Lee Richardson, funcionário de ligação da NFPA para o NFPA 72, Código Nacional de Alarmes, avisa para "não jogar fora o bebê junto com a água do banho".

"As pessoas têm que ver o assunto em sua totalidade," diz ele. Devem pensar em manter e testar os alarmes de fumaça e treinar os planos de evacuação da residência.

A NFPA 72 tem os parâmetros sobre o tipo de som que um alarme deve emitir e a sua intensidade por toda a residência, especialmente nos quartos de dormir. Apesar da localização dos alarmes de fumaça ser determinada pelo código de edificações local, a NFPA 72 também mostra locais típicos semelhantes aos indicados nos códigos.

Mesmo que as recentes reportagens tenham aumentado o nível de conscientização, os comitês técnicos da NFPA não estão ainda considerando a alteração dos códigos, diz Richardson. A próxima edição do Código Nacional de Alarmes deve ser publicada em 2006. As mudanças podem ser feitas então, se as pesquisas indicarem áreas nas quais podem ser feitas melhorias significativas.

Como disse Shannon, entretanto, a efetividade dos alarmes de fumaça está tão ligada ao que é feito em casa quanto aos códigos e normas.

"À medida que entidades ligadas à segurança, incluindo a NFPA, exploram a questão, há ainda boas razões para continuarmos confiantes sobre o papel dos alarmes de fumaça na segurança contra incêndio residencial," diz ele. "No futuro próximo, a lição que os pais devem aprender é que eles não sabem como seus filhos reagirão ao alarme de fumaça até que tenham testado sua reação a ele. Exercícios de abandono em casa são essenciais."

As evidências indicam que a familiarização com o som do alarme e os exercícios de abandono são boas idéias. Bruck cita pesquisas que indicam que adultos treinados para responder acordaram 90 por cento das vezes. Aqueles que não foram acordaram somente 25 por cento das vezes.

Apesar de não ter sido um projeto de pesquisa, as famílias que participaram do programa da WCCO tiveram uma experiência semelhante. Após as quatro crianças não terem sido bem sucedidas no teste inicial, seus pais conversaram com elas sobre segurança contra incêndios. Também prepararam planos de abandono e fizeram treinamentos. Marci Douglas discutiu proteção contra incêndio com Mitchell, e depois acionou o alarme de fumaça com um cabo de vassoura para que as crianças reconhecessem o som durante uma emergência.

Quando a estação WCCO repetiu o exercício algumas semanas depois, as quatro crianças despertaram e seguiram as instruções à risca.

Incentivando as famílias a se preparar
Judy Comoletti, vice-presidente assistente da Divisão de Educação Pública da NFPA, não somente reforça a importância de preparar e treinar os planos de abandono em casa, mas sugere que os pais ativem o alarme de fumaça e realizem exercícios de abandono à noite, para melhor medir a reação de todos na residência. Crianças e idosos não são os únicos que se arriscam a não acordar durante um alarme, ela acrescenta. Pessoas que não dormem o tempo necessário, como alunos de universidades, trabalhadores de turno, adolescentes, pessoas com problemas de audição, e qualquer um que tome sedativos, álcool ou drogas, podem também ser afetados.

"Cada família deve saber quem acordará-e quem não o fará-com o som de um alarme, de modo a atender as necessidades especiais," diz ela. Se alguém for difícil de acordar, Comoletti sugere a instalação de alarmes adicionais interconectados em todos os quartos. Se isso não funcionar, ela incentiva as famílias a prepararem planos de abandono onde um adulto que desperte facilmente acorde os que têm dificuldade para acordar.

"Todos nós achamos que conhecemos nossos filhos muito bem, e pensamos saber como reagirão a A, B ou C," diz Douglas. "Pensamos que sendo tão inteligentes, eles saberão exatamente o que fazer. Entretanto, a realidade é diferente, e não sabemos nada até que aconteça. É preciso treinar. É como ajudar seu filho a se preparar para um ditado na escola. É preciso treinar."

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