Prevenir Incêndios com Dados
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Investigação & Tema Ecológicos

Prevenir Incêndios com Dados

Por Jesse Roman

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Nathaniel Lin, novo diretor de estratégia e análise de dados da NFPA, fala sobre a forma como o poder do “Big Data” pode ser aproveitado para aprimorar todos os tipos de iniciativas no âmbito da proteção contra incêndio e segurança humana.

Entrevista realizada e editada por Jesse Roman, redator do NFPA Journal

Na atualidade, cada setor da economia é afetado pela revolução do big data (megadados). Termos como “análise de dados” são usados habitualmente por professores nas aulas das escolas de negócio e por diaristas que participam telefonicamente de programas esportivos nas rádios locais. O Netflix rastreia os hábitos de consumo de conteúdo dos assinantes para contribuir com informação ao desenvolvimento de novos conteúdos. As cidades em todo o país coletam e analisam enormes quantidades de dados para ajudar a orientar políticas e ganhar eficiência. Os conjuntos de dados ajudam a combater a propagação da malaria, obter melhores colheitas e até identificar formas de fomentar a felicidade no mundo.

Mais perto de casa, a NFPA considera a análise de dados para ajudar a reduzir as mortes e a perda de propriedades em incêndios. Em setembro, a NFPA contratou o cientista de dados Nathaniel Lin  como diretor de estratégia e análise de dados, mais um passo decisivo dado pela organização no mundo da análise do big data. Lin e sua equipe utilizarão os fluxos de dados que a NFPA e organizações parceiras coletaram por décadas, assim como novas fontes, para ganhar valiosos insights e construir ferramentas e modelos orientados pelos dados para alimentar com informação as decisões da NFPA e ajudar as partes interessadas a fazer seu trabalho de forma mais eficiente e efetiva.

Lin pensa que a NFPA está sentada sobre uma “mina de ouro” de informação; as oportunidades se encontram por toda parte, disse ele, desde os modelos baseados nos dados que proporcionam informação para as estratégias de redução de risco dos incêndios florestais até ferramentas analíticas que ajudam os fiscais a aprimorar seus programas de inspeção. “Os dados, com o tipo certo de análise avançada, são realmente transformadores”, disse Lin, que trabalhou com análise de negócios para firmas da lista Fortune 500 incluindo Fidelity Investments, AT&T e IBM. “Senti que trabalhar para a NFPA, com sua missão de salvar vidas e propriedades, seria uma utilização muito boa da perícia em análise que acumulei.”

A NFPA trabalhará com uma variedade de organizações para desenvolver soluções baseadas no big data para uma serie de desafios. De forma mais ampla, a NFPA vê o esforço como um catalisador para permitir que toda a comunidade da segurança contra incêndio e proteção da vida se integre à revolução do big data. Já estão em curso esforços de organização, disse Kathleen Almand, vice-presidente de Pesquisa da NFPA que está supervisando a nova iniciativa. “Queremos ser o ponto focal dessa atividade na comunidade,” ela disse. “Acontecem muitas coisas lá fora com os dados, mas está todo muito desconectado. Temos a plataforma nacional que serve a comunidade. É uma solução natural para nós”.

Desde que integrou a NFPA,  LIn trabalhou para juntar os blocos de construção da nova iniciativa, incluindo o desenvolvimento da estratégia do big data. Novas ferramentas, plataformas e produtos baseados na pesquisa de análise de dados da NFPA poderiam ser implementados e estar disponíveis para uso já em 2016, de acordo com Almand.

Lin, natural de Taiwan, é graduado da Universidade de Birmingham na Inglaterra e da Sloan School of Management do Massachusetts Institute of Technology. Ele pesquisou tecnologias avançadas de radar e sensores supercondutores para a Força Aérea dos Estados Unidos durante 17 anos antes de mudar de carreira. Depois de frequentar o MIT, foi recrutado pela IBM para dirigir o grupo de análise de marketing da empresa na região Ásia-Pacífico. Ele trabalhou também como professor adjunto de análise de negócios no Boston College, na Bentley University e no Geórgia Tech College of Management e é autor do livro publicado em 2015 “Applied Business Analytics – Integrating Business Process, Big Data, and Advanced Analytics.” O NFPA Journal falou com Lin sobre seu novo papel na NFPA, o que o mundo da proteção contra incêndio e segurança humana poderia ganhar com a análise avançada de dados e quão cedo a nova estratégia de dados da NFPA poderia pagar dividendos tanto à organização como a seus parceiros.

Seu apelido aqui é “monstro dos dados”. Como define seu novo papel?

