Águas Turbulentas
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Águas Turbulentas

Por ASHLEY SMITH

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Uma nova olhada nas marinas e estaleiros e os afogamentos por choque elétrico

Em 4 de julho de 2012, as famílias de Noah Winstead, de 10 anos de idade e Nate Lynam, de 11 anos de idade estavam passando  juntas o feriado no Lago Cherokee, na pequena cidade do Noroeste do Tennesse, Bean Station.O dia começou como qualquer dia feriado no lago, cheio de pessoas nadando, navegando e fazendo churrascos. Essa tarde, contudo, Noah e Nate estavam nadando na marina quando sofreram um choque elétrico. Noah morreu instantaneamente por eletrocussão e Nate morreu no hospital o dia seguinte. Outras pessoas, que se atiraram a água para salvar os meninos, sofreram ferimentos, mas sobreviveram. Uma investigação revelou que a fonte de eletricidade era uma fuga de corrente proveniente dum barco ligado ao sistema elétrico da marina.

O afogamento por eletrocussão, ou ESD (da sigla em inglês) despertou mais interesse em todo o país durante os últimos anos em conseqüência dos incidentes de alto perfil que causaram mortes, principalmente de crianças e adultos jovens. Duas crianças morreram por ESD no Missouri o mesmo dia que Noah e Nate perderam a vida. “Isso foi difícil de processar porque poderia ter sido prevenido”, disse Jessica Winstead, mãe de Noah. “As pessoas não imaginam que podem ser eletrocutadas assim, na água.” Uma série de fatores contribui ao problema do ESD. As marinas, quer no mar quer na água doce, são ambientes corrosivos que podem deteriorar o equipamento elétrico. Muitas marinas não têm interruptores diferenciais residuais (GFCI, da sigla em inglês), dispositivos que cortam automaticamente a corrente elétrica quando detectam uma fuga. As marinas são terra de ninguém quanto às inspeções de segurança e isso complica o problema. Organizações como a NFPA ou o American Boat and Yacht Council (ABYC) preparam regulamentos – incluindo inspeções anuais do cabeamento elétrico – mas a aplicação da regulamentação nas marinas é escassa porque muitas comunidades não designaram uma autoridade competente para as instalações, disse David Rifkin, fundador duma empresa baseada na Florida chamada Quality Marine Services, especializada na análise da corrosão e controle de barcos e marinas e oferece assessoria sobre segurança elétrica às marinas.

“Vimos vários casos onde, se tivesse sido realizada uma inspeção anual, o problema não se teria agravado até causar um acidente,” disse Rifkin, que passou os últimos 15 anos pesquisando os afogamentos por choque elétrico e foi co-autor dum relatório da Guarda Costeira dos Estados Unidos em 2008 sobre o tema. Ele surgiu como um dos peritos mais importantes do tema do ESD no país e foi co-apresentador do tema na Conference & Expo da NFPA em Las Vegas o ano passado.

Winstead teve êxito em sua luta para fazer adotar uma lei que torne obrigatória a instalação de GFCI nas marinas do Tennessee e para autorizar o Inspetor de Incêndios do estado a realizar inspeções de segurança em docas e marinas para garantir o cumprimento do código.

Também existe uma relação complexa entre os códigos e normas que se aplicam aos  barcos e marinas e as questões de segurança elétrica relacionadas. A NFPA 302, Norma para Proteção contra Incêndios para Embarcações a Motor de Lazer e Comerciais se aplica aos barcos, ao passo que a NFPA 303, Norma de Proteção contra Incêndio par Marinas e Estaleiros, se aplica às instalações que abrigam e prestam serviço às embarcações a motor. O NFPA 70®, Código Elétrico Nacional, assim como um conjunto de documentos do ABYC, cobrem as instalações elétricas nesses locais. O NEC®, contudo, cobre apenas as instalações novas e não lida com outras questões como a manutenção e a re-inspeção. 

À luz dos atuais riscos para a segurança e das mortes ocorridas, o comitê que supervisa a NFPA 303 ajustou os requisitos para a proteção de falta à terra na edição 2016 do código. O comitê debateu também se deveria proibir o banho nas marinas; a proposta não passou, mas os membros do comitê dizem que a questão ainda está em discussão. Entretanto, a Fundação de Pesquisa Para a Proteção Contra Incêndio está organizando mais pesquisas sobre o problema do ESD, a partir das quais as partes interessadas esperam obter uma base para futuras mudanças das normas relevantes.

Perigo invisível

O afogamento por eletrocussão pode ocorrer quando os sistemas elétricos instalados nos píers, ou os barcos conectados no sistema, perdem corrente elétrica na água. Uma série de fatores afeta o impacto que a corrente elétrica pode ter numa pessoa na água, incluindo a quantidade de eletricidade, o tamanho da pessoa e a proximidade da fonte de energia elétrica. Dependendo dessas variáveis, a pessoa pode morrer, ficar ferida, sentir uma leve sensação de formigamento ou não sentir nada. O ESD tende principalmente a ocorrer na água doce, mas pode acontecer em qualquer ambiente de marina dependendo das condições. Às vezes o choque em si pode matar, outras vezes o choque provoca uma paralisia que causa o afogamento – fazendo do ESD um culpado esquivo. No segundo caso, disse Rifkin, nem sempre a autopsia pode determinar se um choque elétrico causou a morte, embora a hipótese seja sustentada indiretamente por relatos de testemunhas oculares ou por sensações de choque relatadas por socorristas e outros nadadores. Nenhuma autoridade ou organização pública rastreia os incidentes de afogamento por choque elétrico.

Constatando a falta de dados, James Shafer começou a compilar uma lista não oficial de incidentes por volta de 15 anos atrás. Shafer, como Rifkin, dirige uma empresa de consultoria em segurança das marinas, a Harbor Marine Consultants, e eles formaram uma equipe para escrever juntos o relatório da Guarda Costeira sobre ESD, “In-Water Shock Hazard Mitigation Startegies”. Rifkin começou a trabalhar na atualização da lista, que documenta atualmente 73 incidentes mortais por ESD registrados desde meados dos anos 1980 e 41 quase desastres. Rifkin disse que o número real de incidentes é provavelmente mais alto porque muitos são mal classificados como afogamentos.

A NFPA 303 foi criada para proteger as vidas e a propriedade do fogo e dos riscos elétricos em instalações à beira da água, como marinas e estaleiros, clubes náuticos e docas, assim como em instalações onde os barcos são estacionados em terra. Isso não se aplica aos píers privados ou a instalações comerciais muito extensas, mas cobre quase todas as instalações entre esses dois extremos, disse Ken Bush, engenheiro de proteção contra incêndios do Departamento da Polícia do Estado do Maryland e Presidente do Comitê sobre marinas e estaleiros, que supervisa o desenvolvimento da NFPA 303. As provisões se aplicam à construção e operação de marinas e instalações relacionadas, à manutenção de sistemas e equipamento de combate ao incêndio, ao cabeamento e equipamento elétrico, à proteção contra incêndio e mais. A NFPA 303 requer inspeções anuais das fiações elétricas das marinas e dos barcos que estão conectados à alimentação elétrica das marinas para verificar a existência de correntes de fuga.

O NEC lida também com as marinas e uma mudança importante na nova NFPA 303 é a que remete os usuários ao Artigo 555 do NEC para orientações sobre a instalação de proteção de falta à terra em marinas e estaleiros. Em 2011, o NEC foi atualizado requerendo que as marinas tenham proteção de falta à terra a partir de 100 miliampères, ou 0,1 ampères. Se for detectada uma fuga de corrente superior a 100 miliampères o interruptor dispara e corta a corrente. As marinas podem ter varias fontes de fuga e o nível foi escolhido para proporcionar proteção evitando ao mesmo tempo os cortes não desejados. Contudo, uma corrente de 100 miliamperes ainda pode ser perigosa para uma pessoa na água, razão pela qual foi proposta uma mudança para a edição 2017 do NEC passando o limite de proteção por Interruptor Diferencial a 30 miliamperes, um nível mais seguro para os nadadores, os proprietários de barcos, os trabalhadores da marina e outros.

De acordo com John McDevitt, consultor da indústria náutica, presidente do comitê técnico da NFPA 302 e membro do comitê técnico da NFPA 303, a localização dessa proteção também é importante. Ele disse que o NEC requer proteção de falta à terra apenas na entrada do píer; caso se detecte uma corrente de fuga acima do nível admissível com uma única proteção de falta à terra instalada na entrada do píer, quando o interruptor dispara todo o píer perde a alimentação elétrica. Se cada tomada de alimentação dos barcos tivesse uma proteção de falta à terra – uma tomada pode servir usualmente de um a três barcos – seria possível isolar o problema e prevenir o corte de energia em todo o píer, disse McDevit. A diferença é importante para o cumprimento do código, acrescentou. “Se os cortes forem freqüentes, os proprietários dos barcos não estarão satisfeitos com os proprietários das marinas. Por isso, os proprietários das marinas poderão não estar dispostos a cumprir novos regulamentos.”

Apesar da existência das normas, elas não são aplicadas amplamente por vários  motivos, dizem os especialistas. Muitas municipalidades não escolheram uma autoridade competente responsável pelas inspeções, entre o corpo de bombeiros, o inspetor de eletricidade, o inspetor de incêndios ou o serviço que controla o cumprimento dos códigos, disse Rifkin. Sem um responsável, as inspeções podem ser omitidas ou ignoradas. As companhias seguradoras não requerem inspeções como condição para proporcionar cobertura às marinas, ele disse. Usualmente os códigos e normas, incluindo o NEC, não são retroativos a não ser que incluam requisitos ou recomendações retroativos específicos.

As edições anteriores da NFPA 303 não especificam testes regulares dos dispositivos de proteção de falta à terra. Isso foi tratado na nova edição, que introduz a inspeção dos dispositivos de proteção de falta à terra a intervalos regulares com uma freqüência mínima anual. A norma requer também que as deficiências encontradas durante as inspeções e testes regulares (como, por exemplo, dispositivos de proteção de falta à terra danificados ou inoperantes ou correntes neutras de 120 volts passando por condutores de terra) sejam corrigidas.