Antes de todo, dou credito à equipe de direção sênior por identificar este “monstro dos dados” como uma parte importante da estratégia de progresso da NFPA. Na minha maneira de ver, meu trabalho consiste em dirigir as iniciativas de utilização dos dados para criar valor para a NFPA – para aumentar a proposta de valor da NFPA, por assim dizer. Seremos parte duma equipe de transformação de dados – “monstro de dados” parece-me Godzilla que vai para a cidade e esmaga tudo no caminho. Um transformador é diferente. Um transformador vem num único formato, mas se adapta a diferentes situações. Se a situação pede um jato, ele se torna jato. É assim com os dados. Os dados, com o tipo certo de análise avançada, são realmente transformadores.

Esses termos são muito usados, mas para constar, como define “big data”?

Essa é uma muito boa pergunta. Big Data é de fato um termo errôneo, se você pensa em termos de volume. Em big data, o “big” é definido em termos de grandes desafios e grandes oportunidades. O big data pode ser caracterizado por quatro “V”. A primeira é volume – tem muito disso. O segundo é Variedade – os dados não são apenas numéricos, mas existem em muitas formas. Podem ser arquivos de texto, áudio ou áudio visuais, podem ser registros telefônicos de centros de chamadas – todo tipo de coisas. Dentro dessa variedade, alguns dados são facilmente definidos e armazenados porque estão bem estruturados. Alguns dados são pouco estruturados. Por exemplo, se você toma recortes de jornal e os digitaliza, temos muito texto, mas se você quer voltar e perguntar quantos desses recortes de jornais contêm situações onde uma mangueira de incêndio falhou, não pode fazê-lo sem que alguém percorra 70 anos de dados. O big data pode fornecer uma estrutura a esses dados não estruturados e você pode de fato começar a fazer algo com eles.

Quais são as últimas duas V?

A terceira é velocidade. Durante um incêndio, alguns dos dados podem ser utilizados em tempo real. Um exemplo é um dispositivo biométrico como o Fitbit que verifica a frequência de pulso cardíaco. Imagine este cenário: o pulso base dum bombeiro é 60, e quando entra num incêndio seu pulso salta para 120 devido ao surto de adrenalina. Mas logo você vê em tempo real que a frequência de pulso do bombeiro aumenta para 140, 150, 160 e continua a subir, porque está desidratado e corre perigo. Esses dados são transmitidos em microssegundos para o tablet ou telefone celular do comandante da unidade. Ele pode chamar pela radio e dizer ‘Eh! Joe, sai daí’, e você acaba de salvar a vida dum bombeiro. Então a velocidade é muito importante.

A quarta é a Veracidade. O desafio se apresenta quando você quer fazer algo com um conjunto misturado de dados – onde não sabe muito sobre eles e tem muitas incógnitas. Dados que são muito vastos e variados e entram rápidos e furiosos apresentam um grande desafio, mas também uma grande oportunidade. Se você pode integrá-los, gerenciá-los e analisá-los, então você pode usá-los para predizer, executar, diagnosticar e prescrever soluções. Isso é algo que espero trazer à NFPA. De fato, algumas pessoas acrescentam um quinto “V” para valor. Aplicado adequadamente, o big data demonstrou que pode gerar grandes valores em muitas aplicações.

A utilização de big data e da análise de dados parece ser onipresente em todos os setores. Onde se encontra a comunidade de proteção contra incêndios e segurança humana nesse arco?

Para o incêndio, a NFPA pode estar na vanguarda. Em relação a todas as indústrias, contudo, a comunidade de proteção contra incêndio e segurança humana está começando. Se você pensa na análise de dados, é como um tsunami – alcança diferentes indústrias em diferentes momentos. A análise começou a entrar neste país nos anos 80 ou no início dos anos 90 com empresas que enviavam catálogos pelo correio aplicando a análise para definir o conteúdo do catálogo e a quem deviam enviá-los. Isso passou às companhias de tecnologia, hospitalidade, finanças, telecomunicações, e cuidados de saúde.

Eu diria que a indústria da proteção contra incêndios está quase na parte final daquela onda. Mas existe uma vantagem para quem se encontra no fim, porque todos os outros já cometeram seus erros e podemos estudar as melhores práticas que podem fazer que nossa curva de adoção seja muito mais curta. Se a NFPA adotar essas melhores práticas e aproveita sua posição e seus conhecimentos, recursos e relações atuais, em vez de levar uma década, o processo poderá durar dois ou três anos. Para por as coisas no contexto, em 2001, quando construí minha equipe no início na IBM, a ferramenta analítica que utilizamos custou um milhão de dólares e o processo de construção do modelo levou um par de meses. A ferramenta hoje é mais rápida, muito mais fácil de usar e muito mais poderosa – podemos construir modelos em dias – e não custa nada. É freeware. Então pode ver como as coisas mudaram.

Quais são as áreas da NFPA que estão maduras para continuar com a exploração em relação aos dados, e acrescentar algo do valor de que você falou?

Há oportunidades por todo lado. Proteção pública contra incêndio, incêndios florestais, engenharia, códigos e normas, IT, estratégia de negócios, marketing, vendas, pesquisa – todas essas áreas estão prontas para a aplicação da análise do big data. Basicamente, sempre que tenhamos dados em números e texto e que precisemos uma solução ou insights.

Pode citar um exemplo especifico de como esse processo de coleta e análise de dados poderia produzir algo significativo para nossos parceiros?

Muitas comunidades da interface urbano/florestal (WUI, da sigla em inglês) estão expostas a incêndios florestais de propagação rápida. Imagine que tomemos todos os dados que pertencem àquelas comunidades – dados estruturais, dados do National Fire Incident Reporting System (NFIRS), novos recortes de jornais – e usemos como filtro os incêndios florestais. Tudo isso poderia fornecer dados úteis que poderiam ser indicadores de incêndio, como a localização de incêndios passados, padrões climáticos e de estiagem, restrições nas estradas que dificultam o acesso dos bombeiros, distância até o ponto de água mais próximo, tipos de materiais de construção, limpeza em volta das propriedades e coisas assim. Com o big data podemos produzir um modelo capaz de predizer com alguma certeza a probabilidade de uma comunidade e propriedade sofrerem perdas significativas num incêndio da zona de interface numa estação em particular. Por exemplo, para residências situadas nesta comunidade, com este tipo de telhado, a esta distância da casa mais próxima, esta é nossa predição da probabilidade de uma casa se incendiar este verão. Podemos tornar muitos dados antes considerados inúteis não só em algo utilizável, como também em conhecimentos que podemos usar de forma confiável para planejar estratégias de proteção contra incêndio.

Qual seria a aplicação desse modelo no mundo real?

Poderíamos utilizar essa informação para classificar as comunidades de acordo com a probabilidade de sofrer incêndios florestais—a NFPA poderia dizer com alguma certeza que uma comunidade, por não fazer mitigação, aumentou sua probabilidade de sofrer um impacto significativo dum incêndio florestal de 50 a 80%.  A comunidade poderia também utilizar nosso modelo para diminuir a probabilidade de incêndio. Não estamos dando apenas uma recomendação geral – podemos também encontrar fatores que poderão reduzir significativamente seu risco a um custo aceitável. Os dados vão formar o modelo. Seremos capazes de predizer com alguma certeza diferentes abordagens para reduzir a probabilidade e a gravidade dum incêndio numa dada comunidade.

Você está dizendo que pode predizer o futuro com dados?

Sim e não. Não podemos usar a análise de dados para predizer aquilo que você comerá amanhã no café, mas podemos utilizá-la para predizer, com alguma certeza, a probabilidade daquilo que pessoas como você vão comer no café. Tem suas raízes na realidade. Se eu tivesse dito a mesma coisa 10 anos atrás teria parecido ficção científica. Agora está baseado na realidade porque vi isso acontecer em outras indústrias – as ferramentas existem. Aquilo que se precisa é a forma de executá-las.

Quais são suas ideias sobre a quantidade e qualidade de dados com os quais você tem de trabalhar na NFPA ?

A NFPA está realmente sentada numa mina de ouro, não só com os dados, mas também em sua relação com os parceiros. Temos os dados, tanto os dados disponíveis publicamente como os dados que nós mesmos coletamos. Temos também potencialmente acesso a muitos dos dados nas mãos de nossos parceiros. O poder da análise de dados e do big data reside em quão bem você os pode integrar; quanto mais pode integrar os dados, mais oportunidades poderá obter deles. Esse é o motivo pelo qual, na NFPA, afirmamos que uma visão 360° dos dados é muito mais poderosa e muito mais favorável à obtenção de insights significativos.

O que quer dizer com uma visão 360° dos dados?

Significa essencialmente que você considera todas as dimensões dos dados, mesmo quando pensa que os dados podem não fazer sentido. Meu mantra quando ensinava a aplicação da análise de dados aos estudantes de MBA era, “experimente sempre”. Experimente e deixe que os dados falem. Hoje as ferramentas da análise estão amplamente disponíveis – não é difícil encontrar uma ferramenta poderosa que possa decompor analisar e modelar os dados rapidamente e de muitas formas diferentes. É por isso que muitas vezes a melhor forma de conseguir respostas é só experimentar. Deixar que os dados falem.

Podemos tornar dados antes considerados inúteis não só em algo utilizável, como também em conhecimentos que podemos usar de forma confiável para planejar estratégias de proteção contra incêndio. 

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A National Fire Protection Association (NFPA) é a fonte dos códigos e normas que regem a indústria de proteção contra incêndios e segurança da vida.