De acordo com Bush, os bombeiros e os inspetores que controlam a aplicação dos códigos não estão familiarizados com a NFPA 303 e seus requisitos de inspeção. Isso está começando a mudar, ele disse, em parte porque a NFPA 303 é citada agora em normas que são mais amplamente reconhecidas, como o NFPA 1, Código de Incêndio. Mesmo assim, ele disse, precisamos promover a conscientização.

A consciência cresce

Embora ainda falte bastante para a aplicação do código nas marinas, a consciência nacional sobre afogamento por choque elétrico está aumentando. Os estados de Tennessee, West Virginia e Arkansas aprovaram legislação para aplicar as normas de segurança nas marinas e Kentucky está considerando uma lei que proibiria nadar a menos de 50 pés duma marina. Nos quatro estados, os pais das crianças que morreram afogadas por choque elétrico fizeram campanha a favor da legislação.

“Imagino a adoção [de essas leis] em outros estados, mas você deve ter realmente alguém que trabalhe para isso,” disse Winstead. “Lutamos. Falei no Senado do Estado. É muito difícil que alguém se oponha a uma mãe que chora a perda dum filho.”

Uma organização sem fins lucrativos chamada Associação de Prevenção do Afogamento por Choque Elétrico foi criada para a conscientização e especialistas como Rifkin prepararam material de treinamento que os corpos de bombeiros e os inspetores possam utilizar para aprender sobre o afogamento por choque elétrico e identificar os riscos, assim como dicas para os socorristas que respondem aos acidentes.

Falou-se muito em proibir o banho nas marinas como solução. O comitê técnico da NFPA 303 considerou a idéia quando escreveu a versão revista do código para 2016, mas a proposta foi rejeitada. O comitê não se sentia cômodo com a proibição porque não tinha detalhes suficientes sobre o tamanho e a extensão da área onde deveria ser proibido o banho, disse Bush. Havia também questões relacionadas à sinalização nas marinas notificando os usuários de barcos, incluindo o tamanho e a localização dos sinais. A questão será debatida novamente na próxima reunião do comitê, disse Bush. A próxima edição da NFPA 303 não será publicada até 2021, mas o comitê pode também considerar uma moção de emenda certificada, ele disse.

Além disso, a Fundação de Pesquisa para a Proteção contra Incêndio (FPRF, da sigla em inglês) encomendou recentemente um estudo intitulado “Assessment of Hazardous Voltage/Current in Marinas, Boatyards and Floating Buildings.” O objetivo do estúdio, preparado pela American Boat and Yacht Council Foundation e publicado em novembro, era compilar a informação disponível sobre os afogamentos por choque elétrico e encontrar uma solução tecnológica para preveni-los. O estudo recomenda que todas as marinas tenham monitores de falta à terra que detectam correntes elétricas demasiado elevadas e fazem disparar o disjuntor. O estudo avaliava também vários produtos comerciais concebidos para esse fim. A questão técnica diz respeito ao nível apropriado de ativação do dispositivo – de modo a encontrar um equilíbrio entre a meta de segurança e a probabilidade de cortes não desejados que levariam a  contornar ou ignorar a implementação do requisito no mundo real.

Contudo, de acordo com Casey Grant, diretor da FPRF, existem outras estratégias de proteção que ficavam fora do escopo desse estudo especifico, incluindo lidar com os sistemas elétricos nos próprios barcos, não apenas os píers das marinas; práticas melhoradas de manutenção nas marinas e abordagens não técnicas como campanhas de educação e sinais de alerta nas marinas sobre os perigos da corrente elétrica. Já que algumas questões permaneciam sem resposta, a fundação organizou uma reunião de planejamento de um dia em Baltimore em Agosto para debater outras estratégias de prevenção de afogamentos por choque elétrico e decidir se precisamos mais pesquisa, disse Grant.

“Muitas pessoas estão preocupadas e querem fazer o correto para prevenir os afogamentos por choque elétrico,” disse Grant. “Por isso este tema tem um lugar especial – às vezes temos um grupo que põe obstáculos ou opõe alguma resistência, mas com este tema não acontece. Não há ninguém que rejeite o assunto ou diga que não é um problema. Aqui o desafio é identificar e implementar pesquisas e outras ações que apóiem soluções realistas, tanto nos códigos e normas como por outros métodos.

ASHLEY SMITH é redator independente baseado em Portsmouth, New Hampshire.

Recursos adicionais sobre o afogamento por choque elétrico

  • Leia o estudo da Fundação de Pesquisa para Proteção contra Incêndio, “Assessment of Hazardous Voltage/Current in Marinas, Boatyards and Floating Buildings.”
  • Leia o relatório da Guarda Costeira dos Estados Unidos de 2008 sobre o afogamento por choque elétrico escrito por David Rifkin e James Shafer.
  • Leia mais sobre a Associação para Prevenção do Afogamento por Choque Elétrico.
  • Informe-se mais sobre a reunião da Fundação de Pesquisa para Proteção contra Incêndio em Baltimore em agosto para explorar estratégias de prevenção dos afogamentos por choque elétrico.
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